Crítica | Como se Tornar o Pior Aluno da Escola

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O sistema educacional nacional está falido, ou vocês acham que provas de física são capazes de mensurar a capacidade do aluno, ou melhor, futuro cidadão em ajudar a criar um mundo melhor? Muita atenção à teoria e a gabaritos em detrimento de incentivo à criatividade, à arte, à socialização, à humanidade e, por que não, ao bom humor tornam a escola uma experiência maçante e ineficiente para muitas de nossas crianças, o que Como se Tornar o Pior Aluno da Escola reconhece, oferecendo como resposta a anarquia em forma de comédia, embora uma com fim em si própria, sem se atrever a oferecer contribuições para alterar este status (diferentemente, portanto, do clássico Curtindo a Vida Adoidado).

Com lançamento coincidente com o dia do professor, uma piada sem graça, e com a estreia da animação As Aventuras do Capitão Cueca – O Filme, com a qual divide semelhanças demais para serem ignoradas, esta comédia assinada por Danilo Gentili, que adaptou o próprio livro aos cinemas, traz consigo a marca registrada do apresentador: a cruzada contra o politicamente correto, o que o leva a bater de frente nas políticas anti-bullying. Na história, Pedro (Pimentel) precisa tirar nota máxima em matemática, caso contrário, repetirá o ano. Mas isto parece impossível, sobretudo por causa do retrospecto desanimador depois da morte do pai, o que lhe tirou dos eixos. A chance surge após encontrar um caderno manuscrito com técnicas de “cola”, que o leva, acompanhado do melhor-amigo Bernardo (Bruno Munhoz), à suite presidencial de um hotel de luxo, onde encontra o personagem vivido por Gentili, cujo sucesso justifica com a vitória na Tele-Sena. Interessado em vingar-se do diretor Ademar (Villagrán), ele resolve ajudar Pedro a infernizar a escola perfeita e a ser aprovado.

O politicamente incorreto jamais deve ser argumento para desprezar uma comédia, basta lembrar que, se este recurso não existisse, Monty Python, Mel Brooks, Peter Sellers, Jerry Lewis, Woody Allen (no início da carreira), os irmãos Farrelly, Sacha Baron Cohen, Seth MacFarlane, Trey Parker e muitos outros nem existiriam. O importante é discernir se a comédia está APENAS rindo do próximo ou COM este, sem esquecer também de ser engraçada, o que, repetirei quantas vezes forem necessárias, torna esse gênero o mais difícil de ser criticado, pois o que me faz rir pode não funcionar para você. Desta forma, o uso excessivo de fluidos corporais (urina, fezes, baba e vômito), com direito a planos explícitos, como o plongé de uma privada, provoca nojo, em vez de risos. Enquanto isto, o emprego de apelidos tolos (Bernardo, por estar acima do peso, é chamado de “rasga mãe”), de estereótipos variados e do humor pastelão rasteiro (papel molhado caí na cabeça da professora ou uma pedra é posta no lugar de uma bola) parece ir de encontro ao desejado pela narrativa, que é ser ultrajante e subversiva, mantendo-se ainda no ensino fundamental do humor.

Por outro lado, há gags eficientes, como as menções a Stephen Hawking ou a Chico Xavier, e a sensação de que a comédia é melhor do que boa parte da produção nacional do gênero apenas por evitar o humor com selo de qualidade Zorra Total e se arriscar a abraçar o politicamente incorreto. Isto é feito desde o mini-filme introdutório, cuja logomarca da produtora fictícia tem o sutil formato da genitália masculina, embora não demora para Gentili comparar-se a Einstein (não diretamente, claro) e defender a destruição de Iracema, um clássico indispensável da literatura nacional, enquanto segura uma cópia de Fahrenheit 451 (para quem não conhece, uma distopia sobre um mundo sem livros). O que faz pouco sentido, já que esta presta-se a criticar sociedade iletradas.

Já a direção de Fabrício Vittar, com ajuda da montagem, busca conferir ritmo dinâmico à narrativa com transições em forma de rabiscos animados e jump cuts, como os saltos na continuidade enquanto Gentili transita pelas dependências do hotel. Entretanto, a inventividade do diretor esbarra no amadorismo da execução (p. ex. a sequência de perseguição de carros) e na insistência em empregar efeitos sonoros com o objetivo de enfatizar os cortes, o que na prática apenas é irritante.

E enquanto Danilo Gentili está interpretando ele próprio, parte do elenco veterano não fala para o que veio (refiro-me a Raul Gazolla, Joana Fomm ou Rogério Skylab, desperdiçados). Mas isto não se aplica ao zelador interpretado com acidez por Moacyr Franco, que xinga por segundo de projeção mais do que Dercy Gonçalves seria capaz. Por fim, embora elogie o casting de Carlos Villagrán – o diretor Ademar nada mais é do que a versão adulta do Quico da turma do Chaves -, o humor perde-se no portuñol que beira o incompreensível.

Mas não dá para comentar sobre Como se Tornar o Pior Aluno da Escola sem mencionar os elefantes no meio da sala, a cena protagonizada por Fábio Porchat, que interpreta um professor pedófilo, e a suposta apologia ao consumo de bebidas alcoólicas a menores de idade. Afirmar isto é desconhecer o papel da arte, consequentemente da comédia, que serve não somente para entreter, mas também para ironizar, chocar e polemizar a sociedade, bem como desconfiar do discernimento do espectador em compreender o que está vendo. De minha parte, prefiro apostar no chavão funcional e sem sensacionalismo para afirmar que, ao meu paladar, esta é uma comédia raramente engraçada e frequentemente de mau gosto.

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