Crítica | Cinquenta Tons de Liberdade

Dakota Johnson e Jamie Dornan em cena de 'Cinquenta Tons de Liberdade' (2018)

Embora não seja surpreendente, ainda sim uma parte dentro de mim está devastada pela forma com que o diretor James Foley (de Cinquenta Tons Mais Escuros) maltrata a linguagem cinematográfica no capítulo derradeiro da trilogia adaptada dos livros de E. L. James (um fanfic de Crepúsculo). Outra parte, entretanto, está radiante porque a tortura iniciada em 2015 finalmente acabou.

Escrito por Niall Leonardo, que também regressa do episódio anterior, o roteiro narra os eventos após o casamento e a lua de mel de Anastasia Steele (Johnson) e Christian Grey (Dornan), interrompida subitamente após a tentativa de sabotagem praticada pelo rancoroso Jack Hyde (Johnson, a tentativa referenciar o conto do Doutor Jekyll e do Senhor Hyde é tosca desde o nível conceitual). Bem, enquanto tentam lidar com essa ‘ameaça’, o casal também passa por poucas e boas, seja por causa do ciúme e possessividade de Grey (que não mudou absolutamente nada desde o primeiro capítulo) e dos flertes da arquiteta contratada para reconstruir a casa deles (Kebbel), ou pela expectativa da chegada do herdeiro do casal, malquisto em mais uma demonstração de imaturidade do playboy.

Como se pode concluir da sinopse acima, o roteiro não entende muito bem o conceito de conflito cinematográfico e isto fulmina suas tentativas de ser, primeiramente, coeso, saltando de tópico a outro com um despreparo temerário e amador. Note que logo após Anastasia impor-se diante da arquiteta Gia, em um momento embaraçoso a ponto de obrigá-la a exibir o anel no nariz da outra, esta subtrama é descartada, com a aparição da personagem a distância já em contexto totalmente distinto. Mas, nada pior do que a tentativa de inserir elementos de thriller na trama, e Hyde desponta, desde logo, como um dos piores personagens de tempos recentes: com os olhos avermelhados de quem ou está com conjuntivite ou cisco no olho (a forma que a narrativa encontra para ressaltar sua malignidade), o vilão crê ser astuto e inteligente, ainda que sequer passasse na prova do jardim de infância (isto explicaria o desconhecimento de como funcionam as instituições financeiras quanto a saques vultosos). E se falamos nele, de que cartola ele achou os 500 mil dólares para sua fiança ou, ainda pior, o que pensar sobre seu / sua cúmplice?

Nada disso é mais do que uma justificativa para esticar a duração da narrativa, cujo anseio está em seduzir o público com o romance erótico BDSM entre Anastasia e Christian. A propósito, calha repetir o que comentei anteriormente: não é porque Anastasia aprendeu a apreciar ser dominada no sexo e Christian, dominar, que mancha a narrativa de machista e sexista, e sim o que acontece fora do consensual, além do quarto de jogos. Desde os primórdios, Christian critica Anastasia por ‘estar mostrando demais’ na praia e posa de príncipe encantado de conto de fadas ao repetir ter ‘prometido protegê-la’; em seguida, condena-a por ventilar a ideia de um filho, de quem também teria ciúmes e vinga-se, usando o sexo, por ela ter saído com uma amiga para conversar. Isso sem contar a presunção em obrigá-la a usar o nome de casada, em vez de solteira, no e-mail corporativo.

Esse ponto particular exemplifica quão desesperadoramente ruins são os diálogos, e note que, embora se disfarce de uma conversa conjugal madura, a cena é uma forma explícita (mais do que as cenas de sexo mornas) de dominação masculina e subjugação feminina. A começar pelo modo hostil e impositivo com que Christian força a saída do autor com quem Anastasia estava reunida, para depois salpicar indiretas maliciosas sobre porque ela se tornou editora, sentar em sua cadeira e exigir o uso de Sra. Grey no lugar de Steele. Indignada, ela cogita ‘Se eu pedisse para você mudar seu sobrenome, você faria?’, para o que ele responde ‘Sim, se fosse importante para você!’, sem mencionar que é o nome dela que está em jogo, não ele. A retórica empregada, afora rasteira, é ainda subterfúgio para semear, na cabeça de Anastasia, a ilusão de que aquele amadureceu por esforço dela.

Ledo engano! Christian permanece o mesmo garotão mimado e abusivo que, no lugar de procurar tratar-se no divã da psicanálise, descontou suas frustrações na parceira, e a narrativa tenta a todo custo maquiá-lo de bom moço, com dotes musicais desconhecidos de seus amigos mais próximos. Na verdade, o que difere Christian de Jack é apenas a ocasião, e o apelo que ele desperta em parte do público feminino é muito mais assustador do que a descartabilidade dos personagens secundários (que entram e saem sem razão aparente) e a estrutura da narrativa: videoclipes bregas e ridículos (um corte de cabelo, sério?), intercalados por cenas de sexo maçantes que sequer impressionam garotxs recém chegados na puberdade e por discussõezinhas bobas, sem esquecer também de uma cena de perseguição de carros tão excitante quanto sopa de chuchu é afrodisíaca.

Uma adjetivação também válida para o epílogo, que repete Crepúsculo ao inserir os melhores momentos do casal, como se a ideia de revisitar o início do ‘romance’ fosse embalar o coração do público juntamente com a trilha sonora e devolver-lhe ao mundo real com a sensação de que assistiu ao conto de fadas moderno. Bobagem, Cinquenta Tons de Liberdade é apenas um forte candidato a pior filme do ano (como seus antecessores foram anteriormente).


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One Comment on “Crítica | Cinquenta Tons de Liberdade”

  1. Concordo em tudo.
    Foi embaraçoso ver como a trama trilógica foi finalizada.
    Feio também foi a tentativa de dar ar de príncipe ao canalha mimado e machista.

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