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O Espião que Sabia Demais

O Espião que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy, França/Inglaterra/Alemanha, 2011). Direção: Tomas Alfredson. Roteiro: Bridget O’Connor e Peter Straughan baseado no livro de John le Carré. Elenco: Gary Oldman, Colin Firth, Toby Jones, Ciarán Hinds, John Hurt, Mark Strong, Benedict Cumberbatch, David Dencik, Tom Hardy, Kathy Burke, Stephen Graham. Duração: 127 minutos.
A Guerra Fria, período histórico de intensa crise geopolítica e tensões entre os Estados Unidos e a União Soviética, segregou o mundo em dois grandes blocos (na verdade, três), e estabeleceu um clima de insegurança global concretizado no temor de um conflito nuclear entre as nações. No meio-campo, a Inglaterra, obviamente alinhada (e submissa) aos Estados Unidos, detinha posição estratégica de destaque no cenário europeu, o que lhe conferia certo poder de barganha com a CIA, e fomentava os interesses particulares ingleses. Agindo com discreta autonomia e vaidade, a Inglaterra eventualmente se transformou em alvo de espiões soviéticos e se revelou um ponto de falha e de vazamento de informações, levando à decadência e à descredibilidade do serviço secreto britânico, o MI-6 (o qual receberia o irônico apelido Circus). Nesse contexto, o escritor John le Carré desglamourizou a espionagem e explorou as nuances morais e psicológicas daqueles personagens falíveis em uma de suas obras mais populares, O Espião que Sabia Demais.

Realizado anteriormente em 1979 como uma série de televisão, a intrincada narrativa de John le Carré parte de uma premissa relativamente simples: a investigação empreendida pelo aposentado agente de inteligência George Smiley (Oldman) para identificar um espião infiltrado pelos russos no alto escalão do MI-6. A partir da sindicância e dos depoimentos colhidos de integrantes do serviço secreto, Smiley debruça-se sobre os suspeitos, ex-colegas como Percy Alleline (Jones), Bill Haydon (Firth) e Toby Esterhase (Dencik), identificados pelo antigo líder do Circus Control (Hurt) por apelidos como “funileiro”, “alfaiate” ou “soldado”. Dessa forma, o roteiro de Brigdet O’Connor (recém falecida, vítima de câncer) e Peter Straughan estabelece uma complexa rede de personagens, dúbios por ofício, e cuja linha do tempo não é linear, remontando a eventos pretéritos reconstruídos através da narração em voice over dos depoentes (auxiliados por serem rostos, na maioria, conhecidos do espectador). Além disso, as minúncias, como uma discreta saudação militar, revelam-se fundamentais na identificação do traidor, o que torna a exigente narrativa muito recompensadora àqueles que investiram 120 minutos na sua construção inteligente, meticulosa e ponderada.
Ambientado em um universo frio, acizentado e empoeirado, imerso nas sombras e desconfiança da fotografia de Hoyte Van Hoytema, os espiões do alto escalão da Circus são homens austeros e misteriosos cujo discreto franzir da testa ou o desvio do olhar podem sugerir muita coisa ou absolutamente nada. Por sua vez, os agentes de campo agem sob palpável estresse, e homens como Jim Prideaux (Strong) e Ricki Tarr (Hardy) apresentam sinais físicos e psicológicos evidentes do desgaste imposto pelo ofício, como olheiras e a inconfundível insegurança, evidente na armadilha ocorrida em Budapesta e registrada nos rápidos closes de elementos ligeiramente destoantes daquele cenário. Assim, enquanto Percy, Bill ou Toby soam alheios e insensíveis à espionagem propriamente dita, desviando seu interesse demasiadamente aos trâmites políticos (a discussão do orçamento de uma operação, por exemplo), Jim e Ricki parecem buscar uma âncora emocional que humanize o mundo ao seu redor, esperançosos apesar de estarem em relacionamentos destinados ao fracasso, o que torna comovente e agridoce a amizade de Jim com um jovem garotinho ou a afeição de Ricki por Irina (Svetlana Khodchenkova).
George Smiley é diferente. Enquanto a inalcançável reconciliação com sua esposa Ann (acertadamente idealizada ao jamais revelar o rosto) o fragiliza, algo que ele reconhece ao imediatamente mudar o assunto de uma conversa com a colega Connie (Burke), o aposentado espião é inegavelmente astuto, experiente e observador, o homem ideal para conduzir a investigação. Perfeitamente construído por Gary Oldman, Smiley é um sujeito reservado e meticuloso, de caminhar e gestos discretos (observe-o descruzar as pernas ou se livrar de uma incômoda mosca) e dicção cautelosa, restringindo-se a falar somente o necessário e a sorrir quase que envergonhadamente, uma ironia óbvia com o seu sobrenome. Acusando o peso de uma existência não exatamente feliz, e nesse sentido, nem mesmo a lembrança de uma festa de confraternização é bastante para o vermos sorrir, o espião parece aceitar a a missão apenas como maneira de justificar-se relevante a si mesmo. Aliado a ele, está o jovem e idealista Peter Guillam (Cumberbatch), cuja inexperiência sobressaí-se no nervosismo de suas mãos trêmulas ao realizar uma tarefa ou na animosidade ao recepcionar um antigo colaborador.
Dirigido por Tomas Alfredson (do ótimo Deixa Ela Entrar), que confere importância a cada diálogo proferido, sobretudo o emocionante relato de Smiley envolvendo o espião russo Karla (e pasmem, não há nenhuma palavra desperdiçada), a narrativa é desenvolvida com eficiência, paciência e segurança, similar a um desafiador jogo de xadrez. Com uma disciplina voyeurística, Tomas Alfredson compromete-se com os menores detalhes, e o close nos pés descalços de Bill Hayden além de sugerir a estupenda capacidade de observação de Smiley, vem recheada de informações ao espectador. Ao mesmo tempo, a elegante mise-en-scène e a composição de quadros surpreendem, revelando um misterioso visitante gatunamente descendo as escadas ou a inesperada presença de Roy Bland (Hinds), no fundo de um elevador. Todavia, o diretor não hesita em apresentar momentos intensos que, carregados de naturalidade, impressionam pela cruel secura com que são realizados, como é o caso de uma execução antecedida de um singelo sorriso.
Contando com uma minimalista direção de arte de Maria Djurkovic, repare no aviso “não desligue”, escrito a mão no computador de Connie no Circus, O Espião que Sabia Demais beneficia-se da ótima montagem de Dino Jonsater descortinando a complexa narrativa e administrando eventos de diversas linhas temporais competentemente. Assim, a predileção do montador que, durante os relatos mantém a voz do personagem fora do quadro e simultaneamente acompanha os eventos descrito, confere ritmo e agilidade à narrativa e um bem-vindo senso de urgência aos não-raros flashbacks. Dessa forma, antes mesmo de Smiley pedir as chaves de um apartamento, o montador já corta para um establishing shot do condomínio e em seguida para a tomada interna a qual encontra o espião e Peter inspecionando a localidade.
Inteligente na recatada revelação da homossexualidade de um personagem e apresentando 5 minutos finais geniais ao som de La Mer, na voz de Julio Iglesias, O Espião que Sabia Demais é um filme emocionante e revelador contextualmente coerente com a Guerra Fria: do grito silencioso que irrompe de seus espiões ansiosos por um contato humano à singeleza de um breve e praticamente impercetível gracejo de satisfação.

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4 comentários em “O Espião que Sabia Demais”

  1. Belo texto. Estou morrendo de ansiedade para assistir, desde que saiu o primeiro trailer e agora que vem sido recebido de forma calorosa pela crítica brasileira. Goiânia está atrasando ele, infelizmente.

    O elenco é formidável, repleto de atores de peso. E esse Tomas Alfredson parece ser um realizador promissor, por ter feito O Espião que Sabia Demais, que pelo que tudo indica é ótimo, e Deixe Ela Entra, que eu adoro – ainda que não ache a obra-prima apontada.

  2. O elenco é muito bom, mas quem se destaca mesmo é Gary Oldman e, em certo grau, o Benedict Cumberbatch. Acho que você vai gostar muito. É maduro, inteligente, intrincado, mas jamais incompreensível.

    Por fim, também não acho Deixe Ela Entrar uma obra-prima, apesar de ser ótimo. Esse, eu já ouso a chamar de pequena obra-prima.

  3. O filme é bom ,mas no Brasil ele foi MUTILADO em DVD e Blu-ray. O aspecto de tela original é 2.40:1 e aqui ficou em 1.85:1.
    Ou seja, dá-se um ZOOM no filme para preencher toda a tela e perde-se em qualidade.
    Brasileiro é metido à inteligente, muitas vezes é, mas na área de distribuição de filmes tem cada idiota !!!

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