O sofrimento como matéria prima do cinema
Aisha é uma imigrante sudanesa que trabalha como cuidadora de idosos na cidade do Cairo, no Egito. Explorada financeiramente pela agência onde trabalha, corrompida e instrumentalizada pela gangue da periferia onde habita, e até ameaçada, sexualmente, por um de seus clientes, Aisha tem uma ‘vida de cão’, e o fato de a atriz Buliana Simon mal abrir a boca para se expressar ilustra a sua incapacidade de modificar o seu status naquela sociedade, a sua resignação com a sua condição. Aisha apenas pode observar, e acredito que se pudéssemos entrar dentro de sua mente, escutaríamos as orações, ou os lamentos, e até os júbilos depois de certos acontecimentos. E aí, encontra uma ema.
Aisha Can’t Fly Away atravessa a estrada perigosamente sinuosa da empatia. Ao revelar a condição da protagonista, o diretor e roteirista egípcio Morad Mostafa evidencia por meio da ficção as histórias reais de tantas outras imigrantes no país – ou imigrantes ao redor do mundo -, mas também transforma esta experiência em um objeto, na matéria prima de uma arte limitada, em termos do olhar que registra e do que pode alcançar. É um cinema que se aproveita de uma situação de indignidade e desumanidade para fins de denúncia, na melhor das hipóteses, ou de pornografia e objetificação do sofrimento na pior delas. Tenho a sensação de que este trabalho, embora se assuma como uma denúncia via ficção, termina por repetir apenas os mesmos cacoetes e convenções que sensibilizam os públicos dos festivais de cinema – críticos, jornalistas, ou membros da indústria -, mas não as pessoas que estão em condição parecida com a da protagonista.

Formalmente, o trabalho é admirável: a edição sonora expressiva massacra o cotidiano de Aisha, as buzinas implacáveis dos automóveis, os trens que atravessam os trilhos. É tudo indicativo de uma cidade sequer indiferente, hostil mesmo, realçada pela poeira e pela decrepitude da direção de arte. Este realismo da narrativa convive com a fantasia surrealista que aflora à medida que os abusos e obstáculos multiplicam-se: de maneira Cisne Negro de ser, apesar de em sentido diferente, Aisha enxerga uma ema, e pode até estar se transformando nesta ave que não pode voar. Um apelo ao realismo mágico, ou mesmo à esquizofrenia, para afirmar quais as consequências de uma realidade brutal e massacrante.
Eu admito que já gostei de filmes iguais a este. Eu já me envolvi emocionalmente com a jornada dolorosa de protagonistas, cuja realidade fragmenta-se ao mesmo tempo que a sua psiquê: Abdoun, com quem tem um relacionamento afetivo, mas distante, afasta-se em razão da pressão de sua família. A sua amiga e colega da agência decidiu deixar o país em direção à Europa. Só quem resta à Aisha é o chefe da gangue, que exige dela, em troca de moradia e ilusão de segurança, a clonagem das chaves dos domicílios que atende para possibilitar furtos e roubos nas residências que atende. Sem apoio algum, Aisha ainda enfrenta o assédio e abuso sexuais, a conivência da agência – que inclusive acredita que atender os desejos lascivos do cliente faz parte do trabalho -, a solidão e o desamparo.
Filmes como esse atendem a impulsos imediatos dos espectadores, conferem a ilusão de empatia para que se sintam bem consigo mesmos, antes de retornarem à realidade relativamente cômoda, para a qual personagens como Aisha não conseguem retornar. No Egito, fugindo da guerra civil no Sudão, Aisha apenas revive o mesmo sofrimento, ainda que em uma forma diferente. A desumanização, a violência, a matança, todas as chagas de que fugiu ressurgem. A reiteração de abusos, a falta de momentos de leveza – salvo quando as colegas de trabalho dançam reunidas -, ou a realidade nua e crua podem provocar catarse emocionais pontuais. Mas, hoje, creio que são só meios de empregar a arte do cinema para perpetuar as violências que almejava combater. No fundo, a máscara de Batman reforça só uma visão maniqueísta que a produção traz consigo.
Aisha Can’t Fly Away está na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes de 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


