Um faroeste de muitas maneiras, inclusive as mais absurdas
Dos faroestes clássicos, sempre conservo a memória do vaqueiro ou xerife cavalgando em direção ao sol. Essa figura que traria a ordem e a civilização, ao custo da violência, e depois desmistificada nos faroestes revisionistas e espaguete, está no centro de Head or Tails, juntamente com a figura da mulher, que representaria o desejo do imigrante e do colono em se estabelecer naquela terra recém conquistada (cof cof, tomada mesmo) e constituir uma família. Essas convenções foram reviradas pela dupla Matteo Zoppis e Alessio Rigo de Righi, em uma narrativa divertida e charmosa, e ainda assim clichê e redundante.
Quando o roteiro tem início, Buffalo Bill Cody (John C. Reilly) trouxe à Itália a história e tradição do faroeste dos Estados Unidos – um aceno à evolução do gênero, depois de deixar de ser refém do protagonismo de John Wayne, e descobrir a voz de uma geração em Clint Eastwood. Então, Rosa (Nadia Tereszkiewicz), a infeliz esposa de um dono de terras poderoso, é ‘sequestrada’ pelo vaqueiro Santino (Alessandro Borghi), e Buffalo é convocado para resgatá-la. Rivalizando os caubóis estadunidenses e italianos, como se estivesse tentando provar quem fez melhor no gênero, a direção ainda investe em uma discussão sobre o papel da violência na construção e desenvolvimento estadunidense, e como esta mesma violência, após a civilização, tornou-se um motivo recorrente para a violência que agora entretém.

Não há nada de inédito em revelar que o violento, o selvagem, ou o bárbaro, não são os povos indígenas que antagonizam o herói das aventuras contadas pro Buffalo Bill, mas os donos de terra brancos, cuja ganância é tão implacável quanto os trens que cruzam as estradas de ferro levando o interesse próprio de carona com o progresso econômico e a destruição da fábrica da sociedade originária que antes habitava aquela região. Tão derivada é também a relação construída entre Santino e Rosa, e até a reação de Buffalo Bill, cuja vivência o capacitou a compreender o desejo de vingança do Sr. Rupè (Gianni Garko). Mesmo que a estrada por que atravessam os personagens tenha sido revisitada tantas vezes que não pareça trazer maiores surpresas, o roteiro consciente da história secular do gênero ainda encontra espaço para reviravoltas.
A dupla de diretores brinca de fazer faroeste, e mesmo que não criem nada de novo, é gostoso o aceno a subgêneros clássico, espaguete, zapata – quando realizam as críticas sociais, a ênfase no pré-capitalismo -, cômico – de Terence Hill e Bud Spencer, e afins – até absurdo e surreal, com alternativas na trama que renovam o pacto de suspensão de descrença do espectador. O cinema tem lá esse charme, quando o tempo passa e os gêneros amadurecem além de fórmulas iniciais, transformam-se em outras ‘criaturas’ jamais imaginadas no passado e que agora são perfeitamente aceitáveis, e estimulam outras formas de relacionamento do espectador com o material que está assistindo.
Pode não ter nada de novo, embora isso não seja necessariamente ruim: John C. Reilly continua despretensiosamente charmoso e bonachão, construindo a personalidade de Buffalo Bill nem como antagonista, nem como justiceiro, mas como documentador de eventos que se desenrolarão, quer ele deseje ou não. Já Nadia Tereszkiewicz é altiva e voluntariosa, no tipo de heroína contemporânea que não depende de autorização para agir do jeito que deseja agir – naturalmente que dentro das limitações que a situação e as circunstâncias impõem. Não é nada inédito, bom frisar, mas é agradável o bastante para manter a atenção, ainda mais para que for fã do ritmo característico do faroeste e admirar a direção de fotografia chapiscada e expansiva deste velho oeste, em um filme ora clássico, sempre revisionista, e até mesmo absurdo e surreal.
Head or Tails está na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes de 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


