A pele como fonte de ansiedade
A pele é a pedra angular do cinema de muitos autores: aqueles que a exploram com o víeis do erotismo, ou aqueles que, como Julia Ducournau, exploram-na como fonte de horror, trauma e inadequação, ou até aqueles que conjugam estas ambas perspectivas. A pele pode ser sensual, pode também ser assustadora, nela estando inscrita a história dos personagens cuja trajetória acompanhamos. Alpha continua a exploração do órgão por parte de Ducournau, após o bom Raw e o inferior Titane. Tome o exemplo de Amin (Tahar Rahim), cujas marcas das agulhas de heroína transformam-se na brincadeira de liga ponto para a sua sobrinha, Alpha (Mélissa Boros). A inocência ressignifica o vício, apropriando-se das chagas que simbolizam a dependência química e a marginalização resultante.
Alpha especula um futuro alternativo, em que uma doença misteriosa e incurável que petrifica a pele de suas vítimas até a morte — eternizando-as em estátuas de mármore ou obsidiana — é a fonte da ansiedade da mãe de Alpha (Golshifteh Farahani) depois de esta ter sido tatuada, contra o seu consentimento, durante uma festa do colégio. A agulha pode estar infectada, teme, e esta aflição é transferida à pré-adolescente de 13 anos, durante o período de descoberta da sexualidade, e ao espectador, que assiste ao processo visualmente doloroso da agulha que viola a pele. A realidade é mais agravada depois de Amin retornar para o apartamento onde Alpha e a mãe moram sozinhas, e a sua presença modificar fundamentalmente o cotidiano da família.
Conceitualmente, Alpha é brilhante. Ducournau recupera a estigmatização da crise da AIDS, quando as manchas típicas dessa doença pareciam autorizar a discriminação por parte da sociedade ignorante, alimentada por campanhas religiosas e governamentais, que relacionavam a doença à punição divina à comunidade LGBTQ+. Uma maneira de jogar a ciência sob o ônibus para ecoar o ódio ao outro de maneira desavergonhada. E, além de recapitular o ontem, a narrativa ainda remete à ansiedade contemporânea pós-Covid-19, e não é à toa que um dos sintomas da doença é uma espécie de tosse seca. O medo do contágio está relacionado à história de amadurecimento e de trauma familiar e engatilha o ataque de pânico de Alpha, que ora acredita que atravessa o terremoto, e ora acredita que o teto a está comprimindo.

Só que, na execução, Alpha repete alguns dos equívocos de Titane, embora se saia bem melhor ao costurar as suas frentes narrativas: em certo instante, a mãe de Alpha exige que o porteiro do hospital aceite a entrada dos pacientes infectado. A cena é montada com a de Alpha, presa no interior do banheiro, impedida de sair por colegas de escola que temem que esteja infectada. A relação temática é também formal, estabelecendo o diálogo que a narrativa conserva, mesmo que isto vá colocar em risco a lógica interna dos acontecimentos. Não vou entrar em detalhes, até para evitar spoilers, mas a forma de Ducournau resolver o roteiro evidencia inconsistências e fragilidades não atacadas pelo texto. As decisões estilísticas, por exemplo, a iluminação ou os penteados, podem guiar pela arquitetura fílmica, mas não ajudam a “explicar” — coloco o termo entre as aspas espessas por razões de distanciar-me do vídeo explicativo bait do YouTube para espectadores preguiçosos —, ou tornar coerente parte do que vivenciamos.
Alpha é bem melhor quando retorna a pele, suas transformações e tolerâncias. Esguio, Amin projeta as escápulas como se dançasse dentro de uma danceteria grega pensada por Yorgos Lanthimos. O incômodo provocado pela deformação da fisionomia só não é maior do que aquele provocado durante uma biópsia, o momento mais traumático e perverso da carreira de Ducournau, quando o horror literalmente desmorona no olhar do espectador. A pele é, sem dúvida, fonte de ansiedade. Ela adoece, envelhece, muda, grita, e não há nada que possamos fazer a respeito: a doença contaminará as células, e a idade mudará a constituição delas. A obsessão da mãe de Alpha em conservar a vida de um de seus pacientes desespera-nos, porque somos capazes de perceber ali o nosso próprio medo.
Mas Alpha abre mão da pele, e curva-se à familiaridade de uma família aprendendo a perdoar um ente querido que sofre de uma outra doença, a dependência química, que é tratada, por alguns, como uma escolha de vida, quando é só o adoecimento de quem pode, por exemplo, não saber conviver com a pele em que habita. Aí, Ducournau é até óbvia e redundante, desperdiçando o que Alpha tem de melhor, em prol da obediência à liturgia dramática. Se Alpha anseia integrar a sociedade, embora prefira a conotação negativa de ‘ser assimilado’, Ducournau permite que a narrativa perca sua identidade, apenas a reencontrando em um deserto que, nada mais é, do que o tecido da sociedade devastado. A sua pele, portanto.
Alpha está na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


