Amadurecendo à distância do nazismo
Baseado no roteiro autobiográfico do ator, diretor e professor Hark Bohm, nascido em Hamburgo e criado na ilha de Amrum, que intitula este drama de guerra, este trabalho do germano turco Fatih Akin investiga uma realidade intrigante em termos espaciais e temporais: uma ilha separada do continente quando a maré esvazia, para se reconectar no movimento oposto, na primavera final da 2ª Guerra Mundial, tempo antes de Adolf Hitler covardemente suicidar-se para não ser julgado e responsabilizado pelos crimes de guerra. Neste contexto histórico, o pré-adolescente Nanning (Jasper Ole Billerbeck) tenta atuar como o ‘homem da casa’: ele patrulha a praia, descobre um cadáver trazido pela maré e foge assustado; de dia trabalha na colheita de batatas na fazenda de Tessa (Diane Kruger), que não nutre nenhuma simpatia pelo ditador alemão.
Na típica narrativa de amadurecimento, Nanning aprende sobre a sua identidade, seu lugar no mundo, e seu papel na família, que espera a chegada de uma nova integrante – a sua mãe, fanática por Hitler, está grávida, a dias de dar à luz. Amrum está distante o bastante da guerra para que os bombardeiros que atravessam a extensão da ilha não represente nenhuma ameaça, embora esteja “perto” da alma e do coração das pessoas em lados ideológicos opostos, e Nanning, um membro da juventude hitlerista não por convicção, mas sim por conveniência, deve decidir de que lado da história estará, com as informações de que dispõe. A narrativa lembrou-me de O Menino do Pijama Lista, e a chegada de adolescentes poloneses para trabalharem na fazenda de Tessa representa o papel análogo da amizade no centro daquela obra, ao menos em essência.
Fatih Akin negocia o olhar inocente de Nanning e o juízo crítico do espectador ciente da história mundial, e faz com que momentos históricos, por ex. o anúncio do suicídio do ditador na rádio, e intimistas, por ex. a descoberta do cadáver de um parente, tenha uma duplicidade. Para Nanning, a morte de Hitler significa não o início do término do horror provocado pelo nazismo, mas o parto prematuro da irmã associado à depressão pós-parto da mãe. Para nós, é mais do que isso: é a liberdade socioeconômica da ilha e a transformação das relações humanas e individuais dos silenciados: a troca da moeda é apenas a ponta do iceberg da mudança.

Essa narrativa dúplice é encenada na trama central que move Nanning, de sua infância ao amadurecimento, convidando-nos para ser a testemunha das transformações locais. Nanning acredita que pão branco com mel e manteiga ajudará a mãe a recuperar a sua alegria. Com esta missão, ele abandona a escola, onde é discriminado por desconhecer o dialeto local, e perambula pela ilha a fim de encontrar os insumos necessários para a “iguaria” em tempos de carestia e pão de centeio. A jornada é gameficada, com fases e objetivo bem definidos, e a simplicidade desloca o olhar ao entorno e à simbologia, tal como a menção de Moby Dick, e a interpretação de que Hitler é o capitão Ahab de uma obsessão que poderá provocar o afundamento da Alemanha, o ‘navio’ que capitaneava.
Mas a inocência, a ingenuidade, ou a simbologia que esconde o significado das coisas não resiste à realidade, e a melhor parte de Amrum está no momento em que Nanning deverá confrontá-la: desde o instante em que sofre a consequência pelas suas palavras e omissões, até ao atravessar o (também simbólico) estreito que separa o continente da ilha nos momentos derradeiros antes do mar encher. Amrum ainda conta com imagens fotogênicas da ilha capturadas pelo diretor de fotografia Karl Walter Lindenlaub, não somente gratuitamente belas, mas essenciais para a percepção de como a beleza, ou a normalidade, podem esconder a ameaça à vida cotidiana (seja esta qual for), e o ponto de inflexão da perda da inocência.
Amrum é singelo, e mesmo que seja até temática e cinematograficamente conservador, é um filme competente em ilustrar como uma ‘lista de compras’ pode ser um ponto de não retorno no processo de amadurecimento, em uma região divorciada do mundo em um tempo divorciado da história.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

