Quando um jovem boxeador encara a sua mortalidade…
Camille é o jovem que todos os jovens desejam ser: admirado na academia de boxe, na qual se destaca como um prodígio no esporte, idolatrado pelo amigo, Matteo, desejado afetivamente. Camille tem tudo, até acreditar não ter mais nada quando a sua vida fica à beira do precipício do qual é salvo por Matteo. A sequela física sara oportunamente, mas a psicológica manifestada nas crises de ansiedade perduram indefinidamente. De uma maneira particular, a estreia do cineasta belga Valéry Carnoy na direção de longa metragem explora um cenário metonímico de quando o jovem encara sua mortalidade, e todas as certezas que tinha sobre a sua vida desaparecem no abismo que está prestes a devorá-lo. Enquanto faz isto, também explora a importância da amizade como forma de enfrentar o medo fundamental e do qual todos os demais se alimentam.
Camille e Matteo formam o centro emocional da narrativa, por um tempo: o primeiro, embora tenha sido convidado a treinar em uma academia melhor, decide representar e permanecer onde está, desde que a direção abone a cota estourada de transgressões de Matteo. Este carrega Camille, ferido e desacordado, por um quilômetro dentro de uma floresta, como um soldado carregando um companheiro ferido no campo de combate – foi esta a imagem que construí na cabeça, já que a direção inteligentemente suprime a exatidão do momento em favor do relato de Matteo. Dramas como Wild Foxes debatem temas acessíveis, através de caminhos já trilhados tantas vezes que podemos antecipar as batidas do roteiro: o afastamento de Camille e Matteo, à medida que aquele perde a confiança e segurança para boxear, e a esperada reconciliação através de um elemento previamente apresentado: uma canção.

Não integro o pensamento crítico que acredita que a previsibilidade necessariamente prejudica a narrativa cinematográfica; quem decide isto é a encenação, e a de Carnoy utiliza uma abordagem naturalista tradicionalmente belga, com uma simbologia bem marcada. A raposa do título é um exemplo: associada imediatamente ao protagonista, o animal selvagem é encarado pela população local como uma praga ao meio, de sorte que planejam uma caça às raposas que, evidentemente, estará associada à atitude dos colegas boxeadores de Camille. E, obviamente, a narrativa também explora o conceito dos dramas esportivos como metáforas do amadurecimento e da vida, e quem enxerga no ringue só uma luta pela vitória, não está acompanhando toda a tradição do cinema desde Rocky, Um Lutador até Menina de Ouro. Não que Wild Foxes tenha a pretensão de empregar tão literalmente o esporte dentro do tecido da narrativa, mas reconhece que a vida reflete no esporte, e este explica aquela.
Melhor do que o simbolismo, é sensibilidade. A fragilidade de Camille é bem expressa por Samuel Kircher, que antes do acidente tinha uma postura imbatível, e agora revela na postura física a sua inadequação. Se Faycal Anaflous tem a tarefa ingrata de mudar da amizade devocional à agressividade alimentada pelo rebanho, Anna Heckel dá vida à Yas, a recente amizade de Camille, que rapidamente amadurece em interesse afetivo – ele a convida a visitar a mesma floresta para onde ia com Matteo, aprende a elaborar o acidente e a acessar a sensibilidade sufocada pelo medo. Os momentos sensíveis são tocantes em sua simplicidade, tais como o agridoce e vulnerável ato de Camille filmar a luta de Matteo e não ter o retorno emocional desejado, e que contrasta com o rito de passagem brutal de esmagar uma lata na própria cabeça.
Wild Foxes não assinala a caixa de originalidade temática ou narrativa, mas é honesto no retrato do momento chave da vida de cada um, em que o vislumbre da mortalidade engatilha uma série de processos emocionais e psicológicos que moldarão nosso agir, sentir e ser para sempre.
Wild Foxes, ou La Danse des Renards, está na seleção da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

