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Caravan

Classificado como 3 de 5

Karavan

2025

100 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Zuzana Kirchnerová

A mãe que reencontra o desejo na estrada

Do mesmo jeito que a sociedade amadurece, também a arte que está à sua sombra, e o cinema contemporâneo procura preencher lacunas negligenciadas e inexploradas, em relação às quais o cinema clássico manteve-se omisso. A maternidade, enxergada além de uma ótica conservadora da constituição da família normativa, e o desejo da mulher madura são os objetos de reflexão artística da diretor e roteirista estreante em longas-metragens, Zuzana Kirchnerová, no drama de estrada Karavan. Ela se inspirou em suas experiências como a mãe de filho com síndrome de down e dentro do espectro autista, a fim de narrar a história de Ester (Anna Geislerová), de férias no sul da Itália com seu filho neuro divergente David (David Vostrčil), doce, curioso, imprevisível e violento. A estada na casa de uma família de amigos italianos é abreviada depois de David ter tido um episódio destrutivo, com consequências maiores do que meros danos patrimoniais — a tensão ocultada é sublimada, na mesa de jantar, a partir do emprego da câmera na mão, que confere instabilidade à aparente benigna confraternização. Algo acontecerá, e Ester e David precisarão retornar à estrada a bordo do trailer do título, onde eventos prometem transformar as suas vidas.

Karavan é o que costumo apelidar de filme de festival, que, não muito diferente do que o cinema de estúdio, obedece a uma fórmula, tanto na exploração do tema e na estrutura da narrativa, quanto na forma e no estilo. Isso fica bastante evidente quando oferecem carona à Zuza (Juliana Brutovská), um evento que modifica a dinâmica mãe e filho. Ela não é refratária ao toque curioso de David, que apesar da deficiência intelectual privá-lo de algumas regras de conveniência em sociedade, ainda é um adolescente com tesão e desejo. Ester supervisiona David à distância, do mesmo modo como faz durante uma rave. Ela não reprime nem repreende a exploração do afeto, pois talvez a sua carência a faça perceber como é uma dimensão essencial do ser. Contudo, o público pode encarar e tolerar diferentemente considerados seus pré-julgamentos diante da vulnerabilidade etária e intelectual de David, embora Zuza não se aproveite disso. É o cenário profícuo de um filme de festival, em que a temática está disposta e mantida em aberto, para que o público tire suas conclusões de uma forma bastante naturalista.

O que não está aberto é o direito de Ester em explorar a sua sexualidade, o que até é confundido por Zuza como exploração do trabalhador, em um momento irreverente, menos para Ester que tem o ato interrompido. Isso porque, para permaneceram em uma estrada em que até a praia é uma propriedade privada sujeita a expropriação, as mulheres devem trabalhar e lubrificar a engrenagem do capitalismo — um obstáculo para o exercício da sexualidade ainda maior para Ester: se uma parte significativa do seu tempo é dedicada ao trabalho, outra é a David, que tem necessidades especiais e comportamentos erráticos. É onde a maternidade, sororidade e o desejo convergem, nem que somente temporariamente, enquanto Zuza estiver na companhia da dupla, dando a Ester a oportunidade para usufruir sua feminilidade e preencher a carência afetiva com a naturalidade com que David masturba-se desenvergonhado na praia.

Formalmente, Kirchnerová expressa a sensorialidade extremada de David a partir da direção de fotografia e da edição sonora: o mar reflete a luz solar com muita candura, os sons das ondas e das gaivotas em revoada conferem o aspecto paradisíaco e idílico ao sul da Itália, e emolduram a troca de olhares entre Ester e o anfitrião casado, e não me parece haver ali apenas a imagem da mãe escondendo a ereção do seu filho. E, não poderia deixar de ser em um filme de estrada, as paisagens revelam o mundo possível, ao alcance do olhar, mas não do viver, pois Ester nem detém os meios financeiros nem a liberdade. Se o pai de David pôde “abortá-lo”, Ester o carrega consigo, negociando a maternidade com a individualidade, favorecendo a primeira em detrimento da última.

É onde torço o nariz para Karavan: além de o conflito climático ser conveniente, ainda mais na forma como acontece, contradiz o argumento quanto à separação entre a mãe que deseja e a mãe que cuida. As férias acabam, com estas, a essência de Ester.

Karavan está selecionado na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2005.

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