Crítica em português
Alguns filmes que vejo convidam-me a explorar as minhas limitações como indivíduo e espectador, a minha propensão ao julgamento e à condenação de personagens fictícios que servem como substitutivo e imitações de personagens que existem na realidade. Neste aspecto, falo só por mim, alguns filmes me ensinam a viver em sociedade e a compreender o outro para além do olhar superficial e, normalmente, preconceituoso ou discriminatório. E Shana, nos melhores momentos, é um filme que convida, para além de um estudo de personagem e de uma realidade periférica nas metrópoles, a investigar nós mesmos enquanto estamos propensos a sair rotulando alguém que nós mal conhecemos.
Depois de pinturas representativas das pragas egípcias serem exibidas sucessivamente, acompanhadas de uma trilha sonora dissonante e caótica, que induz a um estágio de estranhamento, Shana (Eva Huault) é apresentada dentro de uma noite de jogos na casa de amigos em uma abordagem naturalista e aparentemente contraditória com a introdução. Essa instabilidade formal é o reflexo da desordem íntima de Shana, incapaz de aceitar ter morrido no jogo, abrindo o berreiro, enquanto gesticula expressivamente. Temos a certeza de que Shana não se organiza dentro de uma categoria confortável de identificação, não é a mocinha convencional de uma comédia dramática. Ainda assim, é a heroína que acompanharemos por 80 minutos aproximadamente.
A maneira de falar alto, as unhas postiças, o preenchimento labial exagerado (ao mesmo conforme a mãe, ou os meus olhares), as roupas consideradas vulgares, a forma espalhafatosa com que ocupa os espaços, a continuidade ao trabalho do companheiro preso por violência doméstica e a condescendência com que encara o abuso sofrido, todos estes elementos formatam uma personagem criada para acentuar o julgamento imediato. Especialmente masculino, mas não restrito. A diretora e roteirista Lila Pinell entende bem que há códigos sociais e estéticos que determinam, antes de qualquer olhar aprofundado, quem é digno ou não de empatia e simpatia coletiva. É isto que a artista pretende desvelar.
Nesse sentido, Lila revela astúcia ao transformar o olhar do espectador em um objeto de investigação moral. É bastante desconfortável ter percebido o quão rápido pude condenar Shana mesmo antes de conhecê-la, apenas por signos externos comportamentais. A impressão é de que o filme é, mais do que tudo, um experimento social. Primeiro, incita-nos ao desprezo. Depois, a questionar a legitimidade do gesto e do julgamento açodado. Eva Huault está muito bem, mesmo que raramente apele às vias convencionais do drama psicológico. Com sua força descontrolada, excessiva e até teatral, Eva recusa qualquer contenção que pudesse torná-la palatável. A sua interpretação encontra a vulnerabilidade na irreverência e no humor involuntário que aproxima o filme de uma tragicomédia ansiosamente delineada para acentuar sua tese.
Há muitas mulheres como Shana no mundo, mas raramente o cinema demonstra interesse em observá-las para além do filtro moralizante. Quando Shana minimiza a violência sofrida, administra e continua os negócios criminosos do companheiro e demonstra condescendência diante de comportamentos autodestrutivos dos outros, Lila não está interesssada em julgá-la, mas em compreender o mecanismo social e individual que torna algumas mulheres permanentemente indignas e marginalizadas em suas complexidades.
Mas aí a diretora trai essa tese. Ao procurar explicações para justificar a personalidade de Shana, abandonada pela mãe até os 12 anos em um lar adotivo, senti que o roteiro queria encontra uma causalidade psicológica para justificar o comportamento dela. E se quer explicá-lo, através do trauma do abandono e do ressentimento temperado com afeto pela irmã caçula de 12 anos, termina por revelar, intencional ou não, uma justificativa. Se Shana não houvesse sido abandonada na infância, poderia não ser da forma como é, o que conduz à conclusão de que, talvez, a forma como é não seja a forma como devesse ser.
Aqui reside uma contradição particularmente frustrante. Porque se a obra inicialmente nos desafia a questionar a violência do julgamento social, ao oferecer posteriormente uma justificativa tão organizada para o comportamento de Shana, acaba sugerindo implicitamente que ela só merece compreensão porque existe um trauma capaz de explicá-la. É a ferida ainda aberta que permite que atravessemos por entre a vulgaridade, os delitos menores, os fracassos afetivos. Lila, sem querer, é involuntariamente conservadora. Em vez de radicalizar, termina por se imprimir uma pegada traumática para que exista como é.
Ainda assim, o filme mantém um ritmo envolvente na montagem de Jean-Christophe Hym e Emma Augier. A energia caótica atravessa as pequenas catástrofes diárias de Shana, que se acumulam até o ponto de explosão: a venda do anel herdado dado pela mãe, as tentativas frustradas de restituir o dinheiro tirado da caixinha do companheiro, e a cena em que considera prostituir-se. Uma cadeia de eventos que jamais deixam o ritmo estagnar. E as pragas egípcias, ainda que pareçam mais um artifício simbólico do que um trunfo narrativo, tornam-se as manifestações de uma vida prestes a colapsar.
O roteiro constrói esta teia de pequenas catástrofes, ainda que, infelizmente, comprometa-se com a resolução final. Um deus ex machina, uma solução artificial que surge para livrá-la das consequências mais graves de suas ações. E embora não esteja querendo que o filme se acomode dentro de representações convencionais, é frustrante quando o investimento emocional é encerrado de uma maneira abrupta. Não porque Shana merecesse um castigo, de forma alguma, mas porque ela precisava de um desfecho à altura de sua odisseia de vida.
De todo modo, Shana é um trabalho curioso e eficaz por sua disposição em confrontar automatismos morais do olhar contemporâneo (e do olhar masculino). Mesmo quando tropeça ao psicologizar excessivamente sua protagonista e ao recorrer a atalhos pouco orgânicos, o filme preserva algo raro: a coragem de construir uma mulher profundamente contraditória sem transformá-la em vítima exemplar ou em caricatura condenável. Bem aqui está o seu lado mais humano.
O filme está selecionado para a Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes 2026.

English review
Some films I watch invite me to explore my own limitations as both an individual and a spectator, my tendency toward judgment and condemnation of fictional characters who function as substitutes or imitations of people that exist in reality. In this sense, and speaking only for myself, some films teach me how to live in society and how to understand others beyond a superficial gaze that is often prejudiced or discriminatory. And Shana, at its best, is a film that invites us, beyond a character study and a portrait of peripheral life within large cities, to investigate ourselves and how prone we are to labeling someone we barely know.
After paintings depicting the Egyptian plagues are shown in succession, accompanied by a dissonant and chaotic score that induces a state of estrangement, Shana (Eva Huault) is introduced during a game night at friends’ house through a naturalistic approach that appears, at first, contradictory to the film’s opening. This formal instability reflects Shana’s own inner disorder, as she becomes incapable of accepting her defeat in the game, erupting loudly while gesturing expressively. We immediately understand that Shana does not fit into any comfortable category of identification; she is not the conventional heroine of a dramedy. And yet, she is the protagonist we will follow for approximately 80 minutes.
Her loud voice, fake nails, excessive lip fillers (at least according to her mother, or perhaps according to my own gaze), the clothes considered vulgar, the flamboyant way she occupies spaces, the continuation of her partner’s business after he is imprisoned for domestic violence, and the condescension with which she faces the abuse she suffers — all these elements shape a character designed to provoke immediate judgment. Especially male judgment, though not exclusively. Director and screenwriter Lila Pinell understands that there are social and aesthetic codes that determine, before any deeper observation, who is or is not worthy of empathy and collective sympathy. This is precisely what the filmmaker seeks to expose.
In this sense, Lila reveals considerable cleverness by transforming the spectator’s gaze into an object of moral investigation. It was deeply uncomfortable to realize how quickly I was able to condemn Shana before truly knowing her, solely through external behavioral signs. The impression is that the film operates, more than anything else, as a social experiment. First, it incites disdain. Then, it forces us to question the legitimacy of that reaction and of such hasty judgment. Eva Huault is excellent, even though she rarely resorts to conventional forms of psychological drama. Through an uncontrolled, excessive, almost theatrical force, Huault refuses any restraint that could make the character more palatable. Her performance finds vulnerability precisely within irreverence and involuntary humor, pushing the film toward a nervously constructed tragicomedy designed to reinforce its thesis.
There are many women like Shana in the world, yet cinema rarely shows interest in observing them beyond a moralizing filter. When Shana minimizes the violence she suffers, manages and perpetuates her partner’s criminal business, and behaves with condescension toward the self-destructive tendencies of others, Lila is not interested in judging her, but rather in understanding the social and individual mechanisms that permanently marginalize certain women and deny them the right to complexity.
But then the director betrays her own thesis. By searching for explanations to justify Shana’s personality — abandoned by her mother until the age of twelve in foster care — I felt the screenplay attempting to establish a psychological causality capable of explaining her behavior. And once the film chooses to explain her through the trauma of abandonment and the resentment tempered with affection toward her twelve-year-old younger sister, it inevitably offers a justification, whether intentionally or not. If Shana had not been abandoned during childhood, perhaps she would not be who she is, which ultimately leads to the conclusion that perhaps who she is now is not who she should be.
Here lies a particularly frustrating contradiction. Because if the film initially challenges us to question the violence of social judgment, by later offering such an organized explanation for Shana’s behavior, it implicitly suggests that she only deserves understanding because there is a trauma capable of explaining her. It is the still-open wound that allows us to navigate through the vulgarity, the petty crimes, and the emotional failures. Without intending to, Lila becomes involuntarily conservative. Instead of radicalizing her proposition, she ultimately imposes a traumatic framework in order to legitimize Shana’s existence as she is.
Still, the film maintains an engaging rhythm thanks to the editing by Jean-Christophe Hym and Emma Augier. A chaotic energy permeates the small daily catastrophes that accumulate in Shana’s life until they reach a breaking point: the sale of the inherited ring given by her mother, the failed attempts to return the money stolen from her partner’s stash, and the scene in which she considers prostituting herself. It is a chain of events that never allows the pacing to stagnate. And the Egyptian plagues, while functioning more as symbolic devices than narrative triumphs, become manifestations of a life permanently on the verge of collapse.
The screenplay constructs this web of minor catastrophes effectively, although it unfortunately compromises itself with its final resolution. A deus ex machina appears, an artificial solution that suddenly spares Shana from the gravest consequences of her actions. And although I am not asking the film to conform to conventional moral representations, it remains frustrating when the emotional investment is concluded so abruptly. Not because Shana deserved punishment — not at all — but because she deserved an ending worthy of the odyssey that her life had become.
In any case, Shana is a curious and effective work because of its willingness to confront the moral automatisms of the contemporary gaze, especially the male gaze. Even when it stumbles by excessively psychologizing its protagonist and resorting to inorganic shortcuts, the film preserves something rare: the courage to construct a profoundly contradictory woman without turning her into either an exemplary victim or a condemnable caricature. And it is precisely there that the film finds its most human dimension.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



