A amizade contra o preconceito e a Covid
Ali e Kumar são amigos de infância que habitam em um vilarejo modesto, para não o chamar de miserável, e que acreditam que o emprego de policial é a forma através da qual conquistarão a dignidade prometida, mas jamais concedida. Homebound começa no inconformismo e sonho de uma vida melhor para mudar radicalmente a realidade de seus personagens, do mesmo jeito que o mundo inteiro mudou quando se dobrou aos pés da pandemia da Covid-19. A desigualdade étnica, de classe e de casta é ainda mais severa quando enxergada através de situações extremas que a expressa em letra garrafal e, ao mesmo tempo em que a obra escrita e dirigida por Neeraj Ghaywan é o retrato da realidade amarga indiana, é também uma obra celebratória da amizade, do sacrifício e, por que não, do amor entre dois homens, embora afeto não sexualizado.
O roteiro é direto o bastante que parece expositivo e didático: “Não podemos continuar fugindo”, “Quando formos policiais, a classe social e a casta não importarão mais”, ou ainda “Nós estamos indo para uma prova ou para uma guerra?” fabricam uma realidade binária, até ingênua. Não é o mundo que é maniqueísta, mas a esperança dos personagens que faz com que enxerguem o mundo dessa maneira. Ser policial poderia conferir respeito – em razão da farda -, embora não altere o fato de que Ali é muçulmano e que seria, da mesma forma, um objeto de ‘piadas’ preconceituosas. O que mudaria é que não seria o alvo delas na festa do chefe, talvez no encontro dos policiais. Inclusive, o desejo de ser um policial esconde uma ambição que se esgueira por entre o ressentimento classista: revidar da injustiça sofrida, ou melhor, vingar-se dela com a força da farda.

Homebound é contagiado com o otimismo dos personagens centrais, apesar de o olhar pragmatista preponderar. A farda proporcionaria apenas a ilusão de dignidade, já que as bases da sociedade indiana estão corrompidas e apodrecidas com o preconceito, e é um que fica evidenciado com a pandemia da Covid-19: do tratamento diferenciado dos policiais caso a pessoa tenha um nome muçulmano, à maneira com que a indiferença e a hostilidade social manifesta-se diante da doença desconhecida. Direitos básicos, tais como ir e vir de volta para casa ou encher uma garrafa com água, ficam ameaçados por decretos governamentais e comportamentos sociais. A Covid-19 ampliou o tratamento desumano, não o limitando àqueles de castas, classes ou categorias ditas inferiores. Eu não vejo com bons olhos a maneira como o roteiro equaliza o preconceito pandêmico e o preconceito generalizado, característico do dia a dia do país. Não é intencional, eu creio, já que Ghaywan só ilustra a trajetória daqueles amigos diante de obstáculos, um deles, a Covid-19. Ainda assim, é uma interpretação razoável dos eventos postos.
É quando o pragmatismo cede espaço ao pessimismo. A ancestralidade, a importância do lar e dos familiares, é um tema central, de uma narrativa que rejeita estes valores. É que, sem entrar no mérito de pontos específicos do roteiro, Homebound é ilustrativo de um país articulado legal e socialmente para que os muçulmanos não tenham sucesso, e permanecem às margens da sociedade alimentando-se das migalhas. Enquanto Kumar conserva uma oportunidade (remota) de ascender, pois não é muçulmano, Ali não tem nenhuma, senão nascer novamente. Entretanto, isto implicaria em rejeitar quem se é ou o lar para o qual deseja retornar. E nenhuma metáfora envolvendo as bolas de críquete me parece satisfatória para ignorar que o roteiro, por mais bem intencionado que seja, argumenta em desfavor de valores nobres, para a defesa de uma visão individualista de que, se os amigos estiverem bem ao fim da narrativa, então podemos aguentar todo o abuso, discriminação e opressão que testemunhamos.
Curiosamente, Homebound é melhor como um filme transversalmente queer. Não um que discuta sexualidades ou identidades dissidentes ou não normativas na Índia. Mas um que, a partir da construção de afeto na amizade, permite que tiremos conclusões, tais como a de quando Kumar oferece o corpo para que o de Ali não seja agredido ou maltratado. Esta afetividade e intimidade é intensa que nem Sudha (Janhvi Kapoor) é capaz de diminuí-la, que dirá apagá-la. Resta uma amizade cheia de contatos, abraços ou cuidados, e eu acho que é aí que o filme reergue-se: a discriminação, o preconceito e a Covid-19 acentuam a desumanidade, eliminam a identidade e arrancam as raízes. Cabe ao amor, que pode ser romântico ou só fraterno, a missão de restabelecer a razão do indivíduo doente, literal e espiritualmente, pela emoção que inspira.
Homebound está na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.
