Uma epidemia real ou fictícia adolescente
No Festival de Cannes deste ano, o horror epidêmico esteve presente não somente na Seleção Oficial com Alpha, mas também na mostra paralela Um Certo Olhar com The Plague, no qual a chegada do pré-adolescente Ben (Everett Blunck) ao centro de treino de polo aquático liderado por um treinador simpático, porém ausente (Joel Edgerton), revela a dinâmica excludente da relação de jovens do sexo masculino, particularmente diante da ameaça invisível genericamente denominada ‘A Praga’. Banido do grupo por estar infectado com esta doença, Eli (Kenny Rasmussen) permanece à margem, dentro de um universo próprio que pode ser confundido com uma manifestação do autismo, e lá é mantido pelo cruel Jake (Kayo Martin, dotado de uma intensidade e consciência de cena de um jovem Phillip Seymour Hoffman). Ben está entre o desejo de ser aceito por esta patota, e a compaixão que sente por Eli, que naturalmente causaria sua excisão do meio.
O horror escrito e dirigido por Charlie Polinger parece esconder as suas presas sob a máscara de drama de amadurecimento. Não é por envergonhar-se do gênero, mas por enxergá-lo como uma parte essencial do processo de amadurecimento no ecossistema adolescente do sexo masculino. O receio de não sentar à mesa no refeitório, ou de ser expurgado do convívio social é o princípio do conjunto de inadequações de ordem até íntima, manifestadas nas prendas caracteristicamente masculinas, tais como desenhar um pênis na lousa, e que revelam que uma parte da transição da idade infantil à adulta envolve ainda a relação com a sua sexualidade. Há um quê de queer em horrores assim desde Carrie, A Estranha, ilustrado na ambiguidade de olhares, gestos e atitudes. E uma doença transmissível pelo contato e que se manifesta como as chagas na pele somente pode convidar a leitura camuflada do que simboliza: a relação estreita com o temor de uma epidemia pós-Covid-19, confunde-se com a relação mais remota com a AIDS/HIV e a estigmatização consequente.

Para complicar ainda mais, The Plague apresenta-se parcialmente como uma versão de O Senhor das Moscas, em um contexto em que há somente uma figura adulta. A mãe de Ben ou o irmão mais velho de Jake aparecem brevemente e à distância, ou “aparecem”, já que a participação dela dá-se em uma ligação telefônica. Assim, cabe ao treinador o papel de figura responsável por aquele centro de treinamento, e por mais que seja bem intencionado, tem um papel limitado e restrito à disciplina, não à educação. No vácuo de poder, cabe aos adolescente o papel de criar e impor as normas de comportamento, e naturalmente a punição por transgredi-las.
Formalmente, The Plague emprega a trilha e a edição sonoras a fim de estabelecer um recorte da experiência pré-adolescente, que acentue a angústia evidenciada através de ângulos baixos e desconfortáveis e até mesmo pela referência imediata a O Iluminado, quando Polinger coloca a câmera à altura do chão, enquanto uma personagem passeia de skate pelos corredores da instituição. Tudo isto dentro de um contexto em que não sabemos se a Praga é, apenas, a construção social para exclusão de um dos membros e assimilação dos demais, ou se é fatual, e mesmo que seja, ainda assim nada justificaria a dinâmica daquele meio.
Eu ainda tive uma relação bem pessoal à narrativa, porque igual a Ben, ou Soppy, que recebe este apelido pela forma como fala a palavra Stop e que é assimilado pelo grupo de amigos. Ele não é quem pratica o bullying, e nem quem o sofre contundentemente. Ele é quem testemunha à distância, com um misto de compaixão covarde e alívio, pois não é a vítima, embora baste um dia no refeitório ou um passo em falso para mudar. É um senso de alienação que tive no meu processo de amadurecimento na adolescência, nunca como o alvo imediato do bullying, mas sempre no limiar de sê-lo, ‘alimentando’ uma ansiedade que reencontrei após assistir a este The Plague.
The Plague está na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes de 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

