Recriando o outro que se deixa recriar
Artistas têm temas, interesses, ou motivos. Christian Petzold tem obsessões. Sua obra, instintivamente associada a variações de Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock, bebe de uma fonte anterior, o mito de Pigmaleão da mitologia grega, o escultor que moldou a mulher perfeita, que denominou de Galateia. Ao longo de toda a sua obra, Petzold, o mais admirado egresso da Escola de Berlim – ao menos dentro da cinefilia brasileira -, revisitou personagens que tentam conferir identidade, personalidade, ou roupagem a uma outra personagem que encontram, do mesmo jeito que o trágico protagonista do clássico de Hitchcock tentou fazer para recriar a mulher que ama. Miroirs No. 3 é uma repetição de um tema comum, substituindo algumas variáveis, em uma versão enxuta, inferior até, ao que Petzold é capaz de realizar.
Paula Beer interpreta Laura, uma mulher depressiva em um relacionamento amoroso fracassado, até que um acidente de carro materialize o ‘desejo’ de ruptura de maneira irrevogável. O seu companheiro morre, ela sobrevive, e é acolhida com uma ternura e afeto maternais por Betty (Barbara Auer). O seu marido, Richard, e o seu filho, Max, depois de enfrentarem o obstáculo inicial com a presença daquela estranha familiar, começam a aceitá-la dentro da residência e recriarem – oi, Pigmaleão! – uma rotina e convivência perdida depois de uma tragédia do passado. Petzold deixa tudo muito às claras. Se não há mistério, salvo detalhes, sobra o suspense, porque sabemos, seja por nosso conhecimento prévio da obra do diretor, seja por dedução lógica, quem é quem, e que papel Laura está desempenhando. Permanecemos em suspensão, aguardando o momento em que explodirá ‘a bomba sob a mesa’ (recordando a clássica explicação de Hitchcock a respeito do que é suspense).
Petzold é de uma economia admirável. Ele não mostra o acidente que provoca a morte do companheiro de Laura, e não sabemos até que ponto é apenas um acidente ou mais do que isso – consigo vislumbrar cenários com implicações diferentes, em que Laura colabora com o acidente, ou um em que o companheiro tenta desviar de um animal na pista. Petzold gosta de provocar essa dúvida, alimentando o papel ativo do espectador, com reflexo na maneira com que enxergará, a partir de então, a apática ou melancólica protagonista – Beer é uma das musas do diretor, aqui evocando um quê fantasmagórico e que leva, imediatamente, a Kim Novak aparecendo no vazio para Jimmy Stewart.

Nem parece inconveniente ou artificial quando Laura aceita o convite de Barbara para permanecer na residência, o tempo necessário para se recuperar, nem a reação policial diante do convite. A ausência de Yelena, a filha de Barbara, por razão ainda incerta, é a oportunidade para que Laura ocupe o quarto dela, vistas suas roupas, toque o piano, cozinhe o doce que remete ao sabor do passado. O espólio de um acidente preenche a ausência de um ente querido, ajuda a mitigar a saudade, apesar de o incômodo insistir em forma de uma goteira. Pessoas não podem ser substituídos como eletrodomésticos defeituosos.
Uma pena que o roteiro, tão economicamente transparente, precise verbalizar o que é já percebemos, ou explicar pormenorizadamente os elementos deste faz de contas. Eu admiro o Petzold sutil, até mesmo enigmático: o que entende o ímpeto de Barbara em cuidar daquela estranha e o desejo inconsciente de Laura em aceitar tal cuidado, o que enxerga a ausência materna somente no fato de que é seu pai – não a mãe! – que surge em cena. Laura é uma Galateia que quer ser criada à semelhança de uma outra pessoa, o que tem repercussão na maneira como enxerga a vida: se parece disposta a abrir mão de si, por que não ser outro alguém? Todos os personagens sabem o jogo que jogam, e o espectador também. A consciência faz com que encaremos as entrelinhas, ansiemos o momento em que tudo irá (ou poderá ir) ‘pelos ares’, só lamento que Petzold pareça, desta vez, não confiar tanto em nós como já confiou anteriormente.
Ainda é um bom filme, ainda propõe questões pertinentes sobre identidade e sobre os papéis que desempenhamos na vida.
Miroirs Nº 3 está em exibição na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

