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A Incrível Eleanor

Classificado como 3 de 5

A Incrível Eleanor

2025

98 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Scarlett Johansson

June Squibb finge ser sobrevivente do Holocausto em comédia dramática

Eu acompanho o trabalho de Scarlett Johansson desde Ghost World (2001), bem antes da ascensão ao estrelato interpretando a anti-heroína Viúva Negra dos Vingadores e da dupla indicação ao Oscar, em um mesmo ano, por História de um Casamento Jojo Rabbit. Eu tenho a impressão, unilateral obviamente, de que as nossas carreiras estão entrelaçadas, uma sensação que compartilho com outros atores, atrizes ou diretores, que estavam presentes durante o amadurecimento do meu conhecimento e da minha (in)sensibilidade na crítica de cinema. Deste modo, até tem um gosto especial assistir a este Eleanor, The Great, a estreia de Johansson na direção em uma comédia dramática simpática, despretensiosa e emocionante. Uma história que não imaginava que a atriz tinha dentro de si, que relaciona a sua herança judaica (por parte de mãe) às ‘mentiras’ da arte interpretativa.

June Squibb interpreta a personagem-título, uma senhora voluntariosa de 94 anos que, ao lado da melhor amiga, Bessie (a atriz israelense Rita Zohar), aproveita a alvorada de sua vida. Então, Bessie falece. Isto abre um vazio emocional em Eleanor – visualmente representado através do banco da praia que dividia com a amiga. Até um conjunto de eventos e a amizade com Nina (Erin Kellyman), que vive o relacionamento conturbado com o pai amoroso, mas ausente Roger (Chiwetel Ejiofor), acabarem levando Eleanor a mentir de uma forma que acredita honrar a memória da amiga: assumir sua identidade de sobrevivente do Holocausto. A mentira aumenta e foge do controle, da sinagoga até à rede nacional, com resultados que conhecemos já tivermos assistido a, ao menos, um filme em que uma personagem decidiu mentir pelo que acredita ser um bom motivo.

Existe uma razão legítima para mentir? Johansson organiza duas frentes: literalmente, via roteiro, Eleanor deseja conservar a memória da amiga que é também a memória de uma etnia, em um tempo em que há cada vez menos sobreviventes do holocausto, cada vez menos histórias de carne e osso. E, apesar de Eleanor começar a gostar da atenção que tem recebido, em um momento de solidão e saudade, isto não enfraquece a beleza do gesto de relembrar a amiga. É a transgressão derradeira de Eleanor, a vítima de uma sociedade etarista representada pela filha Lisa (Jessica Hecht), que ama a mãe, apenas não tem tempo para lhe dedicar em virtude da correria e impaciência da rotina de uma vivência capitalista. O relógio é um símbolo intrigante, pois aponta o esvaziamento do tempo de uma vida – e Eleanor não é mais uma garotinha, não é mesmo? -, e também a pressa em continuar vivendo o tempo que resta e esvai rapidamente.

A segunda frente é a arte da atuação, e Johansson entende bem do que está discutindo. O ato de ser emprestar o seu corpo para ser um outro, no palco, em frente às câmeras, ou na sociedade, ‘interpretando’ a imagem de uma pessoa que não se é, até o momento em que a fronteira entre o eu o outro se misturam inseparavelmente. Eleanor, de uma maneira fofa e sensível, embevece-se de Bessie, tal como atores e personagens, e é esta relação umbilical que faz com que a mentira se perpetue, mesmo que isto torne a doce Nina refém da mentira.

Tentando o certo pelo meio errado, Eleanor, The Great ainda prioriza a família antes do trabalho, não limitada só à família sanguínea, como àquela construída ou fortalecida a partir dos encontros inesperados. É um trabalho de estreia doce, celebratório da vida e do tempo, pois talvez seja o seu caráter fugidio que confira a beleza de viver. O tempo que provoca saudade e é resgatado nas memórias, o tempo que remenda as feridas dos entes queridos, o tempo que revela a verdade atrás da mentira.

Eleanor, The Great está na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes 2025.

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