Um drama romântico abre o 78º Festival de Cannes
Já estou na minha quarta cobertura do Festival de Cannes, e com exceção do bom, mas não extraordinário Coupez!, de Michel Hazanavicius, as experiências que tive ou foram medíocres ou ruins, a exemplo de A Favorita do Rei, de Maïwenn, Le Deuxième Acte, de Quentin Dupieux, e agora Partir Un Jour, de Amélie Bonnin. É somente o quarto filme dirigido por uma mulher que tem a honra de abrir as festividades na Riviera Francesa, e o primeiro que marca uma estreia na direção de longas-metragens. Mas os números, ainda que estatísticas fundamentais para a compreensão de políticas afirmativas ou de representatividade, não são reflexo de qualidade nesta dramédia romântica musical.
Coescrito por Bonnin, juntamente com Dimitri Lucas, o roteiro tem início às vésperas da inauguração do restaurante de alta gastronomia, em que Cécile (Juliette Armanet) e o seu companheiro são os chefs, logo após ela descobrir estar acidentalmente grávida: a descoberta é feita no interior da câmara de refrigeração, o local mais privado e ainda o menos indicado. Na mesma toada, Cécile recebe a notícia de que o pai sofreu mais um infarto cardíaco e decide retornar ao interior, onde cresceu, para reconectar-se com a família, e reencontrar o amor do passado. É muita coisa ao mesmo tempo, embora em termos cinematográficos, estas narrativas de retornar à cidade natal já parecem haver rendido o bastante.
O que fazer para torná-la inventiva? Que tal transformá-la em um musical, e é isto que a direção realiza quando somos surpreendidos com os personagens cantando Alors on Danse. A surpresa não é pela qualidade da execução, mas pelo efeito surpresa, ou pela interpretação da canção pelos atores. Não é incomum o cinema francês musicar a sua obra despreocupado se os atores têm afinação, ritmo, ou se apenas declamam a canção como se esta fosse um diálogo. O clássico Os Guardas Chuvas do Amor (1964) fez isto de maneira primorosa, apesar de a qualidade dos intérpretes não funcionar dentro do que é proposto nesta narrativa. A isso, o fato de que a encenação ou coreografia musical se limita à dança de Cécile na cozinha, utilizando utensílios da cozinha como batutas de bateria, ou a dança no ringue de patinação, um momento que é brega, ainda que tenha a sensação de que não é propositadamente brega com a sua ambientação cringe.

Musical à parte, o roteiro também é trivial e conveniente: a esposa do ex-namorado de Cécile é parteira, porque em um momento chave a protagonista requererá a atuação e intervenção de uma profissional da saúde. A gravidez é tratada de um modo para lá de irresponsável e inconsequente já que, se Cécile pretende interrompê-la, então por que não aproveitar a vida, beber e fumar? Até faria sentido explorar esse tema, se o roteiro só não o utilizasse como trampolim para reforçar o ciúme justificado do companheiro em relação ao ex-namorado do colegial, levando-os a brigar em um rap pavorosamente mal encenado. No meio disso tudo, a reconexão com o pai, que parecia ser o motivo de retornar à cidade, fica de escanteio, com a relação deles alternando os momentos bem irreverentes em que o pai provoca a filha com as falas dela no programa culinário Top Chef, e aqueles em que o drama é oriundo do encontro de iguais (pai e filha trabalham na cozinha, embora ela tenha rejeitado o clássico em favor de estrelas Michelin).
Não bastasse isso tudo, Cécile ainda remói o beijo de décadas atrás, e fica entre esses mundos, tentando articular seu retorno à cidade, mas sempre decidindo permanecer mais um ou dois dias. É uma personagem cujos conflitos pessoal, profissional, afetivo e familiar, enfim multidimensionais, são como um prato com um excesso de paladares mal harmonizado e cozido. É como se tudo apenas fosse, e nada nos envolvesse de fato seja porque o musical é aborrecido, seja porque o drama é rasteiro. O vídeo de arquivo até proporciona uma leitura eventualmente semiautobiográfica, em que a gastronomia está no centro e tudo o que bastasse para Cécile fosse encontrar a sua marca autoral, o seu prato assinatura, e os dramas estariam resolvidos milagrosamente.
Às vezes, uma combinação inusitada de queijo roquefort com café pode proporcionar maravilhas, e noutras apenas o desejo de limpar as papilas gustativas. Infelizmente, é o caso de Partir Un Jour.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


