Tom Cruise messiânico
Se o anti-Deus é a inteligência artificial, então Ethan Hunt é um messias com a missão de se sacrificar física, emocionalmente e, talvez, fatalmente para salvar a humanidade. É uma leitura imediata considerados os acontecimentos narrados em O Acerto Final, o oitavo e último (?) capítulo da série de filmes iniciada em 1996, a continuação direta de Acerto de Contas – Parte 1, mesmo tendo aberto mão da Parte 2 por razões comerciais (o filme anterior não alcançou o êxito esperado). Ethan, ao lado dos agentes renegados da IMF e de adições iniciadas no episódio passado, deve encontrar uma forma de impedir que A Entidade, o nome dado à inteligência artificial, cause uma catástrofe que varrerá a humanidade do mundo. Para isso, Ethan deve convencer a Presidente Estadunidense (Angela Bassett) a lhe proporcionar os meios necessários para rastrear um submarino onde se encontra a versão original do código fonte d’A Entidade, indispensável para a aplicação da Pílula criada por Luther (Ving Rhames), um vírus que altera a realidade da inteligência artificial, enquanto rastreia Gabriel (Esai Morales), que pretende utilizá-la para reconstruir a ordem mundial.
Não consigo considerar o roteiro escrito por Christopher McQuarrie e Erik Jendresen senão como desculpa para que a ação desenvolva-se, e não me refiro somente à missão contida na sinopse, mas aos momentos em que a equipe está reunida para planejar as ações seguintes. Você simplesmente aceita que as coisas acontecem daquela maneira e que os heróis precisam desplugar um certo dispositivo em um piscar de olhos, ou então tem só 10 segundos para correr de lá para cá, ou que uma tecnologia confidencial dá a Ethan a capacidade de sobreviver à despressurização em uma profundidade mortal. O Acerto Final não convida a gente a entender de imediato o que a turma está decidindo, mas a aproveitar a adrenalina resultante de por o plano em movimento. O roteiro é, de certo modo, uma caixa preta, que nos dá acesso ao suficiente: os (sub)temas discutidos. A tecnofobia caracterizada pela evolução exponencial e descontrolada da tecnologia é relacionada à ansiedade apocalíptica de um conflito nuclear, quando A Entidade torna-se capaz de acessar o arsenal das potências nucleares (“naturalmente”, a dos Estados Unidos é a melhor protegida) fazendo com que as armas por nós criadas sejam viradas contra nós mesmos, adotando a desinformação como forma de manipulação dos povos e a desobediência como a alternativa para enfrentar governos autocráticos.

Aliado a isso, o roteiro reconhece a importância da união de diferentes, sejam estes os membros da equipe da IMF, ou os personagens coadjuvantes que precisam confiar em Ethan, sejam as nações que têm a opção de atacar, ou não. Em um mundo dividido, um tema que acena à diplomacia e à possibilidade de construir o futuro livre de conflitos é sempre bem-vindo. Ao lado desses temas, o subtexto parece apelar à vocação divina de Ethan, e de certo modo Tom, não apenas por enfrentar o anti-Deus, como também por símbolos apresentados na narrativa, um em especial sugere até mesmo a ascensão dele ao céu e a sua ressurreição. E não posso esquecer a confiança inabalável, ou se preferir a fé, que todos depositam nele de concluir a missão, ou de ser a pessoa que não faria o mau uso da tecnologia caso caísse em suas mãos. Não é apenas Ethan, cuja identidade cinematográfica confunde-se com a persona de Tom, é também o ator que apresenta a imagem de salvador da experiência cinematográfica. Não é uma crítica, só constatação de que o imaginário divino respinga nas ações de ator e da criação, o que tem evoluído no decorrer da série.
A propósito, O Acerto Final tem a missão difícil, mas não impossível, de ser o desfecho de uma série longeva, que sente a necessidade de apelar à nostalgia, inserindo trechos, citações e relações com os filmes anteriores, como o parentesco entre personagens ou a função do pé de coelho apresentado em Missão: Impossível 3, enquanto deve amarrar a ação presente, introduzindo outros personagens. A fragilidade da metade inicial é um sintoma da tentativa de encontrar o equilíbrio entre o ontem e o agora, a nostalgia e a narrativa, embora venha temperada com um bem-vindo senso de humor, como aquele em que as ações brutais de Ethan são enxergadas pelo ponto de vista de Grace (Hayley Atwell, é coerente que o nome dela aluda à graça, o dom divino), e também uma dose de autocrítica em notar quão amalucados e estapafúrdios são os planos elaborados por Ethan e Benji (Simon Pegg) para salvar o mundo — consigo imaginar o meme na cena em que os personagens viram a cabeça de um lado para o outro, tentando acompanhar o raciocínio do plano final.

Muito pode ser perdoado a partir da avaliação da ação, e O Acerto Final tem momentos cinematograficamente inspirados, como a montagem que intercala lutas ambientadas em locais diferentes, embora partes de uma mesma sequência interdependente, e ainda humanamente surpreendentes. A cena aquática, na qual Ethan procura o código fonte em um submarino que rotaciona, enquanto é arrastado rumo a um abismo marinho é a preliminar para assistir a Ethan pendurado em aviões monomotores. É uma acrobacia analógica, em que o esforço físico e o risco envolvido fazem com que cada segundo, ou cada menor movimento do ator enquanto tenta se equilibrar, suspenda a respiração do espectador e dispare adrenalina na corrente sanguínea. E não cometerei o equívoco de comparar com as cenas de ação de episódios anteriores — cada qual um desafio a mais ao ator, e uma relação direta com a ação —, somente sublinho que é uma cena à altura de um episódio de encerramento da franquia, e vocês tirem as suas conclusões quanto a isso.
A ação é o foco, não há a menor dúvida, mas O Acerto Final ainda tem a direção segura de McQuarrie, como a reunião sombria e claustrofóbica do conselho de segurança, um momento que explora ângulos e enquadramentos a fim de retratar a ansiedade de cada um dos participantes de uma forma individual. E, ainda, a atuação sempre competente de Tom Cruise. É até fácil elogiá-lo pelo esforço físico e emocional investido nas cenas de ação, às vezes parece uma forma passivo agressiva de desmerecê-lo como o dublê de luxo de si mesmo, quando Tom ilustra a responsabilidade (auto)imposta sobre o ombro de Ethan na demonstração sacrificial de força, destreza e agilidade temperada com um quê de insanidade, no limiar entre a vida e a morte. Tom esculpiu Ethan por 3 décadas e, ao fazê-lo, a criação também moldou o ator, e o seu papel dentro da indústria em um herói de ação (um dos maiores da história do cinema estadunidense). Quando ouvimos uma mensagem deixada por um amigo, ou observamos os olhares dos personagens, já não somos mais capazes de discernir se são dirigidas a Ethan ou a Tom. Ao término, a fusão entre ator e criatura é definitiva, e mesmo com a duração inchada (165 minutos), ou o roteiro frágil ou que parece ter sido retrabalhado após a recepção do antecessor, a sensação é de um episódio final à altura de uma série definidora do cinema de ação.
Essa crítica não se destruirá em 5 segundos.
Crítica publicada durante a cobertura do Festival de Cannes 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


