Um experimento em narrativa
A cena inicial de The Girls We Want, título em inglês de Les Filles Désir (ou O Desejo das Garotas em tradução livre), acompanha Omar, a sua namorada Yasmine, e seus amigos brincando com as crianças do centro comunitário que está administrando em período de estágio. Omar é bastante promissor: a satisfação está estampada no rosto durante a atividade diária no centro, e ele não se furta do abraço fraterno e da palavra sincera ao dar a notícia a uma aluna da morte do irmão dela. Ao chegar em casa, Omar mantém a voz gentil ao colocar as irmãzinhas para dormir, contando-lhes histórias criadas com a princesa Yasmine. Tudo caminha conforme planejado, o trabalho, a família idealizada, que mal o avizinhamento da gangue que cuida comunidade representa uma ameaça tal como é a volta de Carmen, a ex-namorada de Omar, que deixou Nice, onde trabalhava como profissional do sexo.
A autoridade e liderança de Omar, que é respeitado pelos rapazes com que trabalha e até pelo líder da gangue com quem tinha uma amizade no passado, é desafiada após a chegada de Carmen, não de um modo óbvio. Yasmine está insegura, porque não tinha ouvido falar até agora nela, e os rapazes do centro, especialmente Tahar, alertam que a presença de Carmen ameaça a estabilidade. “Nada vai acontecer”, promete Omar à mãe após admitir a presença dela, embora saibamos que nada é tão simples em se tratando de cinema. Mas será que é Carmen a agente da mudança, ou será que é a maneira com que é enxergada, particularmente pelos homens, o antagonista de Omar? Prïncia Car, a diretora, é bastante inteligente em plantar pistas para a ruptura narrativa promovida por uma obra que, à primeira vista, adere a uma forma tradicional do cinema francês e encenado de forma naturalista, ou como se não houvesse encenação, e a atuação fosse real, em vez de fingir ser.

Os eventos se desenrolam de um modo tradicional: Omar mantém-se afastado afetiva e emocionalmente de Carmen, ainda que se masturbe pensando nela, e a aconselha ou acautela a não recair na prostituição. Um desejo não diferente do que dos homens que determinam como as mulheres devem agir e pensar: Omar desaprova a maquiagem de Yasmine, e quando a adolescente de 17 anos manifesta o desejo e avança sexualmente, ele a afasta, argumentando que isso iria estragar o casamento pretendido. É um cuidar machista, que sufoca, nada diferente do que o papo descontraído entre os homens que acreditam que apenas a mulher deve realizar sexo oral, e não o contrário, ou o assédio de beliscar o bumbum de brincadeira. Esse tema está enraizado na narrativa, revelando o machismo estrutural, em que as mulheres são julgadas por homens a cada momento, e que exemplo é melhor do que a profissional do sexo, a Madalena em quem os homens atiram as suas pedras?
Revendo em retrospecto, o ciúme de Omar, que parecia justificado após o vendedor de sorvete ter elogiado os olhos verdes de Yasmine, é sintomático do que a narrativa trata de uma maneira original. Prïncia Car não rejeita as qualidades de Omar, somente quer reforçar que essas não abonam o seu machismo repressor, tampouco julga os ritos dos homens, tais como a perda da virgindade com uma profissional do sexo, mas salienta o comentário hipócrita reproduzido no grupo de amigos — a metonímia da sociedade. A habilidade de Prïncia é transformar a confraternização masculina em oportunidade de sororidade: Yasmine pode até reproduzir a mesma crítica que escuta dos outros, só que o olhar dela para Carmen é de admiração. A mãe de Omar convida a adolescente a aproveitar a vida, afinal, 17 anos não é idade para casar-se ou para constituir família, é para viver e conhecer-se.
Prïncia é inteligente. Ela comenta a partir da forma, não do panfleto. Quando Carmen confessa o desejo de que alguém se apaixone por ela, é interpelada com o olhar de ‘que absurdo!’, como se profissionais do sexo não pudessem aspirar aos mesmos sonhos das princesas, veiculados às crianças nos desenhos animados. O comentário principal dela é ainda mais inventivo do que o corte seco para uma imagem de televisão, subvertendo a narrativa e reclamando o protagonismo à Yasmine, em vez de Omar. É uma maneira poderosíssima de transformar um cinema da trivialidade, ou um filme de festival bem francês, em uma obra que ressoa potente: as histórias dos homens, ou que nós sempre acreditávamos ser dos homens, eram também as histórias das mulheres, só que não as víamos porque sempre estiveram nas sombras. No fim, Carmen pode ser o obstáculo, ao ver de Omar ou de seus amigos, mas para Yasmine, é o seu empoderamento, e por mais que eu não curta tanto essa palavra, aqui considero bem empregada.
O filme está selecionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


