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Militantropos

Classificado como 3 de 5

Militantropos

2025

111 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Yelizaveta Smith, Alina Gorlova, Simon Mozgovyi

Não é só mais um documentário sobre a Guerra na Ucrânia

Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, surgiu um ciclo cinematográfico de produções majoritariamente documentais que têm servido como registro, individual ou coletivo, do período de guerra, e tem sido exibido nos festivais de cinema: Timestamp esteve na seleção oficial do Festival de Berlim de 2025, W Ukrainie Intercepted no Fórum deste mesmo festival em anos anteriores, e Porcelain War 20 Dias em Mariupol concorreram no Oscar da categoria documental. Não há nada essencialmente inédito: o cinema, via cinejornais (newsreels), informou os espectadores sobre o andamento das 1ª e 2ª Guerras Mundiais, mesmo que o objetivo pudesse ser a propaganda de Estado. Hoje, a acessibilidade e democratização da capacidade de registro – que demanda somente um telefone celular e coragem – aumenta exponencialmente a quantidade de narrativas, da linha de frente do conflito à retaguarda, onde civis tentam conviver com a guerra e por esta são transformados.

Aí está o conceito de Militantropos, um neologismo de origem latim/grega, referente a guerreiros humanos, os civis que precisaram adaptar-se ao estado de guerra. O coletivo e o indivíduo, e vice-versa, são os objetos de estudo de uma direção colaborativa entre Yelizaveta Smith, Alina Gorlova e Simon Mozgovyi, estes também militantropos dentro do contexto narrativo. Apontar a câmera ao céu, aos escombros e às pessoas é a forma de ação, atuação e até mesmo revolução de quem tem apenas a câmera de vídeo, como um meio de restaurar a normalidade perdida, e por ora, inalcançável. O coletivo não é diferente dos fazendeiros que cuidam do campo, ou das crianças que brincam nele, ou dos civis que treinam com os militares, para serem enviados a um combate a qualquer momento e sem nenhuma garantia de que retornarão ou de como retornarão.

'Militantropos' Acquired by Square Eyes Ahead of Premiere in Cannes

Existe um certo niilismo inevitável desde a cena inicial, em que uma coluna de fumaça ascende ao céu, antes de as imagens dos escombros revelar os álbuns de fotografias de uma família, com ênfase no rosto de uma criança, que pode, ou não, ter morrido como vítima da agressão russa. A câmera que olha para o céu implora um milagre, e os raios solares que cortam as nuvens sugerem que o pedido ucraniano pode ter sido escutado. Não há milagres e nem há santos ou deuses no firmamento – se houvesse, essas nuvens prenunciam uma tempestade, não um arrebatamento. Gosto do diálogo existente entre o meio ambiente e a humanidade, o campo e a cidade, a vida pacata que parece (friso o parece) ter conservado a rotina, alienada ou a despeito do conflito, e o treinamento dos civis a manusear armas de fogo ou a se posicionar no combate. Mesmo em um estágio de exceção, o ser humano agarra-se ao ideal da normalidade, por exemplo, o momento descontraído em que um oficial orienta um civil a apoiar corretamente o peso nos pés. Enquanto os homens buscam as minas terrestres, as crianças brincam ao ar livre, e são esses momentos que enriquecem o documentário.

Que, devo admitir, é repetitivo para quem tem acompanhado de perto o que o país tem produzido em audiovisual. Mas teria como fazer diferente? Se o artista cria a partir do mundo em que está, do que enxerga através da janela, das dores sentidas, é só razoável que a Ucrânia tenha produzido obras iguais a esta, com o fim de alertar à comunidade internacional ou, pelo menos, de restaurar um motivo para os diretores continuarem perseverando em meio ao caos. Na prática, esses documentários, premiados ou não, e exibidos internacionalmente a públicos amplos ou com distribuição limitada, podem ser somente gritos disparados a deuses indiferentes ou ainda ao coro de espectadores confortavelmente sentados nas salas de cinema e que não têm o poder, salvo agarrado ao mito da empatia, que aproxima naquele momento, promove conhecimento naquele momento, antes de entrarem em outra sessão ou participarem de um outro programa que os faça esquecer o que acabaram de assistir.

Assim, se não um pedido de socorro, Militantropos é a evidência de que esse coletivo de bravos diretores não permaneceu inerte, ao assistir o trem da chegada tornar-se o da partida, e não permitiu que as imagens que restassem fossem apenas a dos corvos que sobrevoam o agora vazio pátio da estação de trem. A natureza se restaurará, mas quanto a nós, humanidade?

Militantropos integra a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2025.

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