O segundo dia do Festival trouxe para o projetor as produções de realizadores dos municípios que compõem a Baixada Fluminense. Essa iniciativa alinha o festival à ideologia da EBAV – Escola Brasileira de Audiovisual, fazendo do evento uma vitrine para os talentos da região.
A seguir, a ficha técnica dos curtas-metragens que compuseram a mostra, acompanhada de comentários críticos sobre cada um deles:
Paçoca
2024
19 minutos
Direção: Marçal Vianna
Elenco: Aysha Jambo, Átila Bee
Gênero: Comédia
Roteiro: Marçal Vianna
Sinopse:
Pedrinho é eleito representante de turma em uma eleição em sua própria escola, mas sua vitória incomoda alguns pais que alegam que o menino comprou votos em troca de paçocas.
Comentário:
Marçal Vianna apresenta uma crítica mordaz à eleição de 2022, ambientando sua sátira política no microcosmo de uma escola particular. As ações da mãe antagonista funcionam como um lembrete da postura questionável de certas figuras políticas do país. Além disso, a ausência de figuras paternas em cena adiciona mais uma camada de reflexão ao curta — e é apenas uma entre outras escolhas formais que evidenciam a direção precisa do realizador iguaçuano.
A incorporação do nome mais simbólico da monarquia a um de seus personagens mirins é uma escolha anacrônica instigante, sobretudo em contraste com o famigerado Enzo — nome frequentemente associado à nova burguesia e alvo de piadas. Marçal também utiliza símbolos antagônicos, como a coroa e a faixa presidencial, para alimentar o tom de disputa entre as duas crianças, mas, ao fazê-lo, lança dúvidas sobre a própria legitimidade da democracia.
Ainda assim, Paçoca é um curta divertidíssimo, que consegue ressignificar a raiva provocada pelos absurdos do último período eleitoral.
Desde Criança Sempre Quis Morar no Rio
2025
20 minutos
Direção: Sharon Félix, Roumer Canhães
Elenco: Sharon Félix, Raquel Vitória, Flaviene Silva
Gênero: Drama
Roteiro: Sharon Félix
Sinopse:
Baseada em uma história real, o filme narra a jornada de Juliana, uma mãe que perdeu sua única filha em um trágico acidente. Juliana carrega o peso da culpa desde a morte de Flor. O filme acompanha a psique de uma mãe no dia mais difícil: o aniversário de sua filha.
Comentário:
O filme traz para a tela a experiência do luto. A fotografia é responsável por estabelecer a divisão temporal e narrativa: os momentos felizes que antecedem o acidente são marcados por uma luz solar, que privilegia a dinâmica entre mãe e filha, enquanto o preto e branco é reservado para representar a tristeza provocada pela perda. A mise-en-scène é cuidadosamente pensada para explorar tanto o vínculo afetivo quanto a desolação que o sucede.
Além da fotografia, a trilha sonora reforça o tom melodramático sobre o qual o filme se sustenta. Ambos os elementos se mostram indispensáveis na construção de uma narrativa de redenção e demonstram o primor da técnica durante sua execução. No mais, o filme ainda explora as belezas naturais do município de Magé.
Ainda que se insira em um gênero clássico do cinema — o melodrama —, a direção desafina ao exacerbar a dramaticidade dos sentimentos à flor da pele de sua protagonista. Essa ênfase não se dá apenas pelos elementos formais, mas também por uma interpretação excessivamente pantomímica e pelo acúmulo de tempos mortos dentro da narrativa.
Dura na Queda
2024
15 minutos
Direção: Tatiana Ferreira Campos
Elenco: Samara Líbano, Rosa Maria, Lena de Souza, Tereza Cristina, Marina Iris, Giselle Sorriso, Jéssica Zarppei e Roberta Sá.
Gênero: Documentário
Roteiro: Tatiana Ferreira Campos
Sinopse:
O filme celebra a trajetória das mulheres no samba, com destaque ao legado de Samara Líbano, uma das pioneiras do violão de 7 cordas nas rodas de samba do Rio de Janeiro.
Vivemos tempos férteis para cinebiografias de artistas da música, tanto internacionais quanto brasileiros. Homem com H é um sucesso de bilheteria que levou às telas a história de Ney Matogrosso. Seguindo essa tendência, o documentário Dura na Queda se inspira na trajetória de uma figura menos conhecida, mas não menos importante para a cultura brasileira. Samara é um nome de destaque nas rodas de samba e uma representante combativa da luta das mulheres pretas e periféricas.
Apesar de seu formato convencional, Dura na Queda é um registro inspirador das potências que merecem maior reconhecimento, bem como dos projetos sociais que viabilizaram o desenvolvimento dessas vozes. Ainda que tenha a violonista como protagonista, o filme reflete também a vivência da Baixada Fluminense e mostra como a arte transforma vidas na região.
O Teste
2023
12 minutos
Direção: Emanuel Sedano
Elenco: Ana Moreira, Rebeca Pasqualetti, Lara Ribeiro e Jhony Jarp.
Gênero: Drama
Roteiro: Emanuel Sedano
Sinopse:
Uma atriz desempregada realiza um teste para viver a protagonista da peça A Gota D’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes. Durante a audição, ela se vê em um embate com o diretor pela defesa de sua personagem, mesmo que isso possa custar-lhe o papel.
Comentário:
O curta se debruça sobre o ofício do ator para abordar as relações de poder no ambiente profissional do teatro. Paralelamente, envereda pela discussão sobre a descartabilidade das figuras femininas nas relações afetivas. Nesse sentido, apropria-se da personagem da peça de Chico Buarque para denunciar o olhar misógino sobre o envolvimento de mulheres maduras com homens mais jovens.
É interessante como o curta desenvolve o diretor como uma figura arquetipicamente diabólica, utilizando a iluminação vermelha e um penteado que remete a chifres como alegorias visuais. No entanto, apesar da perspicácia, o humor ácido da cena final se dilui com o prolongamento da risada do antagonista — o excesso do riso do personagem acaba suprimindo o riso do público.
A dinâmica entre o diretor e a atriz funciona bem, sustentada não apenas pelo texto, mas sobretudo pela forte presença de ambos os intérpretes. Ana Moreira é uma revelação a ser acompanhada de perto. Jhony Jarp, por sua vez, já era conhecido da primeira edição do festival, quando interpretou o policial perseguidor no curta Caxiense F.C.
São Jorge de Meriti
2024
20 minutos
Direção: Ricardo Rodrigues, Léo de Assis
Elenco: Pai Alceu, Padre Dirceu, Dom Orani Tempesta, Dudu Nobre, Nando Cunha.
Gênero: Drama
Roteiro: Ricardo Rodrigues
Sinopse:
São Jorge é o santo mais popular do mundo. E, apesar de padroeiro da cidade da São João de Meriti ser São João Batista, cerca de dez mil devotos de diferentes locais visitam a igreja de São Jorge, na Vila Tiradentes. São Jorge de Meriti reúne depoimentos de religiosos, devotos, artistas e moradores da cidade para realçar a importância do santo não apenas na vida das pessoas, como também na manutenção da diversidade.
Comentário:
O documentário propõe uma leitura de São Jorge que vai além da perspectiva da Igreja Católica. Em São Jorge de Meriti, o santo guerreiro torna-se elo entre diversas religiões. Ao apresentar tanto a vivência cristã quanto as crenças de matriz africana, o filme celebra a liberdade religiosa.
A obra também coloca a cidade da Baixada Fluminense no centro dos holofotes durante a peregrinação de fiéis vindos de diferentes localidades, equiparando São João de Meriti a uma “Meca Georgiana”. Acima de tudo, o filme se firma como um manifesto político, ao reafirmar o Brasil como um Estado laico — ainda que marcado por uma herança profundamente sincrética.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.



