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Marisa Orth é homenageada na abertura do 20º CineOP

A abertura do 20º CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto – foi marcada pela homenagem à atriz Marisa Orth, eternizada na cultura popular como a icônica Magda, da sitcon Sai de Baixo.

Este ano, a mostra celebra o protagonismo feminino no humor e escolheu Marisa Orth como destaque da noite inaugural. Embora a cerimônia oficial tenha ocorrido à noite, a atriz já havia participado, pela manhã, da Roda de Conversa da Mostra Temática Histórica com imprensa e público no Centro de Artes e Convenções. O encontro contou com a presença da diretora e amiga Anna Muylaert — com quem Orth trabalhou em A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcante, Durval Discos e É Proibido Fumar, entre outros — e teve mediação do curador da mostra temática, Cléber Eduardo.

Anna Muylaert e Marisa Orth no bate-papo meidado pelo curador da mostra temática, Cléber Eduardo (Imagem: Leo Lara/Universo Produção)

Durante o bate-papo, Marisa falou sobre sua trajetória artística e como sua formação musical contribuiu para seu trabalho como atriz. Declarou sua admiração por ícones da música brasileira, com destaque para Chico Buarque, e relembrou o privilégio de ter crescido em uma família que valorizava a cultura desde cedo.

Com emoção, contou que viveu sua infância sob o impacto dos “anos de chumbo” e presenciou relatos de pessoas desaparecidas por expressarem críticas ao regime militar. Segundo ela, os anos finais da ditadura despertaram um espírito de liberdade irreversível — e o humor foi uma das ferramentas mais potentes para confrontar os poderosos.

Sobre sua parceria com Muylaert, Marisa lembrou com carinho os curtas-metragens filmados juntas — especialmente De Elevador, Por Favor, rodado em super-8 — e o ambiente efervescente de uma geração de novos talentos que foi abruptamente interrompido pelo desmonte da indústria cinematográfica durante o governo Collor. Anna comentou que esse período difícil a levou a se aprofundar nos estudos de atuação, uma lacuna que sentia desde os tempos da faculdade de cinema.

Marisa também recordou a participação em Não Quero Falar Sobre Isso Agora, um dos poucos filmes finalizados na década de 1990. “Eram três filmes por ano”, comentou Muylaert. “Por isso eu não digo ‘Ai, ganhei um Kikito’, porque naquele ano só tinha eu e a Helena Fonseca concorrendo. Nós duas ganhamos”, brincou Marisa, arrancando risos da plateia.

A retomada do cinema nacional, aliás, teve como marco uma comédia: Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, de Carla Camuratti. As convidadas lembraram que o humor também marcou a volta do público aos cinemas após a pandemia, com o sucesso de bilheteria de Minha Mãe é uma Peça 3, de Paulo Gustavo — tema abordado, inclusive, em entrevista exclusiva ao site Cinema com Crítica (confira aqui).

Marisa comentou que o gênero segue forte no país e ainda é responsável por encher as salas. Ela e Muylaert rechaçaram a ideia de que “a comédia está morrendo”, afirmando tratar-se de uma falácia. Afinal, Chaplin deixara sua marca e hoje outros o fazem.

Imagina a Magda nessa última gestão empresarial? – Marisa Orth

Quando questionada sobre os alvos do humor, Marisa foi direta: “O humor sempre foi arma contra os poderosos. Isso vem desde a época dos faraós.” Ela ressaltou, no entanto, que o Brasil tem uma tradição dual, onde o riso também serve como válvula de escape para o oprimido. “É a maçaneta que sai na mão”, exemplificou. Para a atriz, o brasileiro ama a comédia. Temos a capacidade de produzir piada poucos segundos após a nossa desgraça.

Em relação aos estereótipos, a atriz comentou que eles permanecem enquanto existirem. “No Brasil, vocês querem me dizer que não existe mais a mulher burra, fútil, casada com político corrupto que diz que não sabia de nada? Desculpa (risos)… Imagina a Magda nessa última gestão empresarial? Magda e o pneu?”, provocou.

Para Orth, o humor exige inteligência — e está mais inteligente hoje. Ambas as convidadas concordaram que o machismo ainda é uma realidade na indústria. Como exemplo, citaram Rita Lee, uma artista genial que sofreu perseguição por ocupar espaços de destaque com irreverência e senso de humor únicos.

Ao final do encontro, elogiaram a curadoria da Mostra Temática Histórica pela diversidade de filmes e defenderam o nome da cineasta Ana Carolina, que, apesar da importância para o cinema brasileiro, tem enfrentado dificuldades para obter apoio público para seus projetos.

Na cerimônia de abertura, Marisa Orth recebeu o prêmio das mãos de Anna Muylaert e de seu filho, João Orth, também cineasta. A homenagem incluiu a exibição de trechos de sua carreira no telão. Além do cinema, houve música: Marisa se juntou à Adrianna, Inês Peixoto e Will Motta, cantando “Todas as Mulheres do Mundo”, da saudosa Rainha do Rock.

O encerramento da noite contou com a exibição de cinco curtas: A Mulher Fatal Encontra o Homem Ideal — estreia de Orth nos cinemas —, A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcante, Esconde-Esconde, Lá e Cá e A Má Criada. Marisa fez questão de permanecer até o fim, assistindo a todos.

A homenageada junto ao prêmio, ao lado do filho João Orth e da diretora Anna Muylaert (Imagem: Leo Lara/Universo Produção)
A atriz soltou a voz ao lado de Adrianna e Inês Peixoto (Imagem: Leo Lara/Universo Produção)
Ninguém abriu mão de assistir a seleção de curtas da abertura (Imagem: Leo Lara/Universo Produção)

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1 comentário em “Marisa Orth é homenageada na abertura do 20º CineOP”

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