O segundo dia do Festival prestigiou as produções independentes que emergem dos mais diversos cantos do território brasileiro. Uma iniciativa que amplia a percepção de Xerém sobre o mercado nacional, ao mesmo tempo em que apresenta o município como um polo de desenvolvimento audiovisual para realizadores de todo o país.
A seguir, a ficha técnica dos curtas-metragens que compuseram a mostra, acompanhada de comentários críticos sobre cada um deles:
As Gingers
2024
14 minutos
Direção: Pedro Murad
Elenco: Ana Lucia Gosling, Ângela Pataro, Carlos Fernandes, Dilcéia Mattos, Fátima Christina Araújo, Jacyra da Conceição, Julieta Duarte, Maria Antônia Souza, Maria Neide Monteiro, Monica Pinheiro
Gênero: Documentário
Roteiro: Rafaelli Matos
Sinopse:
Documentário sobre “As Gingers”, um grupo de sapateado carioca formado por idosos e inspirado na estrela americana Ginger Rogers. A obra trata de etarismo, envelhecimento, preconceitos e superação. Cada integrante tem uma história única, mas todos são unidos por algo em comum: o sapateado — que pode parecer impossível para corpos idosos, mas não é. Todos os corpos, em todas as idades, podem dançar.
Comentário:
A arte sempre foi um passaporte para a libertação. Aqui, o sapateado é o centro gravitacional que reúne um grupo de idosos que têm Ginger Rogers, estrela da Era de Ouro de Hollywood, como guia simbólica. Apesar do formato convencional em talking heads, o documentário acolhe nosso olhar com uma fotografia que remete às produções de Eduardo Coutinho. O que se apresenta são histórias de superação — em sua maioria de mulheres — que compartilham, além do amor pela dança, uma experiência de repressão causada por figuras masculinas castradoras: pais, maridos ou ambos. Senti falta apenas da legenda com os nomes de cada uma delas. Afinal, o curta se propõe a dar voz a essas mulheres. Apresentá-las seria não só reconhecer suas individualidades como também um gesto simbólico de superação do apagamento que sofreram ao longo da vida.
A Caverna
2025
15 minutos
Direção: Luísa Fiedler
Elenco: Patrícia Saravy, Natália Garcia
Gênero: Drama
Roteiro: Luísa Fiedler
Sinopse:
Quando uma filha decide sair da casa onde sempre morou com a mãe, surgem incertezas entre elas. A filha, artista, possui uma visão de mundo que diverge do que a mãe acredita ser melhor para ambas. A relação, marcada tanto por amor quanto por cuidados excessivos e silêncios, se rompe. Entre elas, nasce uma prisão: a caverna. Lá dentro, uma atmosfera opressiva revela que não há saídas fáceis — ainda assim, elas precisam encontrar uma.
Comentário:
A Caverna apresenta uma fotografia potente e uma captação de som que contribui para a imersão do espectador. Para desenvolver o conflito geracional, o roteiro recorre a metáforas — algumas já desgastadas. Não é incomum ver o uso de espaços labirínticos e escuros como recurso narrativo para tratar traumas e autoconhecimento. Caminhar em direção à luz, aqui, é buscar a cura pela verdade. Mas o que mais chama atenção é a imagem da torneira remendada, que funciona como metáfora da vida das personagens: já não opera como deveria — nem mesmo com remendos. Em certos momentos, só resta partir para soluções definitivas.
TCC – Trabalho Caótico de Cinema
2024
11 minutos
Direção e Roteiro: Ricardo Santos
Elenco: Emily Rose, Thayná Sena, Lucas Carvalho, Gui Vicente
Gênero: Comédia
Sinopse:
A sátira acompanha um grupo de estudantes de cinema diante do impasse criativo ao tentar definir o formato do filme que devem entregar para uma disciplina da faculdade.
Comentário:
O processo criativo e os bastidores do cinema já renderam grandes filmes — de A Malvada (1950) a 8½ (1963) e Mank (2020). Aqui, o tema ganha uma abordagem leve e inventiva ao acompanhar estudantes universitários transformando um dilema típico em matéria-prima para contar histórias por meio da imagem em movimento. A metalinguagem é usada para subverter convenções dos principais gêneros cinematográficos. Além de garantirem uma boa nota, os alunos entregaram uma verdadeira aula de cinema.
Sertão 2138
2024
19 minutos
Direção e Roteiro: Deuilton do Nascimento Jr.
Elenco: Clau Barros, Isaías Rodrigues, Camily Vitória
Gênero: Ficção científica
Sinopse:
Em uma terra distópica, uma cientista finalmente recebe autorização para ingressar na estação espacial que ajudou a projetar — até que uma missão misteriosa interrompe seus planos.
Comentário:
O curta utiliza a ficção científica como plataforma para discutir territorialismo e apartheid. A protagonista, uma mulher negra, adiciona novas camadas às discussões levantadas. Deuilton ainda insere uma criança curiosa como duplo simbólico da cientista.
O sertão nordestino é transformado em paisagem de um futuro distópico, permitindo à fotografia inspirar-se em Duna, de Denis Villeneuve. Já a montagem evoca Star Wars, especialmente pelo uso de planos e transições. O destaque, no entanto, está na engenhosidade ao driblar limitações orçamentárias: objetos cotidianos são ressignificados como gadgets futuristas — e isso, longe de enfraquecer, fortalece o filme com charme e inventividade.
Intangível Tangível
2024
20 minutos
Direção e Roteiro: Tales Ordakji
Elenco: Dida Dias, Gilson de Melo Barros, Marielen Soliman, Matheus Leal, Tales Ordakji
Gênero: Documentário
Sinopse:
Por meio de uma performance de rua, o artista convida o público a escrever — com canetas coloridas — reflexões sobre seu traje, transformando-o em um mural coletivo de pensamentos da cidade. O filme registra a interação com os transeuntes e entrelaça depoimentos de especialistas de diferentes áreas sobre relações humanas e tecnologias.
Comentário:
O documentário funciona melhor quando se dedica ao registro da intervenção social. Seu tropeço está em tentar interpretar o que foi escrito, através de análises de especialistas. Muitas das mensagens são simples e potentes por si só, e as falas dos psicólogos acabam reduzindo a experiência do espectador a categorias previsíveis. Um exemplo de abordagem mais eficaz está no documentário polonês O Filme da Sacada, que compila entrevistas com passantes sem a necessidade de decifrá-los.
Ao final, o curta se assemelha mais a um extra de DVD do que a uma obra autônoma. A mensagem inspiradora e otimista que o realizador busca provocar é legítima — mas, sem querer, o filme escancara o quanto as pessoas têm se apegado a frases feitas e superficiais. Um retrato claro da epidemia de coaches e livros de autoajuda que vivemos hoje.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.


