por Natália Bocanera, crítica de cinema
A Mostra de Cinema de Ouro Preto chega em sua 20ª edição. Com o pioneirismo no tratamento do cinema como patrimônio e enfoque na preservação do audiovisual, essa edição comemorativa traz como grande homenageada a atriz paulista Marisa Orth. A homenagem temática histórica presta tributo ao humor das mulheres diante e atrás das câmeras no cinema e no audiovisual brasileiros. Uma artista muito versátil, migra da televisão para o cinema, do cinema para o teatro, da comédia para o drama, com muita facilidade. Confira a entrevista:
Natália Bocanera: Inicialmente, parabéns pela merecida homenagem. É estimulante e um privilégio assistir ao reconhecimento do trabalho de uma atriz como você, de potência, de presença tão marcante no audiovisual brasileiro. Dito isso, como você enxerga essa edição histórica do CineOP, que celebra o humor das mulheres no cinema brasileiro. E ainda, gostaria de saber qual sua relação com esse festival tão importante?
Marisa Orth: Ah, primeiro fiquei super honrada! Se a minha presença servir para que a gente possa falar de cinema de humor, de qualidade de cinema de humor, num país que já teve grandes mestres da comédia e que era uma fonte de divisas muito importante, tô falando do cinema lá do passado, de Cinédia, de Atlântida, né, de Vera Cruz, mesmo Mazzaropi. Tem tanta comédia, tanta coisa boa!
Digo que o humor é gigantesco porque ele é a outra máscara. Tem a máscara da tragédia, a máscara da comédia. Sei que já é até clichê você falar hoje que ninguém valoriza comédia, que ninguém dá Oscar pra melhor comediante, não entra pau a pau, né? Apesar disso tudo o humor é gigantesco, é 50% da dramaturgia do mundo, seja no cinema, seja no teatro, seja em qualquer forma de arte. Então, sempre vale, a gente tem que estar tirando o humor desse preconceito.
Natália Bocanera: Você é referência para muitas mulheres do humor, atrizes vindas depois dos seus trabalhos. Hoje, como você se vê nesse lugar de abertura de portas? O humor feito por mulheres no audiovisual brasileiro encontrou seu espaço?
Marisa Orth: Eu acho que agora as mulheres estão mais nesse papel, né, engraçado, Ingrid, Mônica Martelli, tem Samantha Schmutz, tem Tatá Werneck. Eu também já fiz bastante cinema de humor. Acho que vai ser ótimo, acho que a gente tem que falar sobre isso.
Eu acho que começa essa história do humor da mulher falando sobre a condição da mulher, rindo de si mesma, rindo dessa coisa da mulher ter sempre que esperar um homem, questionando isso. Uma mudança que aconteceu, começou com Bridget Jones, uma onda anos 90, Como Eliminar Seu Chefe, é um humor que tem a ver com o renascimento, com o feminismo mesmo. E eu acho que cada vez mais cabe a mulher fazer piada sobre tudo, e não apenas sobre a sua condição de mulher.
Natália Bocanera: Magda, de Sai de Baixo, foi um papel fundamental na sua carreira. Trata-se de uma personagem, porém, vista por muitos como criada a partir de muitos estereótipos femininos. Do ponto de vista atual, como você enxerga Magda?
Marisa Orth: Acho muito chique ser lembrada como a Magda. Já tive medo de ser esquecida para outras funções, mas acho que eu superei isso e o público também. Eu vejo coisas engraçadas, pessoas dizendo, “você não sabe como a Magda tá fazendo bem essa peça de teatro”, é engraçado. E eu lido muito bem, eu acho que ela é uma personagem em alguns momentos maior que eu, acho que eu ainda vou ver outra atriz fazendo a Magda.
Natália Bocanera: Você é uma artista muito versátil, migra da televisão para o cinema, do cinema para o teatro, com muita facilidade. Qual foi o papel mais desafiador de sua carreira?
Marisa Orth: Tenho alguns divisores de água. A peça, Fica Comigo Essa Noite. O filme, Não Quero Falar Sobre Isso Agora, maravilhoso, do Mauro Farias, único filme executado no Brasil em 1990. Foi maravilhoso, uma comédia muito deliciosa, quando eu conheci o Mauro, o Evandro Mesquita, e tanta gente boa, eu trabalhei com a Lili Fonseca, e também uma belíssima representante da mulher no humor, no cinema. Rainha da Sucata, minha primeira novela. Sai de Baixo, sem a menor dúvida. Poxa vida, acho que vamos parar por esses, está bom!
Bom, e acho que todos os atores do mundo um dia querem fazer um vilão, né? Eu já fiz um engraçado no filme do José Roberto Torero, Como Fazer Um Filme de Amor, um filme muito engraçado, e eu fazia Lilith, uma vilã, clichê, clichê, clichê, até nome de vilã ela tinha, Lilith. E ela é bem engraçada, e eu acho que tem que ter o quê que ela tem que ter, eu não sei, nunca fiz, né? Então, mas acho que inteligência, né? Não ligar para o que os outros dizem, acho que uma mulher que não liga para o que os outros dizem já é uma vilã, né?
Natália Bocanera: Sobre sua carreira futura, quais são as suas expectativas?
Marisa Orth: Ah, eu tenho, sem dúvida, muita vontade de fazer mais cinema, que os cineastas e as cineastas se arrisquem aí a comprar essa briga de, pô, nem tudo que eu faço fica com cara de Magda, eu posso fazer mil outros papéis, e muito mais cinema, gostaria, cinema de humor que seja, e quero trabalhar a velha, quero ver os papéis que a velhice, que a maturidade vai me trazer, é isso, vontade de fazer todos.
Leia ainda a entrevista do Álvaro Goulart com a atriz homenageada.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).


