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ENTREVISTA | André Luís Garcia no 20º CineOP

“Na era da superimagem, nossa decisão mais radical foi não mostrar aquilo que mais chamaria atenção.” — André Luiz Garcia

André Luís Garcia durante a mesa “O Uso de Acervos na Criação de Novos Filmes” (Imagem: Universo Produção)

O diretor exibiu seu documentário Itatira, sobre um evento divisivo na cidade que dá título ao filme e os desdobramentos desses acontecimentos na vida da população. O documentarista participou da mesa de debates “O Uso de Acervos na Criação de Novos Filmes” e, na sequência, conversou com o Cinema com Crítica:

Alvaro Goulart – André, você é um diretor que trabalha com registro, com cinema de arquivo, com a memória. Eu queria que você comentasse a respeito do fazer um cinema em que o passado é protagonista em tempos em que tudo é banalmente registrado, e o agora é objeto de desejo pelo imediatismo — além da ânsia por vir. É desafiante fazer cinema nesses tempos ansiosos de redes sociais?

André Luiz Garcia – Muito legal a tua pergunta, porque realmente é muito desafiador. E tem uma questão que foi tratada, que está sendo escrita um pouco também sobre o nosso filme, que é a questão sobre o que a gente decidiu não mostrar do material de arquivo. Porque existia uma questão forte da mídia, que chegou na cidade de um jeito muito invasivo, muito pejorativo. Inclusive isso é uma pauta importante do filme. Então, desde o início, a gente teve essa postura assertiva, firme, de não mostrar e tentar se desvincular desse material.

Então acho que respondendo à tua pergunta mais especificamente, é isso: na época das redes sociais, da superpopulação de imagens por todos os lados — que a gente é atacado por imagens, vamos dizer, de todos os lados — nesse momento, a gente decidiu ocultar um material que talvez chamasse mais atenção, que eram realmente as meninas tendo os ataques. E a gente tem acesso a esse material. A gente decidir não mostrar, eu acho que é a principal postura, até conceitual mesmo: de decidir não mostrar e mostrar outras coisas.

Alvaro Goulart – E você trata a questão da mídia quase como uma denúncia dessa invasão sobre o decidir, a questão ética de quando abaixar a câmera, quando não mostrar a imagem. Você acha que o público — também consumidor desse jornalismo e das redes sociais — é cúmplice através desse voyeurismo da barbárie, dessa exposição exagerada que ultrapassa o direito à privacidade das próprias crianças envolvidas na história?

André Luiz Garcia – Assim, eu não sei se posso falar pelos outros, posso falar por mim, mas eu tenho a impressão de que o público gosta de ver esse tipo de material, esse tipo de coisa. E por isso eu reitero que foi uma postura muito firme da nossa parte de não mostrar, justamente para criar outras conexões, outras ideias — e não repetir a abordagem da mídia, que era uma preocupação muito grande que a gente teve desde o início.

Desde o início a gente teve acesso ao material todo sobre o caso, inclusive essa parte que as meninas estão tendo os ataques — inclusive com closes das meninas tendo ataque no chão, por exemplo, tremendo. E a gente optou por não colocar. E acho que essa é a decisão talvez que possibilitou que a gente construísse outras camadas também com o filme, que a gente abrisse um pouco mais. E não ficasse nessa questão de talvez mostrar o que o público quer ver, mas propor mais, fazer o público pensar um pouco mais.

Alvaro Goulart – Dentro dessa abordagem reflexiva, vou te trazer uma pergunta mais “cinema”, mais voltada para a montagem. Você traz os ataques através do áudio fora de campo e com apoio de imagens da natureza que tem cavernas. São formigas caminhando solitárias dentro daquela mata, dentro das rochas. Isso é uma referência ao isolamento que foi provocado naquela cidade? Você se inspira, através dessa imagem e dessa construção, na montagem do construtivismo soviético?

André Luiz Garcia – Nossa, muito legal a pergunta! Não sei se eu me inspiro diretamente, mas assisti bastante. É um cinema que eu gosto bastante, principalmente na faculdade.

E assim, eu acho que essa questão dos vazios, da gente ir chegando na cidade por espaços, por paisagens, por montanhas… eu acho que esse é um barato também do filme, porque a gente vai entrando no sistema de crenças também. A gente mostra Jesus, mostra Maria… acho que a gente vai entrando no filme, imergindo no universo pela montagem desse jeito.

E, também, de um jeito mais lento, mais contemplativo. É quase como se a gente estivesse querendo abordar o sobrenatural, mas chegando e entendendo a cidade aos poucos, sabe? Por isso, através das paisagens, das pedras, mesmo das pinturas rupestres, das gravuras rupestres, que são mistérios colocados em outras camadas de tempo da nossa história — da história da humanidade.

Alvaro Goulart – Eu imagino que trabalhar com tempo é essencial para o cinema — seja na montagem, seja nessas outras camadas de tempo, com outros mistérios que se perpetuam na cidade. E trazer essas imagens com o tempo morto, apenas com o áudio, é uma forma de você deslocar essa história que está no passado, não necessariamente para o presente, mas para um espaço de tempo não definido… explorar o tempo morto como um espaço quase meditativo, para poder gerar reflexão a respeito do ocorrido, ou apenas para trazer o mistério da questão sobrenatural? Apesar de vocês não responderem diretamente, deixam o questionamento ao público.

André Luiz Garcia – Eu acho que foi mais assim… o sentido de entrar na cidade, sabe? Porque o nome do filme é Itatira e a única coisa que conecta todos os mistérios, no caso, é Itatira mesmo. Então acho que foi a nossa opção por essa abordagem mais contemplativa para ir aos poucos emergindo nesse contexto, dessa cidade específica.

Também pelo sistema de crenças, pela religiosidade… e é isso. Foi o nosso jeito mais, não sei, talvez mais contemplativo, mais imersivo, de se aproximar também. Mas acho que mais do que dos mistérios… da cidade, sabe? Nesse primeiro momento a gente chega na cidade desse jeito, para depois explorar os mistérios.

E sobre a montagem em si, tem uma questão específica que eu penso: que existe a ideia e existe a matéria. E a forma do filme — no caso, a montagem também — surge dessa conexão entre a ideia e a matéria. Que daí surge a forma.

Então, no tipo de cinema que eu faço, por exemplo, é difícil a gente trabalhar com referências. Porque, mais que a gente tenha referências, o acontecimento vem dessa vivência mesmo, sabe? Desse choque talvez entre a ideia e a matéria. É daí que sai a forma.

Alvaro Goulart – Perfeito!

André Luiz Garcia – Muito obrigado. Muito massa!

Confira aqui a crítica de Itatira

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