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ENTREVISTA | Thiago Moulin no 20º CineOP

“Certas coisas a gente só consegue tratar se a gente fala sobre elas. Se continuam represadas, elas continuam nos consumindo.” – Thiago Moulin

O cineasta durante o debate “O Uso de Acervos na Criação de Novos Filmes” (Imagem: Universo Produções)

O cineasta Thiago Moulin participa da Mostra Contemporânea Competitiva da 20ª Edição do CineOP – A Mostra de Cinema de Ouro Preto, com o documentário Meu Pai e Eu, realizado dez anos após a morte de seu pai. O filme mergulha nas memórias familiares a partir de imagens de arquivo, depoimentos e objetos deixados em uma mala, numa tentativa de reconstrução simbólica da figura paterna. Após participar da mesa “O Uso de Acervos na Criação de Novos Filmes”, Moulin conversou com o Cinema com Crítica.


Alvaro Goulart – Estou aqui com o Thiago Moulin, que exibe seu filme aqui na CineOP, em Ouro Preto. Meu Pai e Eu é uma obra íntima, construída a partir da busca por sua figura paterna através da memória e dos arquivos. Thiago, recentemente tivemos o filme Nada Sobre Meu Pai, da Suzana Lira, que também faz essa busca pelo pai desaparecido na ditadura, mas acaba reencontrando a figura materna no processo. O próprio Almodóvar também trabalha isso em Tudo Sobre Minha Mãe, onde a busca pelo pai revela mais da mãe. Como foi esse caminho para você? Você também reencontrou sua mãe durante essa trajetória?

Thiago Moulin – Cara, minha mãe está no início e no fim do filme. Durante também, claro, mas com destaque nesses dois momentos. Diferente da trajetória da Suzana, eu tive uma convivência longa com meu pai até a morte dele. Mas essa busca acontece de forma simbólica: quem era esse pai que eu não conhecia? O que o formou? O que o constituiu como pai? Eu queria reposicioná-lo na minha vida. E, por mais que eu tentasse falar dele, eu acabava caindo na minha mãe. Porque, quando tudo aconteceu com meu pai, quem segurou a barra foi ela, com duas crianças pequenas. E o filme mostra muito isso. Não quero dar spoiler, mas é algo muito presente ali.

Alvaro Goulart – É muito bonito esses reencontros durante a busca… ou melhor, descobertas.

Thiago Moulin – Exato, descobertas mesmo. E você foi muito certeiro ao falar da personagem “minha mãe”. O momento em que eu decido, de fato, fazer o filme é durante uma conversa despretensiosa com ela. Perguntei: “Mãe, onde foi que morei? Quais lugares?”. E ela começou a tentar lembrar, mas travou. Chegou a chorar copiosamente, dizendo: “Eu não lembro”. Ali eu percebi que havia sequelas profundas do que ela viveu, e que ela não conseguia mais acessar. Isso me motivou. No filme tem uma parte em que estou com ela, mostrando fotos, tentando mapear esses lugares onde morei. Depois até saímos para visitar alguns deles. Foi aí que entendi: “Está na hora de fazer esse filme”.

Alvaro Goulart – Interessante isso de mapear lugares, como a memória também tenta mapear o passado. E às vezes temos lembranças fabricadas, né? Depoimentos que se confundem. Você viveu isso durante o processo? Questionou alguma lembrança?

Thiago Moulin – Tem uma cena do filme em que estou na minha festinha de três anos. Aparece uma foto minha com o bolo, e eu digo que me lembro daquele dia. E a Ursula D’Arte, que foi essencial no processo — diretora de fotografia, produtora executiva, tudo, inclusive no sentido afetivo — me contesta: “Você não pode lembrar disso, tinha só três anos”. E aí fiquei em dúvida. Será que ela tem razão? Eu questiono não a lembrança em si, mas a leitura que faço dela. A mesma cena pode ter interpretações diferentes com o passar do tempo, dependendo do lugar de onde você olha. Isso é o que faz um documentário. A montagem do filme exigiu essas escolhas. Tem até uma fala no trailer: “É curioso como eu não lembro da voz do meu pai”. Hoje eu lembro, mas durante o filme isso tinha desaparecido. Fiquei em parafuso com isso. Como assim eu não lembrava da voz dele? Essas percepções foram mudando ao longo do processo.

Alvaro Goulart – E trazer essa história à tona é também se expor, revisitar traumas, encontrar gatilhos. Houve choro durante o processo? Hoje, ao exibir o filme, com outras pessoas visitando sua história, que sensação você tem? Agridoce?

Thiago Moulin – Cara, hoje não vejo como agridoce. Vejo como doce mesmo. Nada muda o que aconteceu, mas ver o filme na tela e as pessoas falando sobre ele é libertador. É catártico, como você disse. E tento transformar essa catarse em algo coletivo, mesmo que venha da soma de individualidades. Esse é o prazer de ver o filme ganhando o mundo. É uma herança que deixo para minhas filhas. Hesitei aqui porque só revelo isso no final do filme, então, spoiler de leve (risos). Mas acho que o filme fala sobre silenciamentos familiares. Aquelas dores que só se dissolvem quando a gente fala delas. Se você não fala, elas continuam represadas, te corroendo por dentro. Estou falando de doenças psiquiátricas, violência familiar, suicídio, alcoolismo. Ao trazer isso à tona, coloco o “bode na sala”. A única forma dele sair é a gente encarar. Assim, eu tento reposicionar essa dor, para que ela não continue sendo passada adiante.

Alvaro Goulart – É muito bonito isso. E agora, uma pergunta que tenho feito a todos: você traz o passado como protagonista em tempos de excesso de presente — de redes sociais, onde tudo é filmado, mas nem tudo é verdadeiro. Vivemos uma era de ansiedade, de doenças mentais, onde o agora é imperativo e o futuro nos atropela. Como é fazer cinema nesse contexto?

Thiago Moulin – Isso me remete ao debate que tivemos agora há pouco. Citei um trecho de Paraíso, da Ana Ripper, também exibido aqui. Ela menciona o impressionismo como referência, e faz sentido. A pintura vinha de um realismo extremo, até que a fotografia surge e congela a realidade. Então, qual seria o papel da pintura? Ela se reinventa, passa a expressar a subjetividade, o olhar. Acho que o cinema — e qualquer conteúdo feito com cuidado e verdade — cumpre essa função hoje. As imagens de TikTok e Instagram estão aí, mas não necessariamente vão permanecer. Um documentário que reflita sobre isso, sim, pode durar.

Alvaro Goulart – Cinema é permanência, né?

Thiago Moulin – Exatamente. Cinema é permanência.

Alvaro Goulart – Obrigado, Thiago.

Thiago MoulinEu que agradeço.

Clique aqui para ler a crítica do filme

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