Não é a primeira vez que sou atravessado por filmes que falam a respeito do cuidado de pessoas idosas e sobre a experiência da perda. A perda recente da minha avó materna para o Alzheimer, com seus tempos finais passando por sofrimentos e negligências hospitalares, ressoa quando experiências análogas são consumidas pela tela. A enxurrada de filmes que tratam do tema tende a se enveredar pelo caminho da dor, mostrando os obstáculos encontrados na atividade hercúlea do cuidado – como é o caso de Kasa Branca –, ou no processo de degeneração cognitiva e no sofrimento daqueles que estão em volta, como em Meu Pai e Longe Dela. O filme de Rafaella Camelo, no entanto, me permitiu sair pela primeira vez de uma projeção com a sensação de leveza, apesar dos acontecimentos de sua história.
A Natureza das Coisas Invisíveis traça o curso da câmera a partir do ponto de vista das crianças e de seu processo natural de amadurecimento. Glória (Laura Brandão) é uma menina que acompanha a mãe, uma enfermeira, durante o expediente hospitalar no período de férias. Nesse espaço hospitalar, ela conhece Sofia, uma menina da mesma faixa etária que está ali porque acompanhou a bisavó durante um chamado de emergência. A amizade entre as meninas se desenvolve de forma orgânica, à medida que ambas acompanham a internação da bisavó de Sofia e transitam pelos corredores do hospital. A convivência com outros idosos internos também é mostrada com delicadeza, sem que a câmera caia na armadilha do olhar piedoso ou da vitimização. Pelo contrário, oferece encontros entre aqueles que colecionam histórias com a atenção de olhos e ouvidos curiosos de quem possui um mundo pela frente a ser descoberto.

Igualmente orgânica é a relação entre as mães das meninas, que se constrói a partir da sororidade daquelas que compartilham a mesma realidade de qualquer mãe solo, acrescida das particularidades de suas filhas e do cenário hostil de um hospital. Esse paralelo – mães e filhas – dá corpo a um filme que não se limita a mostrar uma rotina, mas se propõe a refletir sobre redes de apoio. O olhar da diretora costura as personagens não a partir da presença da morte, mas da atividade do cuidado, e esse deslocamento é talvez o que confere leveza ao filme. Mesmo quando a narrativa se aproxima do inevitável fim da vida, a ênfase não está no colapso, mas nas mãos que amparam, nos gestos diários e pequenos que sustentam os vínculos.
É importante observar como A Natureza das Coisas Invisíveis evidencia diferentes tipos de cuidado: o cuidado materno, o cuidado com os mais velhos, com as crianças, o cuidado técnico-científico de uma enfermeira, e o cuidado espiritual das benzedeiras. Essa justaposição confere à trama uma textura plural, mostrando que cuidar não é uma prática homogênea, mas um campo onde cabem múltiplos saberes. A diretora se arrisca ao colocar a espiritualidade quase como uma personagem viva, um dos fios condutores da narrativa. O receio de usar os pertences daqueles que já partiram, as visões, as rezas, as ervas e os instrumentos ritualísticos ocupam um lugar ativo na história, não como exotismo, mas como parte do cotidiano das personagens.
Essa dimensão espiritual não é mostrada como oposição ao hospital e à ciência, mas como complemento, como algo que atravessa as relações humanas. A morte é encarada de diferentes formas e o cuidado com o corpo em diferentes instituições (hospitalar e religiosa) também são invocados. As cenas que envolvem espiritualidade conferem poesia e leveza para lidar com a despedida. O enquadramento das mãos durante a purificação do corpo ou do último encontro que deixa um legado são escolhas que refletem como a narrativa se constrói sob o véu do afeto ao invés do enlutamento. Por se tratar da jornada de amadurecimento de Glória, e do entendimento da pequena sobre vida e morte, a diretora também teve sensibilidade de posicionar a câmera na mesma altura que a do olhar de uma criança. Seu conjunto de escolhas estéticas ajuda a sustentar a leveza do filme, evitando a rigidez de um discurso único sobre vida e morte.
Ainda assim, há uma tonalidade agridoce que atravessa a narrativa e que dialoga, de maneira sutil, com a linguagem do terror. O medo da morte – inevitável, sobretudo no imaginário infantil – é reconhecido e encenado em momentos como o primeiro contato com o necrotério, ou os receios ligados ao sobrenatural como janelas que batem à noite. Esses elementos não destoam do restante do filme: pelo contrário, ganham uma roupagem justificável dentro do universo das personagens e reforçam o processo de descoberta, sem perder a delicadeza nem cair no susto gratuito.
A diretora acerta também ao lidar com os temas mais difíceis a partir da vivência das crianças. A consciência sobre a morte e o medo em relação a ela se manifestam de forma orgânica e com a ternura de quem está descobrindo o mundo. Tudo é um caminho de descoberta: o hospital deixa de ser apenas um lugar de dor e passa a ser também um espaço de encontro, de aprendizagem e de brincadeira. Até mesmo assuntos que, em outros contextos, seriam tratados como tabus – como a transexualidade – aparecem com a leveza e naturalidade do olhar infantil. Na narrativa, a criança recebe o peso que lhe cabe, e o grande objetivo continua sendo a brincadeira, o jogo, a troca.
Esse modo de filmar desmistifica o olhar conservador dos mais antigos, ao trazer para o centro uma bisavó que é um ser de puro afeto, interpretada de forma magnífica por Aline Marta Maia. Longe do estereótipo da matriarca severa ou do fardo da velhice, a personagem encarna uma presença que irradia cuidado e ternura, mesmo quando o corpo já sinaliza fragilidade. Ao lado dela, as crianças e suas mães vão aprendendo, cada uma a seu modo, a lidar com os ciclos da vida e com aquilo que permanece invisível aos olhos. Também temos a reunião dos saberes populares com os científicos.
A Natureza das Coisas Invisíveis é um filme raro pela sensibilidade com que aborda temas difíceis. É difícil encontrar uma obra que consiga tratar de perdas, despedidas e do fim da vida com tanta leveza sem se enveredar pelo melodrama nem desviar o olhar dos momentos mais ásperos. Rafaella Camelo encontra esse ponto de equilíbrio: o cuidado é mostrado como uma força cotidiana, feito de gestos pequenos, sustentando vínculos mesmo quando a morte se aproxima. A presença da espiritualidade das benzedeiras é uma escolha pontual e poderosa, por conectar um saber enraizado na cultura brasileira – sobretudo do interior – à medicina hospitalar, formando uma ponte entre mundos que se tocam na experiência humana. Essa costura faz do filme um encontro entre diferentes práticas de cuidado, um espaço onde ciência e tradição se apoiam mutuamente.
Mesmo enraizado em um contexto muito específico, o filme consegue oferecer uma experiência universal, facilmente traduzida pela linguagem do cuidado e do afeto. Ao falar de mães e filhas, de infância e amadurecimento, de corpo e espírito, A Natureza das Coisas Invisíveis abre uma janela para que o espectador reconheça no outro a própria história. Por isso, ao final da projeção, a sensação não é de perda, mas de um abraço silencioso que reconecta memórias, presenças e ausências. Foi assim comigo: o filme conseguiu, a seu modo, me reconectar também com minha avó falecida, lembrando-me do toque e do cheiro. A lágrima, inevitável, faz seu pouso no olhar de quem assiste, mas ao fim da sessão o que permanece é o conforto de um abraço – não apenas um gesto de despedida, mas de encontro.
A Natureza das Coisas Invisíveis foi exibido na Mostra CineMundi do 19º CineBH, o Festival Internacional de Cinema de Belo Horizonte.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.


