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Cocote

Classificado como 4 de 5

Cocote

2017

106 minutos

Classificado como 4 de 5

Diretor: Nelson Carlo de Los Santos Arias

A cada edição de um festival de cinema sinto que se abre, diante de mim, uma nova janela cinéfila. Uma fresta pela qual consigo espiar para além do circuito comercial, adentrando geografias, estéticas e problemáticas que raramente alcançam as salas tradicionais. O CineBH, com seu enfoque sobre a América Latina, sempre me parece um convite a esse mergulho: o continente como território de experiências estéticas e políticas, onde as histórias não se acomodam ao conforto dos clichês. Foi assim que conheci Ramona, minha primeira visita ao cinema da República Dominicana, e é assim que agora retorno ao país com Cocote — um filme que se inscreve no subgênero da vingança, mas recusa a dramaturgia simples dos ajustes de contas.

Nelson Carlo de los Santos Arias direciona a câmera para Alberto, um jardineiro de uma mansão na capital que retorna à sua cidade natal para enterrar o pai, assassinado por um antigo conhecido. O gesto que poderia soar como o prólogo de um western tropical revela-se, no entanto, um rito de passagem invertido. Alberto não é o herói que chega armado para pôr ordem no caos: ele é um recém-convertido à Igreja Pentecostal Dominicana, alguém que tenta vestir a nova fé como quem veste um traje ainda duro, com costuras que incomodam. De um lado, a família — que pratica religiões de matriz africana — exige a vingança como prova de amor filial e de masculinidade. Do outro, a igreja evangélica que ele abraçou, com seus dogmas de perdão e renúncia, mas que também carrega elementos sincréticos que escapam à ortodoxia, como os atabaques em seus cultos.

Esse choque de mundos coloca Alberto entre a cruz e a espada. O peso de ser a figura masculina restante recai sobre seus ombros não apenas pela cobrança de vingança, mas pelo fato de ser o primogênito. Ele é constantemente emasculado pelas mulheres da família, que não apenas o pressionam mas o acusam e desmoralizam em público. Essa estratégia narrativa subverte um arquétipo muito comum: o da matriarca resignada. Aqui, são as mulheres que personificam o imperativo da violência — e não deixam Alberto esquecer que, sem agir, ele estará desonrando o pai e desonrando a si mesmo. O assassino do patriarca ainda se dá ao luxo de ameaçar os familiares de Alberto, deixando-o na ingrata posição de pacificador de ânimos, mediador impotente num terreno em que a mediação já perdeu o sentido.

Confesso que os xingamentos proferidos contra Alberto, vindos de todos os lados, arrancaram de mim risadas. Há um humor involuntário no teor desses insultos, tão locais, tão específicos, que o filme preserva sem medo de parecer “menor”. Essa alternância entre o trágico e o cômico é um dos traços mais fortes de Cocote. Ela impede que a narrativa se cristalize numa cartilha moral ou num drama unidimensional. Ao contrário: ao rir dos ataques verbais, o espectador é lançado de volta à realidade do protagonista, que se debate entre o peso da tradição, a cobrança da família e a exigência de sua fé recém-adquirida.

Mas Cocote não é apenas sobre um dilema individual. O que Arias coloca em cena é também um comentário sobre a própria estrutura social da República Dominicana. A figura dos membros das forças de segurança surge como mafiosos protegidos pela lei e pelo sistema — um poder paralelo que não precisa se esconder para agir. Essa denúncia, porém, nunca é sublinhada de modo panfletário; ela está entranhada no cotidiano dos personagens, na normalização da injustiça, no ar de inevitabilidade que paira sobre cada gesto.

A mise-en-scene de Arias que coloca as respostas para o protagonista mais proximas do horizonte, enquanto as instituições são espaços claustrofóbicos e obscuros. (Imagem: Divulgação)

A fotografia — alternando cenas em cores vivas e outras em preto e branco — traduz visualmente essa oscilação entre mundos. As cores saturadas evocam a intensidade dos rituais religiosos, o calor das ruas, a materialidade da vida doméstica. O preto e branco, por sua vez, sugere suspensão: momentos em que Alberto parece pairar fora de si, perdido em dúvidas sobre a própria fé, incapaz de encontrar a presença do divino no meio do desespero. Essa escolha estética reforça a curva do protagonista, não como uma trajetória linear rumo a um desfecho, mas como uma espiral de pressões e questionamentos.

Há, portanto, em Cocote uma tensão constante entre destino e escolha, entre ritual e improviso. Mesmo nos momentos que beiram o cômico, o filme mantém uma seriedade subjacente. Sua força está justamente em negar soluções fáceis — para Alberto, para sua família, para o espectador. O que se anuncia como um “filme de vingança” se desdobra num estudo sobre fé, masculinidade, religiosidade popular e violência estrutural. Ao abrir essa janela para um cinema dominicano ainda pouco visto por aqui, o CineBH reafirma o que os festivais têm de mais potente: a capacidade de nos confrontar com histórias que falam de lugares específicos, mas que ressoam dilemas universais.

Cocote foi exibido na Mostra Diálogos Históricos do 19º CineBH, o Festiva Internacional de Cinema de Belo Horizonte.

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