Não é a primeira vez que o cinema latino-americano me atravessa ao revisitar episódios quase apagados de nossa história, revelando o quanto ainda carregamos marcas de uma colonização reciclada sob outras bandeiras. O documentário colombiano “Bienvenidos Exploradores Interplanetarios y del Espacio Sideral”, dirigido por Andrés Jurado, faz exatamente isso: transforma um evento real – o treinamento de astronautas norte-americanos em plena floresta amazônica colombiana durante a Guerra Fria – num caleidoscópio de imagens, sons e camadas críticas. O filme não apenas reconstrói esse episódio, mas o reconta, subvertendo a narrativa oficial com material de arquivo da própria NASA para expor um capítulo pouco discutido da presença dos Estados Unidos na região.
O ponto de partida do documentário é fascinante: no início dos anos 1960, em plena recessão colombiana – reflexo de uma América Latina inteira em crise –, uma comitiva de astronautas norte-americanos foi recebida com pompa e circunstância, como se a floresta fosse um campo de testes interplanetário. Jurado alterna imagens dessa recepção na capital com a narração em off de um texto cortante, que expõe a miséria e as contradições da população local diante da presença do “homem branco” e sua missão. Essa escolha narrativa não é gratuita: ela constrói, desde cedo, a ideia de uma “segunda onda imperialista” — um imperialismo 2.0 travestido de cooperação científica.
É criativa a forma como o filme faz do território latino-americano uma espécie de “lua” — um laboratório para corpos estrangeiros. Entre construções, digressões e subversões, os astronautas deixam de ser apenas exploradores para se tornarem “alienígenas”. Uma decisão estética pontual reforça isso: a voz do encarregado pelo treinamento recebe um tratamento eletrônico, com textura robótica, conferindo-lhe um aspecto alien ou maquínico. Esse som, somado a imagens que evocam um found footage de tempos pretéritos — granuladas, instáveis, quase secretas — instaura desde o início uma atmosfera retrofuturista. Somos transportados não só à Guerra Fria, mas a um imaginário de ficção científica colonial, em que a selva é um planeta exótico a ser conquistado.
O aspecto retrofuturista do filme não se limita ao som ou ao arquivo: Jurado incorpora ilustrações de época, mapas e gravuras das Grandes Navegações que ganham animação, criando uma ponte entre passado e presente. A câmera simula, por vezes, a visão de uma luneta, como se estivéssemos olhando para um outro mundo. E, de fato, o cinema aqui é auto-referencial: trechos de “Le Voyage dans la Lune” (1902), de Georges Méliès, aparecem para reforçar a intertextualidade — não só entre as imagens, mas entre os próprios olhares coloniais sobre o “novo” e o “selvagem”.
Essa devolução do olhar é um dos pontos altos do filme. Quando o diretor mostra a descrição de uma iguana feita pelos astronautas, percebemos algo próximo de um monstro marinho mitológico, talvez um parente de Godzilla. Essa escolha revela o olhar ridículo, míope e exótico dos estrangeiros, que transformam o cotidiano latino-americano em espetáculo alienígena. A iguana, no entanto, não é um detalhe qualquer: ela se torna um símbolo, uma metáfora do próprio líder indígena da tribo Chocó. Como a iguana, os habitantes daquela região são híbridos, ambivalentes, mestiços, seres de água e terra. Essa analogia reforça a crítica do documentário: tanto a fauna quanto a população são vistas como objetos a serem estudados, catalogados, apropriados.

Há momentos, no entanto, em que o próprio filme parece testar a nossa capacidade de ver. A montagem alterna imagens muito escuras e muito claras de forma abrupta, colocando o espectador numa espécie de “treinamento” sensorial. É como se estivéssemos passando pelos mesmos testes que os astronautas, provando a fotossensibilidade do nosso olhar enquanto avançamos pelo filme. Essa oscilação de luz e sombra não é mero capricho formal: ela nos torna participantes, não só observadores, dessa história de exploração.
Na parte final, essa sensação de imersão ganha uma outra camada: a cronologia dos acontecimentos é apresentada como se fosse um storyboard animado, que emula um diário de bordo. Esse recurso não apenas organiza os fatos, mas nos lembra do caráter “missionário” da empreitada, com seus registros minuciosos e burocráticos. Ao mesmo tempo, é uma piscadela irônica de Jurado — como se dissesse: “eles vieram explorar e catalogar; agora é a vez de nós catalogarmos o olhar deles”.
O documentário se destaca por não cair no didatismo nem no vitimismo. Sua potência está no modo como faz da montagem uma ferramenta crítica, ao justapor imagens glorificantes e sons desconcertantes, ao inverter signos e narrativas. Há humor, ironia e, sobretudo, uma consciência aguda de que, para a América Latina, a corrida espacial foi mais um capítulo da corrida imperial. Se os astronautas americanos estavam ali para simular uma exploração lunar, Jurado nos mostra que o território latino-americano já era tratado como uma colônia interplanetária — e que esse olhar ainda persiste sob novas formas.
Saí da sessão com a sensação de ter visto não apenas um registro histórico, mas um espelho retrofuturista do presente. Como Méliès em 1902, “Bienvenidos Exploradores Interplanetarios y del Espacio Sideral” transforma a lua em metáfora; mas, ao contrário do cineasta francês, seu interesse não está na fantasia escapista, e sim na denúncia lúcida. Um filme que consegue ser político sem perder a inventividade formal, que cutuca nossas feridas coloniais e quase nos provoca um ataque de epilepsia.
Bienvenidos Conquistadores Interplanetarios y Del Espacio Sideral foi exibido na Mostra Território do 19º CineBH, o Festival Internacional de Cinema de Belo Horizonte.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.
