“O espectador não entende o que está passando pela minha cabeça, mas ele olha para o meu olho e entende que há na minha cabeça uma busca.” – Carlos Francisco

Ator de destaque do cinema brasileiro contemporâneo, Carlos Francisco acumula performances marcantes em produções como Bacurau, Marte Um e, mais recentemente, O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho. Sua presença em cena é lembrada pela intensidade e pelo gesto, pelo olhar que comunica mais do que as palavras. No CineBH deste ano, o ator recebeu uma homenagem especial e conversou com o público sobre trajetória, formação no teatro, corporeidade, política e identidade na construção de personagens.
Confira os principais trechos da conversa de Carlos Francisco com o Cinema com Crítica:
Alvaro Goulart – Já virou comum o senhor interpretar pais nos filmes nacionais. Uma cena que me marcou foi em Marte Um: a reforma da cadeira como presente representa carinho, um gesto de afeto, uma entrega de um homem que talvez não conseguisse expressar com palavras o seu sentimento. Foi emocionante assistir. Queria que o senhor comentasse um pouco sua formação no teatro, que traz essa linguagem corporal. Como é para o senhor atravessar os outros e sensibilizar não com palavras, mas com gestos?
Carlos Francisco – Eu acho que isso tem muito a ver com a compreensão da emoção do personagem, do momento que ele está vivendo, do momento interno, das coisas que o movem naquele momento, para um lado, para o bem ou para o mal. E aí é tentar perceber isso, é tentar reconstruir isso. Então o espectador não entende o que está passando pela minha cabeça, mas ele olha para o meu olho e entende que há na minha cabeça uma busca. E aí o ambiente, a situação e tal, ajuda a eu compreender o que se passa pela cabeça dele. Talvez isso, não sei se é bem isso assim, mas… Eu acho que é a questão do teatro. O teatro tem sempre a coisa do… Você tem duas coisas. Você tem o outro… mais de duas coisas. Você tem o outro, com quem você dialoga, que te atravessa de alguma forma, te provoca, porque ele faz você rever o que você tinha planejado sozinho. Você tem que jogar. Tem o processo interno que move o personagem. Tem o que ele está fazendo. E tem aquilo que o motiva a fazer o que ele está fazendo. Eu não sei se está ficando muito técnico, está meio esquecido. Falando assim parece muito técnico, mas é tudo muito simples. Então, acho que são essas coisas. Você segue essas coisinhas, responde essas perguntas e aí você consegue fazer com naturalidade um sentimento.
Alvaro Goulart – E essa simplicidade do corpo falar bastante, de comunicar com todos os públicos… Muitas vezes uma ação breve emociona mais que uma frase construída. Entre seus personagens, quais cenas mais o marcaram?
Carlos Francisco – Marca mais? Assim… Ah, tem várias cenas, né? Aquele tiro no Bacurau, aquela pergunta “você quer viver ou morrer?”, aquela… Essa coisa do Marte Um, essa cena da cadeira eu gosto muito! Tem uma cena dele com a filha dele lá, quando ela fala assim.. que ele fala assim: “pede desculpa pra sua amiga”, ela fala, “você vai lá em casa, você mesmo e pede desculpa pra ela. E é namorada, pai”. E aí ele aceita, depois dá uma cabeçadinha nela, assim, de brincadeira. É uma curva aquilo, né, de aceitação, no embrutecimento dele, ele fala, ele tá entendendo uma coisa que é geracional, ela fala, “ó, é minha namorada”, e ele processa e entende, humanamente, sim, ele tá se reprocessando. É uma coisa pequena, mas eu gosto dessas cenas assim. No seu Alexandre, eu gosto também quando ele percebe, quando ele pensa, por exemplo, que, já não vou dar spoiler, que é ruim. Mas ele faz um grande avô, ele cuida do neto. Então, acho que eu gosto dessa coisa que ele pensa entre esse desejo de continuar cuidando do neto, ao mesmo tempo, o medo de perder o neto, porque ele sabe que o neto precisa ter a própria família estruturada. Então, esse limiar aí, quando ele fala, “vai levar meu neto?”, e ele (Wagner Moura) fala “vou levar meu filho”, Seu Alexandre fala “é, tem que levar mesmo”. É estar entre essas duas coisas, né? Então, essas coisas me motivam, sabe? Essas pequenas coisas do personagem. Então eu não saberia escolher. Eu acho que cada um tem um momento assim que eu destacaria. Cada personagem tem um momento desses.
Alvaro Goulart – Em O Agente Secreto, percebo algo de Cinema Paradiso à brasileira. O Cleber gosta de dialogar com referências de fora, mas recriando à sua maneira. E isso me leva à questão da cultura: em personagens como o de Bacurau, um homem da terra, há muito de vivência. Como o senhor lida com trazer experiências próprias para seus personagens?
Carlos Francisco – Olha, a construção sempre passa por mim. Ela não pode não passar por mim. Porque eu sou eu. Então eu tenho que entender que quando eu estou nascendo, eu sou preto. Então a minha corporeidade, ela fala, eu tenho que entender isso. Se eu não entender o que eu sou, eu vou trocar os pés pelas mãos, sabe? Eu vou tentar, eu vou fazer algo que alguém como eu não faria. Por um monte de razão. Eu vou ter uma relação com determinadas coisas que alguém como eu não teria. Então eu tenho que ter essa… Isso tem que passar por mim. Talvez não passar por outro. Tem um amigo meu que falou, aí eu vi um Otelo, o Tiago Mendonça, que é um diretor, ele escreveu no livro, no catálogo, ele fala sobre um trabalho que eu fiz no teatro, que foi o Otelo, do Shakespeare, e eu fazia, eu era o terceiro Otelo. O primeiro foi o Ailton Graça, substituído pelo Edson Montenegro, e o terceiro fui eu. Eu acho que eu entendo a demora do diretor em aceitar a minha participação, eu fazia o Montano antes, como Otelo. Porque eu sou pequeno. O Otelo é um guerreiro, um mouro guerreiro. Mas você é gigante, Otelo. Eu sou um cara pequeno. Acontece que quando eu fui para o personagem, eu entendi isso. Então o meu Otelo, ele não pode ser um Otelo bruto que chega e chuta no mesmo. Ele não pode ser o cara da equipe. É claro, ele é o guerreiro. Mas ele tem que ter outra coisa. Ele tem que ser um estrategista. Ele tem que ter um processo mental. Ele tem que entender. Então eu procurei entender. As coisas que o Shakespeare trazia, das minúcias. E fui trazendo um personagem, aí ele fala “pô, eu vi um Otelo que eu nunca tinha visto. Porque é um Otelo do meu tamanho, apropriado do meu tamanho”. O meu tamanho não pode ser aquele guerreiro que sai dando porrada nos outros. Ele tem que ser aquele guerreiro, você tem que acreditar que esse cara, no limite, ele tem a capacidade de dar porrada no outro. Você tem que acreditar, ele é guerreiro. Mas não é isso nele, tem outros caras maiores, então não é no peito que ele vai impor respeito, ele vai impor respeito de outra maneira. É um pouco o Lula ontem com o Trump, que é o grande guerreiro que maltrata o outro, faz bullying com o outro, mas aí chega no Lula, ouve o discurso do cara na abertura, e depois encontra com ele e fala, pô… “Encontrei com ele nos bastidores e rolou uma química. Vamos conversar, porque eu converso com as pessoas de quem eu gosto”. É isso. O Lula não é um cara gigante. Ele não tem canhões, não pode oferecer frotas para disputar o mar, mas ele tem inteligência, ele é um estadista. E é isso que ele é. Aí, voltando, parece que eu distanciei muito, mas eu queria exemplificar concretamente o que eu estou dizendo. Isso tem que passar pelo que eu sou. As minhas construções, eu tenho que levar em conta que eu não sou grande para fazer um guerreiro. Então, meu guerreiro tem que ter outra natureza. É, eu acho que é um pouco isso que eu procuro fazer com meus personagens.
Alvaro Goulart – E o senhor começou no teatro ainda criança, brincando. Como eram as interpretações? O que o inspirava?
Carlos Francisco – Eu acho que… Olha, lembrando das coisas que eu fazia… Eu fico lembrando que eu tinha a coisa da… É impressionante isso, que eu tinha a coisa da ação. Eu lembro que quando eu não estava na cena objetivamente, mas eu estava em cena, eu tinha sempre uma ação subjetiva concreta, que é o que move os personagens no teatro. Você tem que ter ações concretas. Não pode ter coisa abstrata. Inclusive abstração, eu acho que não ajuda ator. Se o diretor te orienta, sim. Eu acho que você tem que… Não, ele tem que ser concreto. Você é frio, você… Tem que ser orientações concretas ajudam o ator. Coisas abstratas não ajudam o ator, confundem o ator, fazem o ator ficar psicologizando e não tem psicologismo. São coisas práticas, objetivas. Direita, esquerda, frente, trás, cima, embaixo. Eu estou simplificando, mas eu acho que é isso. É mais objetivo. E aí a corporeidade é uma dessas objetividades.
Alvaro Goulart – O senhor também falou da influência de Brecht, de uma formação mais política no teatro. Isso se reflete nas escolhas dos projetos em que participa?
Carlos Francisco – Eu acho que sou eu. Eu trago isso para os meus personagens, porque isso é a coisa da ocupabilidade que eu estou falando. Não é que eu queira trazer. Mas aí na minha relação com alguma coisa, a minha maneira de me relacionar com as coisas é política. É a maneira de relacionar do meu jeito de relacionar. E isso imprime política nas coisas que eu faço. Porque eu ajo de uma maneira ou de outra, eu escolho uma coisa ou outra. E as minhas escolhas determinam o que eu sou. Então talvez é isso que me faz um ser político, é fazer as minhas escolhas. E eu as faço também como ator nos meus personagens. Então isso soa político.
Alvaro Goulart: Perfeito!
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.



