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Huaquero

Classificado como 3.5 de 5

Huaquero

2021

81 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Juan Carlos Donoso Gómez

O resgate da memória tem sido um objetivo comum entre diversos países latino-americanos, e o cinema tem se mostrado uma vitrine potente para denúncias, debates e conquistas. No Brasil, isso se reflete no momento político e nas recentes produções que abordam crimes da ditadura antes silenciados, como o premiado Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional. Também as produções indígenas, cada vez mais presentes no circuito, ecoam as vozes dos povos originários, reafirmando suas lutas e registrando culturas historicamente oprimidas. Nesse contexto continental de revisitar passados soterrados e de confrontar feridas coloniais, surge o longa Huaquero, de Juan Carlos Donoso Gómez, que ilumina um tema tão delicado quanto revelador: a huaquería, prática clandestina de escavação de sítios arqueológicos em busca de relíquias pré-hispânicas.

O filme mergulha na vida dos chamados huaqueros, trabalhadores que arriscam a própria sobrevivência nos cenários mais hostis em busca de fragmentos de um passado enterrado. As huacas — ou wagas, em quéchua — são objetos sepulcrais, tesouros sagrados deixados pelos povos nativos. Roubados, vendidos ou esquecidos, carregam consigo não apenas valor histórico e material, mas também uma herança espiritual e cultural dilacerada pela colonização europeia. A profanação de espaços sagrados, a pilhagem de corpos e a exploração do ouro e de outras riquezas tornaram-se práticas recorrentes desde a chegada do imperialismo ao continente americano. O que não foi levado além-mar ficou soterrado, consumido pelo tempo e pela natureza.

Huaquero mostra como a huaquería ocupa um espaço ambíguo: é, ao mesmo tempo, crime e herança. Apesar de clandestina, essa atividade carrega um certo traço de legitimidade, pois aqueles que escavam não deixam de reivindicar, ainda que inconscientemente, os restos de uma história que também lhes pertence. Em meio a condições socioeconômicas precárias, eles recuperam parte de um patrimônio que deveria estar ao alcance de seus descendentes, mas que termina, quase sempre, em coleções privadas da elite branca ou negociado em dólares nos mercados paralelos. Nesse sentido, o filme ilumina uma contradição: se condenamos o tráfico de bens culturais, também precisamos reconhecer que a ferida colonial permanece aberta, com ecos de desigualdade e expropriação que atravessam a América Latina.

A escolha estética de Donoso reforça essa reflexão. Rodado em 16 mm, o filme ganha uma textura nostálgica, granulada, que evoca a própria ideia de arqueologia: imagens como fragmentos que resistiram ao tempo. A trilha sonora, que recupera sons de instrumentos pré-colombianos, amplia essa atmosfera de passado revisitado. A câmera, em vez de se concentrar nos rostos — muitas vezes desfocados ou fragmentados —, privilegia as mãos dos trabalhadores. São elas as verdadeiras protagonistas, revelando a materialidade do ofício: cavar, escavar, limpar, esculpir. O gesto manual se transforma em coreografia hipnótica, devolvendo corpo e dignidade a uma prática constantemente empurrada para as sombras da clandestinidade.

O documentário também evita emitir juízos de valor categóricos. Um exemplo é a questão da falsificação de peças. Se por um lado ela responde à lógica do lucro, por outro, há uma dimensão poética na tentativa de reconstruir histórias a partir de fragmentos. Quando vemos huaqueros buscando encaixes entre partes quebradas, testemunhamos não apenas o nascimento de uma nova peça, mas também um exercício de reescrita da memória. Esse processo lembra, em certo sentido, práticas artísticas como o funk e o hip hop, que utilizam samplers para transformar trechos de músicas em criações originais. O filme sugere que a mesma criatividade que move a reprodução também pode ser lida como ato de resistência.

Arte mesmo enquanto clandestinidade? (Imagem: Divulgação)

A montagem reserva ainda pequenos achados visuais que reforçam a reflexão. Num raccord sutil, o espectador acompanha um huaquero limpando delicadamente uma peça com pincel — corte que leva a um barbeiro retirando com o mesmo movimento os cabelos recém-cortados de seu cliente. O gesto, repetido em contextos distintos, sugere uma metáfora poderosa: assim como as relíquias, também os próprios huaqueros carregam camadas de poeira e história, esperando ser descobertos, cuidados e lapidados.

Ao final, Huaquero não oferece respostas fáceis nem acusações diretas. Seu mérito está em lançar luz sobre uma atividade envolta em sombras, propondo que vejamos além do rótulo de ilegalidade e compreendamos o peso histórico que ela carrega. Mais do que um filme sobre o passado, é um olhar atento para o presente — um presente que ainda vive sob os escombros da colonização. O longa nos lembra que a memória, quando escavada, pode tanto revelar feridas quanto devolver dignidade a quem foi silenciado.

Huaquero compôs a Mostra Território do 19º CineBH, o Festival Internacional de Cinema de Belo Horizonte.

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