Não é a primeira vez que um filme se debruça sobre o microcosmo familiar para discutir o colapso de uma nação. Me recordo principalmente dos clássicos do neorrealismo italiano que eternizaram o registro de um momento histórico a partir do olhar humanista sobre o povo. Em Una Casa con Dos Perros, de Matías Ferreyra, acompanhamos uma família que, sufocada pelo colapso econômico, se vê obrigada a deixar sua casa para viver com a matriarca “La Tati”. O que poderia soar como um drama social de contornos tradicionais ganha densidade ao ser narrado, sobretudo, pelo ponto de vista de Manuel, um dos três filhos, que é também o mais negligenciado. É a partir desse olhar infantil — simultaneamente lúdico e dolorido — que o filme constrói um retrato pungente de uma Argentina em frangalhos.
Logo na primeira cena, Ferreyra deixa claro o lugar que Manuel ocupa na hierarquia afetiva da família. O menino veste roupas gastas em contraste com os irmãos, e sua brincadeira favorita é desaparecer, esconder-se por horas a fio sem ser notado. O “poder de invisibilidade” que acredita ter é menos uma fantasia heroica e mais um sintoma da negligência declarada de seus pais. O roteiro, delicado, não precisa sublinhar: basta o espaço que lhe é negado, a falta de cuidado evidente, para que compreendamos a carência que o atravessa.
É significativo, portanto, que seja na relação com La Tati que Manuel encontre alguma troca. A avó, no entanto, está longe da figura idealizada. Exótica, às vezes cruel, outras vezes quase terna, La Tati parece refletir algum grau de degeneração cognitiva que fragiliza sua liderança doméstica. Ferreyra, com sutileza, não transforma essa condição em espetáculo; pelo contrário, deixa que ela se manifeste nos devaneios, nas reações hostis à invasão da casa, nas decisões questionáveis que colocam toda a família em xeque. Essa matriarca exótica é, ao mesmo tempo, porto e ameaça, metáfora de um país cuja autoridade está corroída mas que ainda dita as regras.

A mise-en-scène potencializa esse discurso. O diretor utiliza os espaços da casa para discutir marginalização. A família não ocupa a sala ou os quartos principais, mas é relegada à garagem — um subespaço, um “não-lugar” que espelha a posição social desses trabalhadores durante a crise. À medida que os cômodos são revelados e reivindicados, vemos uma tentativa de resistência: os objetos rearranjados, os espaços ocupados. Mas essa luta encontra hostilidade tanto nas reações de La Tati quanto no próprio desgaste psicológico dos adultos.
No núcleo adulto, a mãe Nora — filha de La Tati — surge como uma dona de casa que tenta manter-se firme diante do sufocamento familiar. Ela é esmagada, ao mesmo tempo, pelo descontrole da mãe e pela inépcia das figuras masculinas: o marido Hector, que insiste em decisões incompatíveis com a realidade financeira, e o irmão Raul, um homem de meia-idade que se comporta como adolescente, à margem das questões essenciais. O microcosmo familiar, assim, revela não só um país abandonado pelo Estado, mas também a falência de uma ordem doméstica que já não dá conta de proteger seus membros mais frágeis.
Nesse contexto, Ferreyra insere elementos alegóricos que elevam o drama para um plano simbólico. A miragem de um cachorro morto — mais uma das imagens que o filme nos oferece — funciona como ponte entre o desnorteamento de uns e o descaso de outros, um eco da própria metáfora do título: “uma casa com dois cachorros”, que sugere tanto proteção quanto ameaça, tanto afeto quanto desordem. O lúdico e o alegórico não são ornamentos, mas parte do dispositivo narrativo para falar de um país em ruína através da corrosão do ciclo familiar.
Por fim, assim como Manuel se refugia na imaginação para sobreviver à negligência, o diretor abraça esse registro para construir seu discurso. Una Casa con Dos Perros não é um melodrama sobre pobreza; é um retrato íntimo de como a crise política e econômica infiltra-se nos afetos, corroendo-os de dentro para fora. Ferreyra consegue, com olhar sensível, mostrar personagens que tentam reservar o pouco que lhes resta de psicológico enquanto sofrem abandono estatal e conflitos domésticos.
Uma Casa com Dos Perros foi exibido na Mostra Território do 19º CineBH, o Festival Internacional de Cinema de Belo Horizonte.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.



