Luca Guadagnino construiu sua reputação como um dos cineastas mais sensíveis e visuais do cinema contemporâneo. Depois de alguns filmes discretos na Itália, ele se tornou mundialmente conhecido com Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, 2017), um filme de uma delicadeza ímpar ao levar para a tela a experiência de descoberta afetiva e sexual de um jovem rapaz com um amigo de sua família durante uma temporada de verão. A obra catapultou a carreira de Timothée Chalamet, transformando-o em um astro global, e consolidou o nome de Guadagnino como um diretor capaz de transformar intimidades em espetáculo visual e emocional.
Em seguida, o diretor ousou ao revisitar Suspiria (2018), clássico de terror psicológico de Dario Argento, reimaginando-o como um épico expressionista sobre corpo, poder e feminilidade. Já em Bones and All (2022), mergulhou em um romance canibal que misturava horror e lirismo, mostrando-se interessado nas margens do desejo e nas zonas de desconforto do amor. E com Rivais (Challengers, 2024), atingiu o auge da pulsão sexual e estética: um triângulo amoroso entre tenistas, centrado na personagem de Zendaya, que fez do jogo físico uma extensão dos jogos emocionais.
É justamente depois desse percurso que Guadagnino parece trocar o suor do corpo pelo suor da moral. Depois da Caçada propõe um mergulho na política do cancelamento e nos embates éticos do meio acadêmico. Julia Roberts interpreta Alma, uma renomada doutora em filosofia que vê seu melhor amigo e colega de trabalho — interpretado por Andrew Garfield — ser acusado de assédio sexual por sua orientanda, Maggie, vivida por Ayo Edebiri. O caso se torna ainda mais espinhoso por envolver uma noite nebulosa, uma festa no apartamento da protagonista e a tensão sexual latente entre Alma e o acusado.
À medida que a investigação se desenrola, um segredo do passado volta a rondar a protagonista, interferindo diretamente na direção que ela precisa tomar. Guadagnino insinua que há algo não resolvido entre Alma e o colega, algo que ameaça vir à tona e comprometer não apenas sua reputação, mas também suas convicções éticas. É nesse ponto que o filme tenta tensionar o público: até onde a lealdade e o desejo distorcem a ideia de justiça?
Desde o início, o filme se apresenta como um exercício de provocação moral. Guadagnino parece interessado em testar os limites da empatia do espectador, questionando nossos impulsos por julgamento e a necessidade contemporânea de definir vilões e vítimas imediatas. No entanto, a trama que poderia ser uma reflexão contundente sobre poder e responsabilidade acaba se revelando míope. O olhar do filme é centrado quase exclusivamente em Alma — uma mulher branca, bem-sucedida e cercada de privilégios — que, apesar de doutora em filosofia, não encontra em sua bagagem intelectual respostas para os dilemas que enfrenta. Suas ações, movidas por culpa e vaidade, são tão egoístas quanto as de seu colega acusado.
O personagem de Garfield é construído como o arquétipo do homem cis, branco e prepotente que domina o espaço acadêmico. Sua performance, embora precisa, se apoia no desconforto que o público sente ao vê-lo — um ator que, por anos, encarnou o “bom moço” hollywoodiano, agora interpretando alguém que não faz o menor esforço para desfazer a imagem de arrogante e autocomplacente. Guadagnino parece brincar com essa inversão de persona, mas o resultado é mais ensaio que revelação.
A grande falha do filme, contudo, reside na maneira como ele apaga o olhar de Maggie, a estudante negra que faz a denúncia. A personagem de Edebiri é tratada quase como um obstáculo narrativo — uma presença que tensiona, mas nunca é plenamente escutada. Seu mérito acadêmico é questionado, sua subjetividade é diluída, e o roteiro parece endossar uma visão cética sobre as lutas de sua geração, como se Guadagnino carregasse uma indisposição com os jovens “woke” que confrontam as estruturas tradicionais de poder.

Essa escolha enfraquece a proposta do filme, pois o coloca em um terreno de falsa neutralidade: enquanto pretende expor o moralismo contemporâneo, acaba reafirmando a centralidade do olhar branco, masculino e europeu — mesmo quando conduzido por uma mulher. O nome da protagonista, Alma, soa quase irônico. Vestida de branco, ela sustenta o status quo imaculado até que, aos poucos, seus figurinos ganham tons mais escuros à medida que suas decisões se tornam mais duvidosas. O simbolismo é tão evidente que beira o piegas.
Do ponto de vista formal, é inegável o domínio de Guadagnino sobre a gramática cinematográfica. Seus enquadramentos são elegantes, o uso da cor é calculado, e os movimentos de câmera — especialmente os zooms abruptos — tentam insuflar urgência à narrativa. Mas, diferentemente de seus filmes anteriores, aqui essa maestria visual não serve à história; serve apenas ao ego do diretor. É como se ele estivesse mais interessado em reafirmar sua assinatura estética do que em contar algo que realmente o mova.
O resultado é um filme apático, estéril e, paradoxalmente, sem tesão — algo impensável na filmografia de Guadagnino. Depois da Caçada se pretende um espelho crítico dos tempos atuais, mas termina refletindo apenas o cansaço de um autor que parece ter espremido todo o seu talento emocional e sensual nos filmes anteriores. O olhar agora é técnico, cerebral e, sobretudo, vazio.
Depois da Caçada foi assistido durante a 27ª edição do Festival do Rio.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.

