“Tua existência trouxe cura para nossas crianças feridas.” É cediço que o sol, como fonte primária da energia, torna possível a vida em nosso planeta. Apolo, na mitologia grega, é o deus do Sol, e seu nome representa aquele que é luminoso, que é radiante. O Apolo que intitula o documentário de Tainá Müller e Ísis Broken é uma criança que emana luz para muito além do nome que recebe. Ela é o atestado de existência plena de seus pais, é prova cabal do poder restaurador do amor quando encontra espaço para se manifestar. O Sol, na figura diminuta de um bebê, torna-se a cura do passado de opressão de Lourenzo Gabriel e sua companheira, a própria diretora, Ísis Broken, um casal transgênero que gerou a vida que nascerá através do pai.
O direito de constituir família e de gerar filhos encontra-se protegido pela Constituição Federal, e integra o conjunto de direitos fundamentais relacionados à dignidade da pessoa humana e à liberdade individual. O artigo 226 da Lei Maior garante que a família tem proteção especial do Estado, sem impor formatos e modelos únicos para sua formação. Prevê, ainda, que o planejamento familiar é de livre decisão, respeitando-se a autonomia reprodutiva. O STF, através da ADI 4277 e da ADPF 132 de 2011, confirmou a abrangência do direito dos casais homoafetivos no rol da proteção familiar constitucional. A família, como entidade a ser protegida pelo Estado, pode ser heteroafetiva, homoafetiva, monoparental, socioafetiva ou por adoção – todas as formas são, obrigatoriamente, abarcadas pelas garantias legais e isso inclui o direito das pessoas trans.
Perante o diploma legal, Lourenzo Gabriel e Ísis Broken não deveriam enfrentar quaisquer obstáculos na gestação. Acompanhando os direitos de proteção à família estão os que resguardam a integridade do período gestacional. Quem carrega uma vida no ventre tem direito a ser tratado com dignidade, sem discriminação, a ser chamado pelo nome de preferência, a receber todas as informações sobre o tratamento e opções de parto, e ter acesso a toda estrutura de atendimento médico e exames de pré-natal. Quando a pessoa que gesta é o pai, cujo corpo biologicamente é nascido feminino, e portanto, perfeitamente capaz de gerar, todas as garantias se esvaem. A sociedade não está estruturada para receber um pai parturiente. O que deveria ser um período de preparação para o recebimento de uma nova criança ao mundo torna-se também uma sequência de desgastes perante o sistema público de saúde que recusa atendimento digno, e o casal registra em imagem o processo doloroso pelo qual precisam se submeter para que o filho possa existir.

Os percalços, entretanto, são contrapostos pelo otimismo construído pela poesia. Já sabemos que a história de Apolo encontrará um desfecho feliz, uma vez que o filme se estrutura através da narração dos pais que registram e contam ao filho sua própria trajetória, como uma carta lida em voz alta, um álbum de bebê feito por meio do cinema. Sua história é também a de seus ancestrais. As diretoras imprimem um tom místico ao documentário e à própria criança que é condizente com a espiritualidade dos protagonistas, e até com a forma improvável com que se deu a gravidez. Lourenzo, que passava por hormonização já há três anos, fez uma pequena pausa de três meses no processo, e engravidou justamente nesse período. A interrupção mínima exigida para possibilidade de gerar nesses casos é de seis meses. Apolo, portanto, é visto como fruto da vontade divina, da força do amor, e essa bonita crença é mote do longa e da aceitação e acolhimento das famílias de ambos.
O dito “álbum de bebê” cinematográfico realmente acontece. Alternam-se os registros da gravidez com ensaios fotográficos de Lourenzo e Ísis, que exaltam suas belezas e a misticidade do relato que querem contar. A proximidade do casal com a arte torna ainda mais carismática a representação documental. Ísis é cantora e atriz, e Lourenzo é multiartista, e o conforto deles diante das câmeras torna suas presenças magnéticas.
A gravidez constituiu-se, outrossim, em um processo de aceitação e entendimento de cada um deles, mãe e pai, com o próprio corpo e identidade. Lourenzo compreende que foi, biologicamente, projetado para gerar a vida, mas tem muito claro seus limites e irá respeitá-los (por exemplo, no que se refere à dificuldade de amamentar) — e sua hormonização é retomada após o parto. Ísis, por sua vez, como mãe, deseja amamentar e se capacitará para tanto, até julgando o companheiro por expressar que talvez se recuse a fazê-lo. Entretanto, o diálogo e o entendimento, e principalmente, a imposição de limites identitários entre eles, mostra-se fundamental para que a narrativa ganhe, de fato, a felicidade que esperamos ao final.
Apolo é a história de amor emocionante e esperançosa que a sociedade precisa conhecer. Para além de ser, primeiramente, uma homenagem à criança iluminada que lhe dá o nome, o documentário de Tainá Müller e Ísis Broken exalta a enorme potência e complexidade do corpo humano que é muito maior do que qualquer ideia cisgênero e binária. Que “O amor é colorido e é um grande neném”, como dito por Broken em sua carta falada ao filho, é fato – a compreensão da grandeza dessa afirmação, entretanto, ainda falta ao mundo.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).




1 comentário em “Apolo ”
Pingback: 40 melhores filmes dirigidos por mulheres em 2025 - Coletivo Crítico