Aumentando seu amor pelo cinema a cada crítica

Copacabana, 4 de Maio

Classificado como 3 de 5

Copacabana, 4 de Maio

2025

74 min

Classificado como 3 de 5

Diretor: Allan Ribeiro

Se com a criação da câmera tornou-se possível o registro simultâneo de momentos históricos e únicos, outrora documentados pela via escrita, de modo a propiciar a paralisia do tempo numa imagem que, a depender da importância do acontecimento, tem o condão de representá-lo para a posteridade, o cinema, para além de seu objetivo artístico, proporciona a prolongação da experiência através da captação de uma sequência de momentos, tornando-se, quando esse o intuito do cineasta, uma peça de arquivo, um memorial, uma prova de existência. 

Com a câmera na palma de nossas mãos que seguram (viciadas) os dispositivos celulares, a documentação em imagem deixou de ser exclusividade de cineastas e fotógrafos. Portanto, existências são atestadas e acontecimentos tornam-se prova o tempo todo e imediatamente. Partindo da facilidade de realizar o registro e da urgência de um fato histórico ocorrido na capital do Rio de Janeiro, o diretor Allan Ribeiro precisou tomar uma rápida decisão: transformar a passagem de Madonna pela cidade em cinema. Copacabana, 4 de Maio acompanha, sob inúmeros pontos de vista, os preparativos para o maior show da carreira da diva pop e o impacto causado pelo evento nos mais de 1,6 milhões de fãs que se deslocaram de regiões diversas do globo para prestigiá-la. 

A percepção é que não registrar tal feito seria uma omissão quase que pecaminosa. Muito embora o espetáculo e a atração principal de tudo seja Madonna, o que interessa ao cineasta são as histórias e vidas que ela impactou. Copacabana, 4 de Maio não é um documentário sobre a cantora. É sobre o que ela significa e representa como entidade da música, e também sobre uma cidade que, vista como uma das mais perigosas do Brasil, recebe um evento dessa magnitude com uma organização invejável. Allan Ribeiro vai reunir grupos de amigos, casais, pessoas que majoritariamente fazem parte da comunidade LGBTQIA + e que tiveram na figura mítica da artista uma aliada histórica que moldou estéticas, danças e modos de existir por gerações, que pregou a liberdade sexual e de gênero, que celebrou e deu voz à cultura queer quando poucos o faziam, principalmente durante o ápice da epidemia do HIV.

Fernando Brutto (Imagem: divulgação)

As câmeras que imortalizam e conectam trajetórias são democráticas. O diretor, para além do dispositivo digital cinematográfico, usa capturas amadoras feitas pelos próprios personagens, por meio das câmeras de seus celulares. Alterna relatos de cabeças falantes e experiências individuais relacionadas à Madonna com o retrato da montagem das estruturas gigantescas do show na praia de Copacabana, e somente em sua reta final é que permite documentar o show em si, mas sempre sob a perspectiva pessoal de cada um. 

Muito embora o enfoque no indivíduo fã faça parte de um processo de humanização que torna Copacabana, 4 de Maio afetuoso, percebe-se uma dificuldade em manter interessantes todos os recortes ali contados, muito pelo esgotamento e pela repetição, e um tanto pela falta de carisma. Fernando Brutto, criador de conteúdo adulto, é, de longe, a mais magnética de todas as figuras ali representadas. Quiçá pela habitualidade da performance artística decorrente de seu trabalho, ele domina todos os espaços do documentário quando se faz presente, o que de certo modo diminui as demais ênfases, ainda que de forma não intencional. 

Mas e a Madonna? A vemos pelos telões, em imagens de baixa qualidade, pelo mesmo prisma dos olhares infinitos lançados pelo mar de pessoas que ali estiveram menos para alimentar o sentido da visão, e mais para sentir sua presença – obviamente, poucos a viram, de fato, de forma nítida. Quando ela se mantém distante, permanece seu endeusamento, sua aura sobrenatural agregadora de vivências e encorajadora de lutas. Ficam as marcas dessa imersão, em música e em cinema – e especialmente o cinema, como documento histórico.

Compartilhe

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar de:

Críticas
Marcio Sallem

O Menu

Um casal viaja para uma ilha costeira para

Rolar para cima