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O Olhar Misterioso do Flamingo 

Classificado como 3.5 de 5

O Olhar Misterioso do Flamingo

2025

104 min

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Diego Céspedes

Ideias de utopia não são universais. Se Thomas More, em 1516, pensou na U-topos, ou seja, o “não lugar” onde a sociedade funcionaria de forma harmônica em sua plenitude, justa e pacífica, como crítica moral aos estados europeus, especialmente a Inglaterra, é fato que o conceito e sua dissecação são moldáveis conforme o lugar contra o qual se opõe. O que é utópico para a Inglaterra do século XVI não o é para a Terra Brasilis da mesma época. Aquilo que é visto como ideal social para o Brasil de hoje não o é para a África do Sul. No mais, sociedades não são, necessariamente, estados. Sociedades também podem ser microcosmos representativos de uma comunidade, de um povo dotado de regras próprias e autonomia, como por exemplo, povos indígenas em isolamento voluntário, cuja utopia será diversa da pensada pelas pessoas que vivem, como ilustração, em Recife.

Conceitualmente falando, toda comunidade marginalizada, como o próprio termo revela, vive às margens da sociedade, e portanto, precisa encontrar modos próprios de se organizar, já que não amparadas pelo Estado em suas necessidades integrais. A comunidade LGBTQIA+, que vê seus direitos mais básicos ameaçados todos os dias, forma-se em núcleos representativos em prol de garantir sua própria existência. O que seria a utopia para essa coletividade? 

Se o direito de vivenciar o amor, de apaixonar-se e unir-se em casamento foi, e ainda é, negado às pessoas trans e travestis nos mais diversos cantos do mundo, o “não lugar” ideal talvez seja aquele onde justamente tais direitos possam ser vividos sem impedimentos.  O Olhar Misterioso do Flamingo, coprodução chilena dirigida por Diego Céspedes, vencedora da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2025 e integrante da programação do 33º Festival Mix Brasil, trabalha o conceito aqui tratado em doses homeopáticas, ilusórias e paliativas em meio a um entorno de violência e desolação, onde amar se torna sinônimo de adoecer. 

O cenário é o Norte do Chile de 1982, especificamente, uma cidade mineira, isolada e periférica, onde os trabalhadores residem longe de suas famílias em casas precárias de madeira empoeirada. Nesse ambiente predominantemente masculino, o acalanto é a casa de Mama Boa (Paula Dinamarca) e sua família, composta por travestis e pessoas trans, num retrato miniaturizado de núcleo social utópico possível dentro daquele contexto hostil. Lidia (Tamara Cortés) é uma garota de 11 anos acolhida nesse seio familiar, sendo adotada por Flamingo (Matías Catalán), que assume o papel de mãe. Elas vivem em harmonia, com amor e auxílio mútuo, e acolhem os mineiros carentes daquela cidade. A ruptura do equilíbrio ocorre quando uma doença misteriosa começa a se espalhar, e elas são culpabilizadas, espalhando-se o rumor de que são transmitidas pelo olhar.

Tamara Cortés como Lidia (Imagem: divulgação)

O primeiro caso de AIDS registrado no Chile data de 1984. Se até hoje trata-se de um padecimento que ainda desafia a medicina, a total falta de compreensão a seu respeito no tempo de seu surgimento faziam aumentar o estigma contra a população LGBTQIA +. Diego Céspedes fala da doença em tempos que precedem notificações oficiais de sua circulação, situando-a num espaço relegado às margens, esquecido, de desumanas condições de trabalho, e, portanto, serviço de saúde inexistente. Se a natureza do padecimento era desconhecida, tudo ao redor dela é mito, é lenda, é o figurativo que transcende o imaginário para trazer consequências reais na vida dessas mulheres. 

O Olhar Misterioso do Flamingo foi filmado com câmera ALEXA 35, modo S16, na ideia de conceder uma textura à imagem e atribuir-lhe uma estética menos limpa. A presença do ruído que remete à película se faz prontamente notória  na cena inicial da obra, que, de modo documental, situa geograficamente o espectador no norte chileno, pouco acolhedor, de natureza rochosa avassaladora, onde a vida humana e qualquer felicidade parecem não se encaixar. Das montanhas, escorre um líquido alaranjado, semelhante à uma lava, chocante em meio ao cinza pedregoso. O aspecto químico e mórbido desse fluído logo evoca à secreção que sai da tosse de Flamingo, para compreendermos que aquele é um lugar onde paira algum tipo de enfermidade cuja causa desconhecemos, mas que remete diretamente à mineração.

O desamparo espacial contrapõe-se ao calor humano encontrado na casa de Mama Boa, onde há afeto e paira uma atmosfera pacífica. Se a opressão tenta se aproximar, elas defendem-se mutuamente. Ali, ao redor desse lar, o céu aparenta até mais azul. O mau-presságio, entretanto, é onipresente. Quando elas passam pela cidade, os homens tapam os olhos, e os dizeres “não olhe para o viado, limpa, limpa, vai transmitir a peste” ecoam como uma maldição narrada em off

Essa dualidade presente nos ambientes e pessoas, nesses lugares e não-lugares onde guerra e paz, vida e morte convivem em constante batalha, bem refletem o U-topos de Thomas More que escorre pelos dedos. Flamingo está febril, mas plena em sua fantasia de Miss Alasca, famoso concurso de beleza local que ela venceu por 7 anos seguidos. Pálida, já física e visivelmente condenada, ela tosse, mas não consegue deixar de entregar-se à paixão e dedicar-se à filha. O homem que ela ama é sua desgraça, e a doença os conecta, como punição por permitir-se, como pessoa travesti, apaixonar-se – e a culpa é atribuída ao seu olhar enigmático.

Diego Céspedes reconhece que ali, na cidade mineira que não oferece qualquer perspectiva, as travestis, adoecidas ou não, estão condenadas, mas respeita a utopia e lhes permite vivê-la em centelhas, em miragens. A praga é tanto literal como figurada, pois há doença e há o homem. Em cenas que funcionam como pequenos oásis, Flamingo é uma deusa vestida de plumas que enfeitiça seu indigno amado com a luz que emana de seu olhar, Mama Boa pode viver seu amor com o ancião Clemente (Luis Dubó) na tenda que ela chama de Jardim da Jiboia, e todos ficam felizes com esse momento. O diretor usa o contra-plongée para situá-las em superioridade, como divindades, com relação aos homens, ressaltando-lhes como vassalos e submissos nesse microcosmo fantástico. 

“Por que se apaixonar pode ser tão perigoso?”. À pequena Lidia, que aprende a lutar por si e pelas suas, que é imponente, ainda que diminuta, quando caminha pelo deserto pétreo, é incompreensível que as mulheres de sua família sofram consequências simplesmente porque se permite amar. Vai permanecer nela o senso de justiça e o desejo de mudança, e inserida na utopia, como uma cowboy determinada, ela a faz – e ao menos ali, garante o direito de existência daquelas que ela mais ama.

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