Tamanha a gravidade da alienação parental que suas consequências podem perdurar, de forma irremediável, quiçá irreversível, por toda uma vida. Em resumo, como fenômeno jurídico, a alienação parental consiste na interferência da formação psicológica da criança ou adolescente por, mais comumente, um de seus genitores contra o outro, gerando obstáculos ao convívio e prejudicando o vínculo afetivo com ele. Apresentar falsa denúncia, desqualificar, induzir a rejeição e impedir o contato da criança com o outro genitor são atos hábeis à sua configuração, que no Brasil, é especificamente tratada pela Lei nº 12.318/2010.
As vidas que sofrem com esse exercício manipulador podem ser abaladas para além da relação dos genitores com a criança em questão. Sendo violadora do direito fundamental de convivência familiar saudável do menor, a alienação parental constitui abuso moral que reverbera em danos de forma cíclica. Todo o grupo familiar aos quais pertencem os envolvidos e também gerações posteriores podem ver-se presas por esse acontecimento, principalmente, em razão do rompimento de algo que somente o convívio salubre pode tornar estável: o afeto.
Me Ame com Ternura, filme francês dirigido por Anna Cazenave Cambet que abriu o 33º Festival Mix Brasil de Cultura e Diversidade e foi exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2025, transforma as máculas da alienação parental angustiadas por uma mãe em seu fio condutor, possibilitando à personagem desaguar-se em sentimentos através da arte da escrita, enquanto lida com o enfrentamento de um processo judicial proposto contra ela e luta pelo direito de ser mãe e mulher.
Clémence (Vicky Krieps) mantém um bom relacionamento com seu ex-marido, Laurent (Antoine Reinartz), até que resolve contar-lhe que está se envolvendo com outras mulheres. Incapacitado de gerir e aceitar a homossexualidade da ex-esposa, Laurent a princípio investe em reatar a relação e, diante da rejeição, radicalmente muda seu comportamento e inicia a prática de manipulação do filho do casal, Paul (Viggo Ferreira Redier) contra ela, transformando sua vida num verdadeiro calvário. Ele obtém, do sistema judiciário francês, a guarda absoluta do menor, mediante falsas acusações que retiram o direito de visitação materno.

A masculinidade ferida e a ausência de habilidade do homem para administrar a rejeição são, em Me Ame com Ternura, mote para a prática de atos de alienação parental que não encontrarão fim, abrindo uma fenda significativa a ponto de comprometer os laços afetivos. Anna Cazenave Cambet é habilidosa ao tratar as inúmeras facetas concomitantes decorrentes desse acontecimento, expressando as consequências dos atos de abuso moral violentamente danoso cometidos pelo pai, denunciando a morosidade do sistema judiciário francês que se mostra incapaz de dar uma resposta a tempo de evitar a irreversibilidade dos danos, ao mesmo tempo em que alivia a angústia causada pelo contexto com momentos em que Clémence vivencia sua liberdade afetiva e sexual e os pequenos prazeres que ela encontra em sua rotina.
A protagonista vivida por Vicky Krieps é uma ex-advogada que optou por trocar de carreira. Dedicada ao sonho de lançar um livro, ela escreve a respeito de suas experiências de relacionamentos pós-divórcio e como balanceá-los (ou não) com a impossibilidade de ver o filho. Inegavelmente, a dor de assistir ao tempo passar no ritmo do sistema judiciário, desprovida de qualquer chance de convívio com Paul, persegue-a em cada pensamento de seu dia-a-dia. É impactante como Anna Cazenave Cambet lança a passagem do tempo de forma tão abrupta quanto a intensidade da separação dessas duas pessoas que se amam. São diálogos e mudanças de espaços e parceiras pela protagonista que vão revelar a decorrência de meses e até anos, intensificando a melancolia que é uma crescente durante todo o longa.
O conteúdo de seu livro em produção servirá de narração para que nos aproximemos das perturbações dessa mulher, que vê crianças em todos os lugares, que convive com uma tristeza constante sentida em seu peito, e que oscila entre entregar-se totalmente às relações com fervor e sumir por dias sem dar notícias. A observação de coisas banais da rotina é para ela rota de fuga para dissociar da gravidade e da sombra que ela vê se formar ao redor dela e do filho. Se exaure, usa de todos os mecanismos disponíveis — ainda assim, nada parece ser suficiente e nem eficaz o bastante diante da urgência imposta pelo tempo.
Anna Cazenave Cambet encontra em Krieps a atriz ideal para expressar as nuances de Clémence como mulher que resiste, com calma, às crueldades torturantes impostas pelo afastamento forçado do filho, ao mesmo tempo em que afirma-se como mulher lésbica e batalha, aos tropeços (elegantes, mas ainda imensuráveis tropeços) para ser feliz e sexualmente plena. Equilibrar-se entre impor-se como pessoa lésbica e batalhar pelo convívio, guarda e afeto do filho são atos socialmente vistos como inconsistentes e de coexistência moralmente condenável. A homossexualidade, descoberta após anos de casamento heterossexual, e sua carreira como escritora em ascensão, serão usadas contra ela como fatores incompatíveis à sua capacidade materna. Encontrando na natação o equilíbrio para manter-se sã e disciplinada, a protagonista recusará a violência como devolutiva da alienação parental sofrida, e Krieps ecoa uma serenidade quase que incompreensível diante da truculência da qual é vítima. No mais, é sempre um deleite prestigiar a atriz luxemburguesa, notadamente quando parece ser capaz de construir, com naturalidade espantosa, química e conexão com todas as personagens com as quais se envolve amorosamente.
O procedimento pelo qual a família é submetida parece correto. A demora, entretanto, é desumana. Todos, mãe, pai e filho, passam por avaliações psicológicas, cujo resultado até pode ser favorável à protagonista. No entanto, o efeito da passagem do tempo é avassalador. Mãe e filho sentem o peso do afastamento, e compartilham um misto de ternura, emoção, esperança, constrangimento e melancolia que paira sobre eles. Ambos lutam pela reconstrução do vínculo que fora destruído, mas a priorização da burocracia em detrimento de um desfecho menos danoso faz morrer, paulatinamente e sob suplício, o elo materno.
Me Ame com Ternura culmina com a mais dolorosa das decisões. Para escolher a vida, Clémence precisa deixar morrer aquilo que não mais tem salvação. “O amor é brutal, e temos que matar aqueles que amamos”, despeja, amargamente, a protagonista em seu livro. A luta é infinita e não acaba no processo judicial. Ou adota-se o aprisionamento das mágoas, ou opta-se pela liberdade que, por vezes, vem com o conformismo, por mais desolador que possa parecer.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).


