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Sabes de mim, agora esqueça

Classificado como 4.5 de 5

Sabes de mim, agora esqueça

2026

96 min

Classificado como 4.5 de 5

Diretor: Denise Vieira

Artisticamente, o trem carrega um simbolismo de passagem e transitoriedade que é capaz de modificar a relação tempo-espaço expressa na obra. Trata-se de um não lugar de existência provisória, cujo movimento em ritmo constante leva a um estado meditativo que, no cinema, provoca reflexões, regressões e análises que geralmente envolvem o próprio personagem e seu entorno. Quando penso em um exemplo, logo sou levada a O Herói, de Satyajit Ray, que insere seu protagonista no interior de um trem para confrontar seu passado e sua vida como ator através do sonho. O trem como metáfora de um estado reflexivo muito específico e onírico está intrinsecamente conectado ao estar dentro dele, como meio de transporte. A ideia provocada por seu exterior, pelo estar do lado de fora, é muito mais observacional do que introspectiva, mas o efeito de transitoriedade está ali.

Sabes de mim, agora esqueça, dirigido por Denise Vieira, nos coloca do lado de fora do trem – ou melhor expressando, às suas margens. Posiciona, no decorrer do trilho, mulheres racializadas de corpos e idades diversos, vestidas de modo provocante, sem medo de afrontar a câmera que as encara em travelling. Elas estão ali provisoriamente, levadas por imprevistos que as fizeram buscar abrigo nesse não-lugar, no espaço de espera. O exterior do trem para além dos trilhos é um puteiro, este que carrega o símbolo do ilícito, dos desejos obscuros e da insegurança. Aqui, no mundo distópico criado pela diretora, onde lanternas fiscais de moralidade perseguem prostitutas do lado de fora, o prostíbulo é sinônimo de segurança, de união, de lugar seguro, acolhedor de mulheres que encontram no transitório a família que o mundo se recusa a proporcionar.

Essa a primeira ruptura de Sabes de mim, agora esqueça, e a consequência dela é a abertura de portas para uma segunda, e talvez ainda mais importante por dizer respeito justamente às próprias mulheres que têm em seus corpos o material de trabalho que as sustenta. Rubia (Pietra Sousa), Margô (Cida Souza), Melina (Aysha Layon) e tantas outras não limitam o sexo como meio de prazer em prol do outro, mas se apropriam e assumem sua agência como forma de expressarem seus próprios desejos e prazeres, sem submissão ou desumanização de suas figuras, com liberdade para a prática de fetiches e catarses orgásmicas sem medo. O prazer do cliente virá pelo domínio que elas possuem do próprio prazer.

Rubia (Pietra Souza) em Sabes de mim, agora esqueça (Imagem: divulgação)

A relação cliente-prostituta ou homem-mulher também traz reflexos na representação da distopia. Os homens naquele contexto (ou em todo, quando se é mulher) representam o risco maior. O mistério que reside no título dá pistas da resolução que Margô, a prostituta-mãe, encontrou para mantê-las protegidas. No mais, a atmosfera distópica e da construção, por Denise Vieira, de um sci-fi tipicamente brasileiro e notoriamente inspirado por John Carpenter, é composta de elementos incorporados em seus trabalhos anteriores como diretora de arte em Mato seco em chamas (Adirley Queirós e Joana Pimenta) e Branco sai, preto fica (Adirley Queirós), revelando um domínio de espaço que é soberbo para que, com sutileza e sem a atração de grandes holofotes para si, fique claro estarmos diante de um cenário social colapsado.

Sabes de mim, agora esqueça é dotado da notável capacidade de produzir catarses em forma de imagem, sequências de êxtase visual e sensorial que muitos tentam e poucos conseguem alcançar. Certamente o maior momento cinematográfico da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, onde ele foi exibido em competição na Mostra Aurora, mora no longa de Denise Vieira, na hipnótica passagem onde somos levados ao quarto de cada uma das profissionais daquele microcosmo, e todas estão transando, transcendendo ao estado do gozo com seus clientes, enquanto no místico corredor do prostíbulo, um deles se expressa com o corpo através da dança. As ações simultâneas e o estado de entorpecimento das personagens nos envolve para muito além do fato de estamos diante do sexo, mas também pela naturalidade de sua condução e pela entrega à arte que através dele é representada. Em um mundo onde a arte, instrumento de luta contra o conservadorismo, precisa com ele lidar batendo à sua porta através de espectadores que não se recusam a assistir cenas de sexo no cinema, que a mais profunda experiência fílmica seja provocada pelo erotismo é de importância imensurável.

Há de se dizer que o principal elemento para a catarse desse cinema feminino é a forte presença dos corpos das atrizes, que impõem olhares e expressões como se afirmando os lugares de suas personagens no mundo de forma definitiva. Prostitutas têm direito ao prazer, o direito de sonhar – e é surreal que isso precise ser afirmado. Vistas como destruidoras de casais e famílias, em Sabes de mim, agora esqueça são elas que as constroem. Não é à toa que a lanterna moral que tenta dizer o contrário é apontada para nós.

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