Numa discussão que evocou memória e ancestralidade, o encontro com o elenco e a direção de Se eu fosse vivo… vivia, novo filme de André Novais de Oliveira que estreou na Mostra Panorama da 76ª edição da Berlinale, consolidou um cinema que se constrói no significado afetuoso das singelezas da vida. Entrevistamos o diretor juntamente com os atores Jean Paulo Campos e Tainá Evaristo, uma conversa que partiu da força sensorial e nostálgica do prólogo do filme para chegar ao coração de um método que transforma gestos cotidianos em narrativa cinematográfica.
Se eu fosse vivo… vivia se inicia na década de 70, com uma serenata de amor, do personagem de Gilberto (Jean Paulo Campos) e Jacira (Tainá Evaristo), e nos leva até a contemporaneidade: 50 anos depois, o casal, nessa fase vivido por Norberto Novais Oliveira e Conceição Evaristo, a escritora fazendo sua estreia nos cinemas, segue unido, experienciando os desafios da idade.
Confira os detalhes desse bate-papo:
Natália Bocanera: André, você atravessa o filme com uma energia contagiante absurda no prólogo do filme. Você traz a vibe dos anos 70, representada nos figurinos, na atmosfera, naquele brilho todo e Tim Maia no auge. Já que estamos com representantes de várias gerações aqui, eu queria entender como essa época, que não foi vivida, experienciada por vocês, se conecta com cada um através do filme?
André Novais: Tem é tem um amigo meu que fala que eu sou uma pessoa muito analógica. Essa época dos anos 70, não só em termos de música, mas uma uma época que eu queria ter vivido mesmo. Então, essa coisa de disco de vinil, da sonoridade das músicas, me chamam muita atenção e parte disso vem do meu pai. Essas músicas que estão no filme eram músicas que ele escutava bastante. Então, para mim funciona muito como a época que eu queria ter vivido. É uma época que acho que mistura a lembrança do personagem do Gilberto, e mistura também as coisas que eu acho que poderiam acontecer naquela época. Não é bem um flashback dentro do filme, mas sim como o Gilberto lembrava daquele momento, do momento deles se conhecerem, ele e a Jacira. Mas é um momento muito importante. Junto com o final do prólogo tem toda essa coisa misteriosa, mas tem também a forma como ele lembra disso tudo.
Natália Bocanera: Para vocês, Jean Paulo e Tainá, que também não são dessa geração, como vocês sentiram e se conectaram com tudo isso?
Jean Paulo Campos: A gente se conecta muito porque é muito perto da nossa realidade. Nossos avós, nossos pais sempre comentaram dessa época e sempre colocaram as músicas para a gente escutar, então, já é uma coisa bem corriqueira. A gente vê as roupas, a calça boca de sino. Então, pra gente foi muito legal poder viver essa época que, por mais que seja muito longe em termos de tempo, não é tão longe em termos de vivência.
Então, foi muito legal fazer a cena do baile, foi muito legal cantar o Tim Maia ali. Sentia que estava representando muito, não só o Gilberto, mas também a minha família.
Tainá Evaristo: A gente traz um pouquinho da nossa vivência para dentro desse momento, que foi um momento de comunhão. Esse baile foi espiritual naquele momento. Algo que a gente reparou e trocou ideia sobre, foi o fato de nos olharmos no olho e cumprimentar, como se a gente se conhecesse. Isso não foi pedido, nem foi ensaiado. Aconteceu. Parece que estava todo mundo numa mesma sinergia. Fora essa questão do passinho da tia que ela ensina até hoje pros mais novos da família, tem as roupas que a gente só ouvia falar, foi a minha primeira vez usando de fato uma calça boca de sino. Foi muito legal.
Natália Bocanera: A primeira coisa que eu fiz depois de assistir o filme foi mandar uma mensagem pro meu pai e falar: ‘Esse é um filme que você vai precisar ver’, porque ele sempre falou dos bailes black e é muito gostoso de assistir. André, eu acho que teu cinema, em geral, se foca muito em ações cotidianas. Coisas rotineiras, como caminhar, conversar, tomar um café, têm um significado muito forte. Qual é a dificuldade de trabalhar essas sutilezas, de dar significado ao pequeno, tanto como diretor e para vocês, como atores?
André Novais: Para mim acho que nem uma questão de ser difícil. É que eu gosto muito mesmo de observar o dia a dia. Mas também não digo que é fácil. Eu acho que é uma coisa de retratar que é divertida para mim, são coisas que realmente eu valorizo na vida. Costumo falar que dentro da casa dos meus pais tem uma questão do tempo que perpassa a casa. O quintal, tinha durante muito tempo uma planta que cresceu dentro de uma gaiola. Então, essas observações representam muito mais do que determinados elementos de roteiro: um gesto, um jeito de falar, que para mim representam muito mais.

Natália Bocanera: Para vocês, Jean Paulo e Tainá, é mais difícil?
Jean Paulo: Olha, confesso que para mim foi um pouquinho difícil, principalmente que eu estava simultaneamente em outro projeto que era para linguagem de TV, e a linguagem da Filmes de Plástico e do André é totalmente diferente. No primeiro momento realmente foi um baque. Já tinha assistido outros projetos, mas estar ali atuando de fato é outra parada. Mas eu senti que ao longo do processo acabou se tornando natural, pelo convívio com as pessoas que já estavam acostumadas com aquele meio e pelo convívio com o André, pelo convívio com a Tainá, pelo convívio com Demétrio e a Suelen que fizeram meus pais, com o Sr. Norberto, tudo acabou ficando bem tranquilo, eu acabei sendo só mais uma engrenagem nessa máquina tão bonita.
Tainá Evaristo: Quando a gente foi gravar, eles já tinham gravado o filme inteiro, então já estava tudo funcionando tão bem, todo mundo na mesma energia que entrar no mesmo ritmo não foi um uma questão. Acredito que passa um pouco pelo lugar da mineiridade, é esse “fazer ser bom para todo mundo que está”. Inclusive, sobre a direção do André, foi minha primeira experiência na frente da câmera, e a direção do André é muito tranquila, ela te faz sentir bem. É bom trabalhar com o André.
Natália Bocanera: E você trouxe Conceição Evaristo para atuar pela primeira vez. Já era um desejo trabalhar com ela, é um desejo que ela expressou, como você chegou até ela?
André Novais: Sempre foi uma admiração imensa acompanhar a carreira dela. Eu lembro de uma coisa que me marcou, muito tempo atrás, quando teve a ocupação Conceição Evaristo no Itaú Cultural. Eu fiquei vendo os vídeos e muito admirado. Ela falou um negócio muito bonito. Ela e a família moravam em uma favela muito famosa lá em BH, e ela colocando a mão na grade de um lote, diz que provavelmente o umbigo dela e dos irmãos estavam enterrados aqui. Isso me marcou muito. Além disso, eu li os livros dela. Veio o levantamento de nomes, e o Maurílio, que é o produtor, teve a ideia de chamar e bateu um clique: “É ela mesmo”. Veio o convite, que ela aceitou de uma forma muito bonita,falou que aceitava porque adora desafios. Trabalhar com ela no set foi um aprendizado. Mesmo não tendo experiência com cinema, trouxe uma curiosidade imensa de trabalhar, de entender, de aprender. Foi muito divertido ver o humor dela, algo que a gente foi entendendo aos poucos. No primeiro almoço a gente ficou meio tenso, meio cheio de dedos. Eu lembro de uma coisa muito divertida, eu perguntei para ela no primeiro almoço: “Dona Conceição, a senhora toma cachaça?” ela falou assim: “Isso é pergunta para uma senhora dessa idade?”. E ela riu, então eu falei: “Me dá duas cachaças”.


Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).



