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Feito Pipa

Classificado como 3 de 5

Feito Pipa

2026

93 min

Classificado como 3 de 5

Diretor: Allan Deberton

A ideia do encontro de extremos carrega consigo uma suposição de choque e embate. Não é diferente com a intersecção geracional que faz presumir, numa análise generalizada, que quanto maior a distância de idade entre pessoas, mais desafiadoras as diferenças, obviamente porque os contextos sociais, educacionais e políticos são mutáveis e interferem no modo de vida de cada um de nós. Feito Pipa, filme do cearense Allan Deberton que foi exibido na Mostra Generation Kplus da 76ª Berlinale e recebeu o Grand Prix do Júri Internacional de Melhor Filme e também o Urso de Cristal concedido pelo Júri Jovem, vem demonstrar que a discrepância geracional pode fazer o exato oposto, formando relações sólidas o bastante para respeitarem e permitirem a existência do outro em sua plenitude. 

O choque em Feito Pipa limita-se à idade e ao tempo de vida que já passou. Gugu (Yuri Gomes) tem quase doze anos e sua avó Dilma (Teca Pereira) é uma mulher idosa que soma prováveis 70 anos ou mais. Essas duas figuras nunca se repelem, mas se complementam ao ponto de emanarem juntas uma luz tão forte que tudo que queremos é não desviar o olhar dessas existências – coloridas e vibrantes. O mundo, a violência da sociedade e a vida, entretanto, trilham caminhos e pregam peças que perturbam essa liberdade. Tal qual o reservatório (ficcional) de Araújo Lima, situado na comunidade em que vivem os personagens, que começa a secar para revelar o passado de uma cidade submersa, interferências opressoras e inevitáveis que querem drenar a energia livre do menino e sua avó trazem à tona a necessidade de uma reformulação dolorosa dessa configuração familiar tão harmônica.

Deberton faz de Dilma e Gugu personagens fascinantes. Teca Pereira empresta à Dilma seu corpo leve, expressivo e dançante para nos presentear com uma avó reluzente em sua maquiagem e suas roupas coloridas, que arrasa corações no forró, que manda nudes, que gosta de beijar, e que mesmo quando percebe que seu corpo e mente estão dessintonizados, é teimosa e não perde seu charme. Gugu é fruto da criação da avó. Órfão de mãe, com a avó sua personalidade é aquilo que ele quer que seja: um menino queer que sonha em ser jogador de futebol, e que como a avó, ama dançar e vestir-se de cores das mais variadas, pintar o rosto e as unhas. Se com Dilma, Gugu é livre para existir, seu pai, Batista (Lázaro Ramos) é um homem que, muito embora diga amar seu filho, é conservador e homofóbico, e inserido em outro contexto familiar tradicional (tem outra filha e sua esposa está grávida), orgulha-se de seu mais velho apenas no que se refere ao seu potencial esportivo.

Lázaro Ramos e Yuri Gomes em Feito Pipa (Imagem: divulgação)

Feito Pipa é habilidoso na construção de ambientes e atmosferas que refletem o estado de espírito de seus personagens. A casa da avó é repleta de cores que se perdem conforme avança a condição que retira de Dilma, progressivamente, seu encanto e seu pulsar. Gugu transita da alegria para a tristeza num piscar de olhos, na medida em que vai percebendo que a avó, sua grande paixão, já não é mais a mesma, assumindo, como criança, uma carga familiar que sequer deveria ser sua. Amparados um no outro, ambos perdem juntos suas fortalezas como consequência da operação daquilo que os oprime – no caso dela, a doença, no caso dele, a homofobia.

Muito embora a carga atribuída ao personagem de Lázaro Ramos busque transparecer a complexidade de tantas famílias, principalmente brasileiras, que são, ao mesmo tempo, afetuosas e preconceituosas, percebe-se que Feito Pipa hesita em assumir um maniqueísmo e transformar esse pai em vilão. Tanto é assim que não resolve, totalmente, a relação entre ele e Gugu – e talvez essas relações jamais se resolvam, de fato. Gugu é uma criança preta, nordestina, pobre, efeminada e queer, portanto, um corpo que carrega marcas sociais que determinam como é lido pelo mundo. Aos doze anos, ele já experimenta a violência moral e opressora do pai e dos colegas, e a dissipação do sopro de vida proporcionado pelo vínculo nutrido com a avó é perversa. 

Em Feito Pipa, não há ocultação do sofrimento, o que é coerente com o realismo que ele busca. No que diz respeito à própria progressão da doença de Dilma, a percepção transmitida ao espectador é a de que tudo acontece do dia para a noite, já que a inversão do papel do dever de cuidado, que era da avó para o neto e passa a ser do neto para a avó, é repentina. Parece não haver redenção para Gugu, pois doloroso acompanhar a gradativa perda de seu brilho (e o da avó, cuja luz sentimos falta no filme) e seu endurecimento diante de todas as prisões que a vida lhe impôs. O que lhe resta é a raiva, crescente a cada passo, e a memória fabular de uma vida mais gentil com a avó. 

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1 comentário em “Feito Pipa”

  1. Geraldo Mota Valintim

    Encantador esse filme, quanto à represa que emerge uma cidade é real inclusive o filme cita o local e a barragem no mesmo local da filmagem. Estou ansioso para ver essa película.

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