O Irã e a suspensão de descrença
É compreensível que o cinema iraniano tenha eleito a mulher como a protagonista de obras que exploram o papel de desvantagem dela dentro do sistema político religioso teocrático e patriarcal. É também compreensível que o tempo tenha permitido a estas obras complexificarem o papel da mulher, além da empatia através da vitimização; e é dentro de um panorama de relações humanas e sociais ainda injustas e desiguais, mas menos maniqueístas que o diretor e roteirista Saeed Roustayi (do elogiado Os irmãos de Leila) apresentou Woman and Child. Um melodrama familiar e institucional valorizado pela interpretação multifacetada de Parinaz Izadyar, embora rebaixado por um roteiro desastroso, que desconhece o conceito de suspensão de descrença.
Na trama, Mahnaz, uma enfermeira viúva e mãe de dois filhos, o rebelde Aliyar e a doce Neda, organiza o casamento com o motorista da ambulância do hospital onde trabalha, o charmoso Hamid (Payman Maadi, de A Separação). Apesar de autorizada pelo islã a se casar novamente, Mahnaz enfrenta a desaprovação da mãe (Fereshteh Sadre Orafaee), embora não tenha encontrado a coragem para contar a Aliyar. É por essa razão que envia os filhos, concomitante à cerimônia matrimonial, para passar o final de semana com seu sogro (Hassan Pourshirazi), só que acidentes acontecem. A troca de olhares entre Hamid e Mehri (Soha Niasti), irmã caçula de Mahnaz, já seria suficiente para atrapalhar a união, uma situação agravada profundamente depois de uma fatalidade. A vida de Mahnaz transforma-se, do jaleco branco às vestes pretas.
Roustayi trabalha habilmente os espaços apertados do apartamento, ou dos cômodos onde os personagens estão, de forma que podemos enxergar, nos contornos, as linhas que separam os personagens ou os destacam dentro da imagem (lembra aquele vídeo popular de Parasita, no qual vemos como Bong Joon-ho separa as classes sociais com uma acuidade admirável? É disto que estou falando). Os objetos cênicos também são utilizados como os elementos da encenação, e não é incomum que os espelhos sejam alternativas para a troca de diálogos e farpas entre os personagens, com um ou outro inferiorizado na imagem refletida. O espaço não limita a direção, mas sim prestigia a encenação dramática e evocativa: em certa cena, Mahnaz e Mehri estão enquadradas embaixo do umbral das portas de seus quartos, e não só a beleza da composição, mas seu significado acentuam o drama por que passam.

Se for me limitar à forma, de fato, Woman and Child é um filme que me manteve bem envolvido: o avô e a tia aparecem com as mães sujas de sangue e, rapidamente, o que parecia ser um procedimento de emergência, apesar de rotineiro, transforma-se em um gatilho de ansiedade acentuado pela maneira com que a direção utiliza todos os elementos cênicos à sua disposição: a pressa dos médicos e enfermeiros, a edição de som, o conhecimento de causa da personagem que acentua a angústia. De fato, é um filme formalmente marcante com, repito, um roteiro desastroso: é até compreensível buscar respostas em processo praticamente investigativo, com o espírito Rashomon, responsabilizar terceiros, ou negociar a culpa de lá para cá para tentar sentir-se bem consigo. E, apesar de não ser correto terceirizar à vítima a culpa, de novo, é ‘humano’ que alguns o façam, então não há nada de inédito aí.
O roteiro não é desastroso aí, mas em um momento em que a bola de neve de eventos acaba fazendo-nos encarar para trás e atuar com juízes e algozes de Mahnaz: às vezes, chegamos a culpá-la por desconhecer o filho que tem, ou por ter ousado em enxergar-se mulher, e não apenas uma mãe. Certamente, Mahnaz sente-se assim, aprisionada e condenada por ela mesma, além de pelos outros, inclusive nós e, chego a desconfiar, o diretor. A partir daí, a lógica interna dos acontecimento e dos personagens e a relação causal, tão cara para o cinema narrativo, são atiradas embaixo do caminhão, e nós mal sabemos se o filme é sobre o casamento azedado por Hamid preterir uma mãe e viúva pela irmã caçula e virgem, ou se é sobre a culpa e perda, ou até as consequências mais e mais imprevisíveis, administrativas, judiciais e humanas. Até não me surpreenderia acaso descobrisse tratar-se de uma história, tão convoluto é o roteiro.
Até porque não é a quantidade de eventos, é como o roteiro salta de um para o outro, com um desmazelo em se tratando de construção e desenvolvimento de personagens. Em certo momento, o divórcio é debatido, e a personagem está posicionada atrás de grades cinematográficas, expressas na iluminação. Formalmente, a imagem reforça o tema, embora seja irrelevante dentro de uma relação de causa e efeito. No fim, talvez fosse o que a direção procurou: o retrato da sociedade iraniana desprovida de lógica e sentido, se você for mulher, embora eu tenha terminado me perguntando como a obra saiu dos temas inicialmente apresentando até o momento em que Mahnaz comete um ato criminoso, por mais que este crie uma rima ironicamente poética.
“Você consegue o que quiser, mesmo quando está errada”, fala Hamid para Mahnaz, no que também pode ser aplicado à direção que tenta conseguir o que quer ainda que por vias frustrantes.
Woman and Child, ou Zan o Bacheh, está na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.
