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Politiktok

Classificado como 2.5 de 5

Politiktok

2026

112 min

Classificado como 2.5 de 5

Diretor: Álvaro Andrade Alves

Não são mais questionáveis os malefícios que o excesso de tempo de tela causa em nossa saúde. O uso contínuo de redes sociais aumenta a ansiedade e o estresse, causa alteração de humor e déficit de atenção, uma vez que vicia o cérebro em estímulos imediatos. Além dos danos à saúde mental, fisicamente também há prejuízos: fadiga ocular, má postura, dores no pescoço, ombros e costas, e comprometimento do sono em razão das dificuldades de produção de melatonina causada pela luz azul, são apenas alguns dos exemplos de um rol imenso de repercussões negativas causadas pelo abuso da exposição aos dispositivos digitais.

Entretanto, não é absurdo dizer que tal adoecimento não se limita ao indivíduo. Vivemos uma era de enfermidade coletiva ocasionada pelos mesmos motivos. Principalmente a ansiedade e o estresse tornaram-se generalizados, e os efeitos dessa coletivização são políticos e sociais. A dependência de likes e números é endossada pela remuneração oferecida pelas grandes corporações por trás das redes sociais, estimulando que qualquer pessoa online intitule-se especialista sobre qualquer assunto, emitindo opiniões pessoais como verdades absolutas, desestimulando o diálogo e tornando absolutamente rápida a disseminação de desinformação, fake news e do discurso de ódio. 

Politiktok, documentário baiano dirigido por Álvaro Andrade Alves, retrata o adoecimento populacional acarretado pela saturação do manuseio das redes sociais, especificamente, do TikTok, e seus reflexos políticos, com ênfase na eleição presidencial de 2022, marcada pela polarização e pelo pensamento irredutível de uma extrema-direita antidemocrática e golpista. O diretor adentra as profundezas da rede de vídeos e registra, através da gravação da tela de dois celulares Iphone, a movimentação de perfil de personalidades, famosas ou não, em lives, performances, reações e comentários diante do cenário eleitoral, antes e após o resultado das urnas. Além de registrar o que foi gravado, a tela cinematográfica é dividida entre o conteúdo da plataforma e um letreiro que traduz para o inglês aquilo que é dito na gravação – uma evidência de que a obra é direcionada ao público estrangeiro.

Aliás, essa é uma das provas da diretriz de público de Politiktok, que colaciona outras mais. O filme quer evidenciar um panorama que nós, brasileiros, já conhecemos bem e estamos esgotados porque colhemos seus frutos amargamente ante a tentativa de golpe de 08 de janeiro de 2023. A proximidade de novas eleições presidenciais, que ocorrerão em outubro do presente ano, torna o documentário temporalmente descompassado. Tudo que ele registra é recente, fresco em nossas memórias, e muito do cenário já sofreu mudanças. Por exemplo, ao mostrar-nos os conteúdos gerados pelos perfis selecionados no dia imediatamente anterior às eleições, assistimos lives que discutem as ameaças com arma de fogo proferidas pela deputada Carla Zambelli contra um cidadão em São Paulo, mostrada sob vários pontos de vista e com opiniões de todos os lados. Zambelli foi presa pelo crime que cometeu e está cumprindo pena. Muito embora seja importante lembrar de alguns fatos como preservação de uma memória coletiva necessária ao aprendizado, para que atrocidades não se repitam, não há atualização imediata sobre as consequências criminais do que ali ocorreu. A sensação é que estamos assistindo mais do mesmo, algo ultrapassado que é reproduzido sem que haja uma elaboração a respeito, com a diferença de que acompanhamos o fato com a companhia de figuras bizarras que distribuem desinformação online e ao vivo. 

Para aqueles que desconhecem o funcionamento da plataforma (como essa que vos escreve), Politiktok confirma que o melhor é manter a distância e preservar o pouco de saúde mental ainda não comprometido pelas redes. Muito embora o TikTok mostre-se fonte ou complemento de renda para muitas pessoas, e esse fato, cuja abordagem social é interessante, é apenas pincelado pelo filme, integrando o contexto político que ele pretende formar de modo um pouco desconexo, é certo que o seu modus operandi fundamentado na agilidade, no rolamento de vídeos e no incentivo de conteúdo absolutamente vazios e de origem notoriamente duvidosa, constrói um antro potencialmente perigoso para a circulação de (des)informações. 

Politiktok é, portanto, uma colagem debochada de conteúdos extraídos de uma rede social de vídeos poluída, que contamina uma população já cronicamente adoecida por seus efeitos, e reflete as multifacetas de um povo que se encontra online para realizar infinitas leituras sobre o mesmo fato, ainda que este não comporte uma variedade de interpretações. Ali, cada um encontra sua verdade e há espaço para disseminá-la, de modo que não há mais verdade alguma. O filme é assertivo ao demonstrar a dinâmica tóxica do TikTok e apresentá-la àqueles que não a conhecem, e traça um panorama político das eleições de 2022 sob o ponto de vista de um povo adoecido. É certo, entretanto, que Andrade Alves tem dificuldades de filtrar os conteúdos que deseja mostrar, e o recorte histórico torna-se uma repetição de personagens, revivendo fatos políticos recentes demais. Fica a sensação de tratar-se de um conteúdo para o espectador estrangeiro, faltando-lhe o conteúdo crítico necessário para que se torne um documento. 

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