A luta de classe em animação
Death Does Not Exist reflete acerca da cadeia alimentar aplicada ao sistema capitalista, em que muitas presas são oprimidas e marginalizadas por poucos predadores, em um ciclo perpétuo de violência que se estende por gerações. O ativismo, que no roteiro de Félix Dufour-Laperrière, tem o contorno de revolução e luta armada, é a maneira com que o grupo de que participa Hélène decide investir contra um proprietário que ainda atenta contra a natureza e o meio ambiente ao redor. Mas Hélène, no momento chave, congela e foge em direção à floresta, deixando seus companheiros à própria sorte. A animação dirigida por Laperrière convida Hélène a refletir sobre essa decisão e, neste processo, também nós somos convidados a refletir, o que fazemos desde a cena inicial, uma sequência de aquarelas, na qual o incêndio florestal (o vermelha) devora a floresta (o verde) ao redor. Logo depois, a imagem de um lobo dourado, mostrando os dentes, e a imagem de uma pessoa inferiorizada diante da besta, estátuas representativas de um mundo binário, no qual predadores e presas – melhor dizendo, caçadores e caças – não é capaz de encontrar um ponto médio de convivência harmônica como ocorre no meio natural.
Para Laperrière, os empregados responsáveis por cuidar dos jardins, que emolduram o entorno das estátuas douradas na propriedade, têm a mesma cor da folhagem: o verde. Podem estar camuflados, talvez, mas sinto que essa decisão tem a potência acentuada quando pensamos que os trabalhadores estão invisibilizados dentro do ecossistema de trabalho. Se mal podemos discerni-los do objeto de seu trabalho, como reclamar a sua humanidade? Essa camuflagem narrativa aplica-se também aos jovens revolucionários, que travam a luta de classe e do trabalhador, com cores modificadas, de acordo com o cenário em que estão, ou horário de dia (à noite, por exemplo, a animação conserva só os contornos do rosto e dos olhares, que revelam vida e combatitividade). Em sua fuga, Hélène retorna ao lar, em flashback ou alucinação, e seus pais parecem estão inscritos nas paredes da casa: são partes daquela realidade, daquele passado do qual não podem escapar, prisioneiros da sociedade e inábeis de encontrar uma emancipação. O irônico é que o papel de parede do lar destaca as flores vermelhas: a falta de cor não é método, nem traço estilístico, é porque os trabalhadores não têm como lutar para conquistá-la.

Em um cenário igual a esse, é justificável a ação violenta a fim de restituir, não para si, necessariamente, mas para as gerações futuras a dignidade roubada por quem detém o poder da alcateia? Na natureza, ninguém questiona a ação do predador nem a eventual reação da presa, mas e no mundo dos homens, em que a redação das leis é atribuída ao povo, que elege os representantes, mas na realidade é feita por quem detém o poder? Laperrière não responde, mas tampouco condena Manon, que ‘assombra’ Hélène por ter fugido em direção a um purgatório ambientado em uma versão do jardim do éden. O que Laperrière parece fazer é demolir o ideal romântico: Hélène participa do grupo por amor a Marc, e não por convicção nos ideais que defendem. Já a proprietária, uma mulher idosa e que se locomove através de uma cadeira de rodas, coloca por terra este mesmo ideal.
Não há romantismo na natureza, as coisas são como são. Ninguém lamentará a morte da presa. Na natureza humana, o romantismo é bonito, poético, até edificante, porém só a ação é de fato transformadora, mesmo que os seus resultados sejam condenáveis, ou ao menos questionáveis. A forma da animação incorpora a ação no movimento, ao proporcionar a sensação de que não são apenas os personagens que caminham dentro do quadro animado, mas de que o quadro propriamente dito também caminha. Eu tive a sensação de vertigem em muitos momentos, quando Hélène (ou a ovelha, com a qual está relacionada) corre em direção ao espectador, fugindo, e a floresta ao redor apenas parece tornar-se mais vasta e inescapável. O ataque armado à propriedade tem o efeito semelhante: os personagens até se movimentam no quadro estático, mas este também deixa de sê-lo, rejeita o imobilismo, porque a ação ou inação humana provoca reações no meio em que está.
Essas reações estendem-se ao meio que comunica a ideia, à arte, à animação, em que a imagem consumida deixa-nos bastante cientes do que iremos colher, com o que temos semeado ao longo da história através de ações e omissões. Laperrière não é romântico, é pragmático e decerto Death Does Not Exist não pinta um amanhã reconfortante para quem assiste.
Death Does Not Exist integra a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2025.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



