O resultado das ações militares no Rio de Janeiro
Garantia de Lei e Ordem e Intervenção Federal foram instrumentos legais e militares conhecidos do brasileiro, mas sobretudo do carioca, com a finalidade de “pacificar” as favelas e os complexos de favelas. “Pacificar” para quem? Para quem enxerga apenas números e estatísticas ou conhece a reputação do Rio de Janeiro como uma cidade violenta – ou é apenas conivente e preconceituoso – , essas medidas fingem proteger o “cidadão do bem”, aquela ficção criada pelos chamados “cidadãos do bem”, da ameaça simbolizada pelo crime, enquanto fenômeno associado às favelas. Nada de bom adveio dessas medidas, que movimentaram cerca de 2.200 homens, tanques, jipes e armas de fogo aos bairros onde famílias tentam ou tentavam viver dia após dia, e como Cheiro de Diesel mostra bem, por trás de estatísticas, havia vidas e sonhos; por trás de decretos, o terrorismo estatal e a necropolítica; e os resultados, longe de diminuir a criminalidade, somente fortaleceram o crime organizado, as milícias e o capital político de quem lucra direta ou indiretamente com isto.
Dirigido por Natasha Neri (de Auto de Resistência, um documentário obrigatório) e Gizele Martins, Cheiro de Diesel é um documentário enxuto, mas eficaz em revelar a luta diária dos moradores da Favela da Maré ou dos Complexos da Penha e do Alemão e o trabalho de Gizele, que noticia, de dentro das comunidades, a realidade que os jornais comerciais não mostram. Enquanto o jornalismo denominado hegemônico aposta em manchetes sensacionalistas, números graúdos e gráficos e powerpoints para inflamar a sensibilidade e o inconformismo de um público-alvo que se preocupa apenas até o momento em que falamos que a criminalidade é enfrentada com educação e direitos humanos e sociais, o de Natasha e Gizele é pautado na humanidade. Esta humanidade traduz-se em dar a voz às vítimas sobreviventes e às famílias que perderam entes queridos pela violência estatal, e além da escuta ativa, há também uma “imagem ativa”.

Vítor Santiago ficou paraplégico e teve uma perna amputada durante a operação na Favela da Maré; ele não é uma estatística, embora a integre, mas uma vida que mudou após o acidente/crime. Natasha e Gizele exibem, então, a dificuldade dele de se deslocar no corredor do apartamento estreito onde mora. Este é o elemento humano. Não é a imagem apenas, não é o número, mas é a vida humana. É por isto também que as marcas dos disparos nas casas e nos empreendimentos são imagens de interesse da direção, porque ali está a metáfora de vidas e sonhos, cujos atores sociais precisaram ser anonimizados, em razão da ansiedade ou insegurança da perpetuação da violência. Um medo que também penetra por entre as brechas da coragem de Gizele, firme, inabalável, mas humana no fim das contas.
Esta humanidade não é limitada às vítimas, apesar de poder ser. Mesmo os agressores (ou “agressores”, para não colocar todos no mesmo saco) são tratados com a humanidade que negam aos moradores das favelas/comunidades. O plano detalhe dos coturnos ou da aliança na mão do soldado e o close nos rostos pintados revelam a ainda juventude ou inexperiência de homens e mulheres convocados a patrulhar áreas urbanas como se estivessem em uma zona de guerra. Para estes soldados, os moradores são inimigos e não pessoas, ou assim foram doutrinados a pensar pelo poder dominante. Mesmo assim, a dupla de diretoras jamais os desumaniza, embora não sejam ingênuas em desprezar o armamento que carregam consigo.

Além do mais, Cheiro de Diesel é um trabalho que convida a conhecer o trabalho de comunicadora ou jornalista de favela. Um trabalho que, dadas as devidas proporções, não é muito diferente do correspondente em zonas de guerra. Gizele colocou a vida sob ameaça para noticiar o cotidiano durante a ocupação. E não apenas Gizele, mas Natasha, que mesmo de fora daquela realidade, representando um olhar externo àquela realidade, também se expõe ao participar diretamente do projeto. O resultado disto é a dupla camada: é o jornalismo durante a ação, imediato, urgente e visceral, o registro imagético e audiovisual durante a ocupação; é o jornalismo sob fatos pretéritos, que reflete com frieza e racionalidade as consequências e, especialmente, a perpetuação da violência, desta vez no âmbito jurídico. Há até uma terceira camada, a que apela à nossa memória, em um diálogo individual entre o jornalismo comercial e o jornalismo independente.
O resultado que permanece é agridoce. Há uma esperança de que a informação possa conscientizar os espectadores, dar rosto a números e suor ao jornalismo, e, talvez assim, modificar o panorama social. Mas é uma esperança mediada pela amarga realidade da injustiça perpetrada pelo Estado nos anos subsequentes, pela presença física (e também psicológica) de forças militares no território e pela desesperança de que a voz e humanidade de Gizele e Natasha não sejam altas o bastante para se fazerem escutar do alto da favela. Este tipo de desesperança característico de uma democracia que, há mais de 40 anos, muitos ainda não vivem. Uma falsa democracia em que a voz do jornalismo é maior quanto maior for a sua corporação. Uma em que a voz de um empresário fala mais alto do que a de uma mãe de família que perdeu o seu filho. Uma em que, às vezes, a voz é silenciada pela arma de quem deveria proteger.
E não matar.
Cheiro de Diesel estreia quinta-feira nos cinemas brasileiros. Em breve, no meu canal do YouTube, a minha entrevista com Gizele Martins e Natasha Neri.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

