Mais de uma década e três olhares à Guerra na Ucrânia
Crítica em português
Em Mariinka, o diretor Pieter-Jan De Pue desobriga-se de explicar a guerra para senti-la, o que diferencia o documentário de abertura do CPH:DOX de um conjunto de documentários sobre a invasão da Rússia no leste da Ucrânia e o conflito que já custou milhares de vidas. O documentário, filmado ao longo de uma década praticamente e fotografado em 16mm, o que lhe confere uma aparência particularmente atraente como um álbum de memórias, constrói-se como o mosaico de existências atravessadas pela guerra e como uma tentativa, que nem sempre é inteiramente bem-sucedida, de enunciar cinematograficamente essas existências e experiências.
A proposta é clara: três personagens, três trajetórias e três formas de relação com o conflito. Natasha, pugilista amadora agora trabalha como médica voluntária, transformando a dor de ter perdido os seus e a sua cidade em ação concreta. Daniil, adotado ainda bebê por uma família estadunidense e rebatizado com o nome bíblico Samuel, observa à distância a guerra ou interage com esta através de telas, enquanto tenta relacionar a sua herança ucraniana ao desejo de entrar no exército e trilhar os passos dos irmãos Ruslam, Maksim e Mark. Finalmente, Angela, que também perdeu os pais na infância, é uma figura liminar, que transita por entre as fissuras do território marcado pela guerra, contrabandeando bens e mercadorias, negociando riscos à própria vida para sobreviver.
Há aqui uma leitura conceitual interessante sobre os pontos de vista possíveis de um conflito: Natasha permanece, e auxilia da forma como pode auxiliar; Samuel partiu, antes mesmo de poder consentir, agora deseja retornar, contra as orientações dos pais adotivos ou dos irmãos com os quais se corresponde por videochamadas; e Angela atravessa a zona em conflito e empreende dentro dos limites e possibilidades que existem. No entanto, ao dividir sua narrativa entre essas três subtramas, o filme inevitavelmente dilui a potência individual de cada uma delas. Falta tempo, não coragem, para mergulhar mais fundo em qualquer dessas histórias. O que vemos são fragmentos que, embora riquíssimos em potencial dramático diante das dores e traumas por que os personagens passam/passaram, raramente alcançam a densidade que sugerem.

Paradoxalmente, é quando Mariinka abandona qualquer pretensão explicativa ou jornalística, ou mesmo de estudo de personagem, que ele encontra a sua melhor forma. Em momentos como o de Natasha pendurada com a cabeça para fora do carro, deixando o vento tocar o seu rosto em meio ao caos, o documentário atinge algo sublime: uma suspensão poética, que nos coloca diante de um estado mental e espiritual que remete a explorações mais sofisticadas do gênero, e aqui recordo Vá e Veja ou Além da Linha Vermelha. A guerra se dissipa, e só existem os resíduos dela nas subjetividades de seus homens e mulheres.
Essa inclinação se reforça nas escolhas de montagem que flertam com algo abstrato e experimental, em um esforço de capturar imagens e elaborar sequências menos convencionais, que tensionam o realismo típico do gênero e exploram o potencial da fotografia de 16mm. São nesses momentos que o filme documenta ainda melhor o conflito, porque explora a paisagem, sensibilidade e experiência humana, não o que já sabemos e conhecemos sobre o poder destrutivo de armas bélicas ou de cidades arrasadas. Aí, quando observamos as montanhas e paisagens naturais à distância e comparamos com os escombros da cidade de Mariinka, podemos observar a perenidade do natural em comparação com o humano. E a própria insignificância do indivíduo em um campo de guerra.
Em contrapartida, quando a direção tenta formular uma tese, o filme se enfraquece, ao menos parece-me ingênuo. A associação entre a guerra contemporânea, mediada por drones e tecnologias que distanciam os combatentes do combate, e os videogames jogados por Samuel nos Estados Unidos é apenas um gesto cinematográfico de sublinhar algo que parece óbvio e essencial para que continuemos matando uns aos outros: a desumanização proveniente da distância e que coloca, até mesmo irmãos, em lados opostos. A analogia está ali, mas carece da mesma sutileza que o filme demonstra em seus melhores instantes.
No fim, Mariinka oferece aquilo que muitos documentários de guerra acabam inevitavelmente oferecendo: a constatação de que a guerra destrói cidades, corpos, vínculos de sangue e sentidos. As imagens aéreas da cidade devastada, os esqueletos de prédios, os homens nas trincheiras tentando sobreviver ao absurdo cotidiano, enquanto drones despejam bombas, tudo isso compõe um imaginário reconhecível, ainda que sempre impactante, mas que em 94 minutos termina por nos afastar daquelas vidas que ganham relevo para nós.
Talvez a minha frustração seja ter desejado que o filme fosse aquilo que poderia ter sido; um estudo de personagens que carregam em si filmes inteiros, e não um terço fílmico. Ao optar por costurá-las, De Pue cria uma unidade temática em torno do mesmo conflito, apesar de sacrificar a intensidade dramática ou o envolvimento emocional. E, ainda assim, mesmo com esta minha frustração, Mariinka encontra momentos de verdade. E, em tempos de imagens excessivamente explicativas ou personagens humanos rasos, talvez isso já seja mais do que suficiente.
English review
In Mariinka, director Pieter-Jan De Pue relieves himself of the obligation to explain the war in order to feel it, which distinguishes this opening documentary of CPH:DOX from a broader set of films about Russia’s invasion of eastern Ukraine and the conflict that has already claimed thousands of lives. Shot over the course of nearly a decade and photographed on 16mm, which gives it a particularly appealing appearance akin to a memory album, the film is constructed as a mosaic of lives shaped by war and as an attempt, not always entirely सफल, to express these existences and experiences through cinematic language.
The proposal is clear: three characters, three trajectories, and three ways of relating to the conflict. Natasha, an amateur boxer, now works as a volunteer medic, transforming the pain of losing her loved ones and her city into concrete action. Daniil, adopted as a baby by an American family and renamed with the biblical name Samuel, observes the war from a distance or interacts with it through screens, while trying to reconcile his Ukrainian heritage with his desire to join the army and follow in the footsteps of his brothers Ruslam, Maksim, and Mark. Finally, Angela, who also lost her parents in childhood, is a liminal figure who moves through the fractures of a territory marked by war, smuggling goods and negotiating risks to her own life in order to survive.
There is an interesting conceptual reading here of the possible perspectives within a conflict: Natasha remains and helps as she can; Samuel left before he could even consent and now wishes to return, against the guidance of his adoptive parents and the brothers with whom he communicates through video calls; and Angela crosses the conflict zone and operates within the limits and possibilities that exist. However, by dividing its narrative among these three subplots, the film inevitably dilutes the individual strength of each. What is lacking is not courage, but time to delve deeper into any of these stories. What we see are fragments that, although rich in dramatic potential given the pain and trauma experienced by the characters, rarely achieve the density they suggest.
Paradoxically, it is when Mariinka abandons any explanatory or journalistic ambition, or even the intention of character study, that it finds its strongest form. In moments such as Natasha leaning her head out of a moving car, letting the wind touch her face amid the chaos, the documentary reaches something sublime: a poetic suspension that places us before a mental and spiritual state reminiscent of more sophisticated explorations of the genre, evoking Come and See and The Thin Red Line. The war dissipates, leaving only its residues within the subjectivities of its men and women.

This inclination is reinforced through editing choices that flirt with abstraction and experimentation, in an effort to capture images and construct sequences that are less conventional, challenging the typical realism of the genre while exploring the potential of 16mm cinematography. It is in these moments that the film documents the conflict most effectively, because it explores landscape, sensibility, and human experience rather than reiterating what we already know about the destructive power of weapons or devastated cities. When we observe mountains and natural landscapes from a distance and contrast them with the ruins of Mariinka, we perceive the permanence of the natural in contrast to the human, and the insignificance of the individual within a war zone.
Conversely, when the direction attempts to formulate a thesis, the film weakens and at times feels naïve. The association between contemporary warfare, mediated by drones and technologies that distance combatants from combat, and the video games played by Samuel in the United States functions merely as a cinematic gesture that underlines something obvious and essential for the continuation of violence: the dehumanization that arises from distance, which can even place brothers on opposing sides. The analogy is present, but it lacks the subtlety found in the film’s strongest moments.
In the end, Mariinka offers what many war documentaries inevitably provide: the conclusion that war destroys cities, bodies, blood ties, and meaning. The aerial images of the devastated city, the skeletal remains of buildings, the men in trenches trying to survive the absurdity of everyday life while drones drop bombs all contribute to a recognizable imagery that, although always impactful, ultimately distances us from the lives that briefly gain prominence.
Perhaps my frustration lies in wishing the film had been what it could have been: a character study of individuals who each carry entire films within themselves, rather than a divided narrative. By choosing to weave them together, De Pue creates a thematic unity around the same conflict while sacrificing dramatic intensity and emotional involvement. Even so, despite this frustration, Mariinka finds moments of truth. And in times of overly explanatory images or shallow human portrayals, that may already be more than enough.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


