Eu achava que meu primeiro contato com Jean-Claude Bernadet tinha sido ao lado de Luís Sérgio Person, quando assisti — já na faculdade de jornalismo — O Caso dos Irmãos Naves, dirigido por Person e roteirizado por Bernadet. Mas, surpreendentemente, descubro que ele veio bem antes. Surgiu nas minhas primeiras incursões por sebos e livrarias, em busca de livros sobre cinema. Foi ali que encontrei um volume pequeno, simples, mas cujo título já apontava para tudo que eu ainda iria aprender: O Que é Cinema. Não à toa, fazia parte da coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense.
Hoje, ao finalizar este texto, soube da morte de Bernadet. Volto à abertura, então, não apenas para reescrevê-la, mas para honrar sua presença nos meus próprios primeiros passos em direção à crítica.
Os Ruminantes, documentário de Tarsila Araújo e Marcelo Mello, parte do desejo de reconstruir a história de um filme jamais lançado: A Hora dos Ruminantes, projeto idealizado por Luís Sérgio Person e Jean-Claude Bernadet, inspirado no romance homônimo de José J. Veiga.
É inevitável a comparação com Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho — outro filme que tenta remontar a produção de uma obra inviabilizada pela repressão política. Assim como o clássico de Coutinho, Os Ruminantes funciona também como uma cinebiografia do cinema durante a ditadura militar no Brasil.
Revisitar os bastidores dessa obra considerada “maldita” acaba aprofundando discussões sobre a própria morte de Person. Oficialmente, ele faleceu em um acidente automobilístico, mas à época era visto como persona non grata pelos militares. O filme resgata teorias nascidas nos porões do DOI-CODI, com depoimentos extraídos sob tortura que afirmam que os negativos da filmagem teriam sido vendidos a um grupo comunista, pagos com dinheiro de assaltos a banco e, depois, adquiridos por Rogério Sganzerla para uso em Copacabana Mon Amour.
Apesar do conteúdo tenso, o documentário não exibe imagens de violência. Ainda assim, a aura opressiva é constante — reflexo do contexto do AI-5, em que o filme original seria ambientado. Há, portanto, um estado de suspensão que paira sobre o espectador, embora a montagem e a estética convencionais de Os Ruminantes limitem o impacto dessa atmosfera.
Para além dos acervos pessoais de Person e Bernadet — que revelam detalhes do projeto interrompido —, os diretores fazem uso de outras obras do cinema nacional para construir sua narrativa. Entre elas, O Caso dos Irmãos Naves e São Paulo Sociedade Anônima, o que reforça o caráter historiográfico da produção.
É justamente ao tentar se aproximar da obra que pretende homenagear que Os Ruminantes encontra seu limite. José J. Veiga, ao lado de Murilo Rubião, é um dos precursores do realismo mágico na literatura brasileira. Person e Bernadet teriam expressado o desejo de incorporar elementos do gênero em sua adaptação. O documentário, porém, se contenta em sugerir o sobrenatural por meio de trilha sonora atmosférica e referências indiretas ao caráter “amaldiçoado” do filme nunca feito.
O valor artístico dá lugar ao valor histórico — e é nesse ponto que o filme encontra sua maior força. Metalinguístico, Os Ruminantes é testemunho de um cinema feito sob risco, com arquivos, memórias e silêncios. Lançado pouco após a tentativa de golpe de 2022, serve como alerta: há tempos que não podem — e não devem — retornar.
Mas o filme é mais que registro: é permanência. Uma forma de manter viva a memória do nosso cinema. E de manter vivos, por meio de suas palavras — algumas pronunciadas pela última vez —, Luís Sérgio Person e Jean-Claude Bernadet. Saber da morte de Bernadet hoje, enquanto escrevo este texto, transforma essa homenagem em despedida. E reafirma a urgência de lembrar, de escutar, de filmar.

Os Ruminantes foi assistido na Mostra Competitiva do 20º CineOP, A Mostra de Cinema de Ouro Preto.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.



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