Por entre corredores repetitivos e claustrofóbicos, tingidos por tons de um amarelo envelhecido, em uma edificação que parece se estender horizontal e verticalmente em direção ao infinito, uma câmera fantasmagórica passeia e adentra os cômodos, encontrando personagens e espaços, vazios e silêncios.
Poderia estar falando sobre Backrooms: Um Não-Lugar, que estreou nos cinemas de Fortaleza majoritariamente em sessões dubladas, com exceção das sessões às 21h30 e 22h, mais apropriadas aos notívagos do que aos madrugadores, categoria na qual me incluo, mas estou falando do documentário vencedor do É Tudo Verdade!, Copan, da cineasta Carine Wallauer.
Projetado por Oscar Niemeyer na década de 1950 e inaugurado apenas em 1966, o Edifício Copan é um marco arquitetônico modernista do centro de São Paulo, com cerca de 1.100 apartamentos e mais de 5.000 vidas abrigadas em seu interior. Entre essas vidas está a da própria Carine, que habitou aquele espaço durante um período de sua trajetória. Agora, retorna para investigá-lo e reocupar filmicamente o lugar que havia deixado.
Essa investigação é tão humana, política e realista quanto arquitetônica, espacial, expressionista e, por que não, fantástica. Desde a tomada externa pós-prólogo, na qual o Copan, maciço e impávido, paira acima dos arranha-céus à distância e dos prédios habitacionais e comerciais vizinhos, a sensação que tive foi a de entrar em uma distopia. A trilha sonora contribuiu para isso. Senti estar visitando não um cenário concreto, mas uma abstração saída do universo de Blade Runner, com a neblina e a iluminação ajudando nesse processo de desfamiliarização.
E, para mim, esses foram os melhores momentos de Copan, quando Carine apenas observava o prédio em sua majestade contraditória. De fora, uma fortaleza impenetrável senão pela câmera; de dentro, um microcosmo de uma sociedade idiossincrática e fragmentada. Essa mesma câmera externa se eleva como se estivesse subindo a escadaria espiralada e adentra a edificação, onde curiosamente passeia e investiga os espaços.
Gostei de comungar desse olhar realista, pois se trata de um retrato de uma realidade material, concreta e feita de concreto, posteriormente desnaturado em uma imagem irreal, espiritual e até alienígena. Esses planos longos nos quais a cineasta apenas percorre o Copan me estimularam a divagar, a ir além do que observava rumo a um lugar que apenas imaginava.
Tive uma relação igualmente prazerosa ao acompanhar algumas das vidas que habitam o edifício, que interessaram à diretora e autorizaram o uso de suas imagens. Um DJ, uma profissional do sexo na internet, uma manicure e sua cliente, que recorda quando foi presa, torturada e posteriormente enviada pelo pai para Portugal. Não apenas as vidas dos moradores chamam atenção, mas também as dos profissionais que mantêm e reformam a edificação, ou que trabalham na recepção e na administração. Um deles é o síndico há mais de três décadas, Affonso Prazeres, que agora atravessa mais uma disputa eleitoral, realizada por meio de um aplicativo de videoconferência e que torna a realidade tão oblíqua quanto a fotografia.
Apesar de gostar de acompanhar as etapas da eleição para síndico, não há material suficiente para sustentar minha relação intelectual e emocional com esse conflito. Então apelei aos princípios que carrego comigo: a permanência por tanto tempo em uma posição de poder é, por si só, motivo para questionamento, nem que apenas pela necessidade de alternância e de renovação de ideias e projetos. Por outro lado, dentro do cenário apresentado, sou levado a confiar na dedicação de Affonso à função, o que acaba conferindo à eleição o caráter de defesa de um legado.
Entretanto, se há algo que me incomoda no documentário, é a relação explícita estabelecida entre a eleição para síndico e a eleição presidencial de 2022. Até por sua dimensão, o Copan é facilmente encarado como uma alegoria da sociedade brasileira e da polarização política que se aprofundou desde junho de 2013. Carine converte uma relação que funcionava no plano da sugestão visual em uma equivalência explícita. Assim, de certo modo, trai a característica observacional, simultaneamente realista e etérea, do registro. Ao opor lulistas e bolsonaristas – alguns dos quais tão prosaicos que até compreendo o desejo de transformá-los em matéria cinematográfica – e ao apresentar argumentos e discursos políticos, a cineasta acrescenta ao concreto uma camada adicional que me parece dispensável.
O Copan já é espacial e humanamente cinemático, tanto pela câmera que observa à distância as vidas que habitam e trabalham na edificação quanto pela câmera que transforma a matéria inorgânica – a fachada, os corredores e os aposentos – em um organismo vivo, que respira conforme o ritmo da edição, da trilha sonora e da decupagem de Carine. Nesse cenário, a política eleitoral – não a política inevitavelmente presente em todas as relações humanas – surge como um elemento que fragiliza os alicerces de um documentário que já encontrava, no espaço e nos corpos que o habitam, matéria cinematográfica suficiente.
Copan estreou nos cinemas quinta-feira.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.

