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Território

Classificado como 3 de 5

Território

2025

87 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Telma Hoyler

Sou suburbano do Rio de Janeiro, mas assistir a Território despertou uma familiaridade inesperada. Antes mesmo de acompanhar a campanha de Geraldo à Câmara Municipal de São Paulo, fui transportado para M’Boi Mirim. Pensei nas vezes em que estive na região visitando meus ex-cunhados — e eternos amigos — Emanuelle e André, circulando pela represa de Guarapiranga e conversando sobre política em um período não muito distante daquele retratado pelo documentário. Mas pensei, sobretudo, em Homem na Estrada, dos Racionais MC’s, canção que ajudou a eternizar aquele território no imaginário brasileiro muito antes de Telma Hoyler apontar sua câmera para ele.

Essa memória não é gratuita. Em Território, M’Boi Mirim não surge apenas como cenário para uma eleição municipal. O bairro se impõe como personagem vivo, atravessado por disputas políticas, religiosas e culturais que ajudam a compreender não apenas o resultado das urnas, mas as transformações mais profundas de uma periferia historicamente ligada à esquerda. Acompanhando a primeira campanha de Geraldo como candidato a vereador pelo PT, Hoyler encontra um território onde a memória dos movimentos sociais, a influência das igrejas evangélicas, o conservadorismo crescente e os vínculos comunitários coexistem em permanente tensão.

Embora o filme tenha como ponto de partida a trajetória de Geraldo, rapidamente fica evidente que o interesse da diretora extrapola o acompanhamento de uma campanha eleitoral. O que está em jogo é a observação de um território em transformação. Um espaço que já figurou entre os mais importantes redutos eleitorais do PT, associado a lideranças como Marta Suplicy, mas que hoje abriga novas formas de pertencimento político e valores que nem sempre dialogam com a tradição da esquerda.

Geraldo durante a campanha – Imagem: Divulgação

Uma das qualidades mais interessantes de Território é a recusa em simplificar essas mudanças. Hoyler não ignora a ascensão do conservadorismo nem a influência crescente da fé na reorganização política da periferia, mas evita transformar esses fenômenos em diagnósticos fechados. Em vez disso, prefere observar como eles atravessam as relações cotidianas.

Ao longo do documentário, encontramos moradores que demonstram carinho e confiança por Geraldo, mesmo sem compartilhar integralmente das bandeiras do partido ao qual ele pertence. Em outros momentos, surgem personagens desencantados com a política institucional, incapazes de identificar mudanças concretas em suas vidas independentemente de quem ocupa o poder. O filme compreende que essas percepções fazem parte da experiência democrática e resiste à tentação de enquadrá-las em respostas fáceis.

Talvez o exemplo mais interessante dessa postura esteja em um personagem que já atuou como militante e cabo eleitoral da esquerda, mas que hoje se identifica mais com posições de centro-direita. Hoyler poderia transformar essa trajetória em um discurso sobre contradição ou incoerência. Em vez disso, escolhe confiar na imagem. Enquanto o personagem fala sobre oportunidades e conquistas, a câmera registra silenciosamente uma casa ainda em construção, marcada por uma realidade material distante de qualquer ideia de prosperidade plena. Não há narração explicativa, tampouco julgamento. A diretora parece confiar que o espectador saberá habitar o espaço entre o que é dito e o que é mostrado.

Essa confiança atravessa todo o documentário. Mesmo assumindo um olhar claramente situado à esquerda ao escolher Geraldo como protagonista, Hoyler demonstra respeito pelas vozes que divergem de suas próprias convicções. O filme escuta mais do que responde. Em um cenário político frequentemente reduzido a slogans e antagonismos rasos, essa disposição para observar pessoas reais — com suas ambiguidades, crenças e contradições — torna-se uma de suas maiores virtudes.

É justamente por isso que Território encontra seus melhores momentos quando abandona a lógica da cobertura eleitoral para se aproximar de uma observação quase etnográfica do cotidiano. A eleição funciona menos como objetivo final e mais como ferramenta para revelar as forças que moldam aquela comunidade. Fé, pertencimento, memória política, ressentimento, esperança e pragmatismo convivem no mesmo espaço, muitas vezes dentro das mesmas pessoas.

Se a escuta e a observação são os grandes trunfos do filme, a montagem nem sempre consegue organizar esse material com a mesma precisão. À medida que novos personagens e temas surgem, a narrativa perde parte de sua unidade. Geraldo, inicialmente apresentado como eixo dramático da obra, desaparece por longos períodos, retornando apenas em momentos decisivos da campanha e das eleições. Embora os desvios frequentemente conduzam às passagens mais interessantes do documentário, eles também contribuem para uma sensação de dispersão.

Há momentos em que Território parece dividido entre diferentes filmes igualmente instigantes: o retrato de uma campanha eleitoral, a investigação sobre as transformações políticas da periferia, a influência da religião no comportamento eleitoral e o mosaico humano de M’Boi Mirim. O problema não está na coexistência desses interesses, mas na dificuldade de articulá-los em uma progressão narrativa mais orgânica.

Ainda assim, essa fragilidade estrutural não diminui a relevância do olhar construído por Hoyler. Ao final, permanece a sensação de que o verdadeiro protagonista nunca foi Geraldo nem a disputa eleitoral de 2024. É o próprio M’Boi Mirim. O mesmo território que há décadas inspira músicas, movimentos políticos, promessas de transformação e disputas por representação. Um lugar onde diferentes visões de mundo convivem, se confrontam e se reinventam diariamente. Um território que o filme observa com curiosidade, sensibilidade e, sobretudo, disposição para escutar.

Território teve sua pré-estréia dia 07 de Maio, no Cine Bijou, em São Paulo.

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