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La Perra

Classificado como 2.5 de 5

La Perra

2026

112 minutos

Classificado como 2.5 de 5

Diretor: Dominga Sotomayor

Crítica em português

Filmes protagonizados ou estrelados, se é que estas palavras são adequadas, por animais tem um obstáculo em transformar a abstração em uma expressão senão não necessariamente concreta, capaz de dialogar emocionalmente com o espectador. Pode-se confirmar nos documentários da natureza, em que os narradores normalmente tentam atribuir um valor narrativo às ações dos animais, ou ao menos, explicá-las, e em comédias e dramas nos quais os animais funcionam como catalisador, metáfora ou escada para o amadurecimento ou desenvolvimento dos personagens e de seus conflitos. La Perra habita um entre lugar: nem é um filme sobre a natureza per se, embora algumas de suas passagens possuam este valor, e nem é apenas um drama sobre a relação de uma personagem com um animal, e que termina por despertar sentimentos e disparar gatilhos.

Com a direção e o roteiro da cineasta chilena Dominga Sotomayor (de Limpa e Tarde Demais para Morrer Jovem), La Perra é ambientado em uma ilha remota. Nela, Silvia (Oyarzún) trabalha na colheita de algas marinhas e compartilha uma existência aparentemente pacata e com o companheiro Mario (Gaete), que está mais ausente do que presente, o que já ajuda a deduzir muita coisa. A rotina de Silvia muda, sutilmente, quando adota o filhote abandonado, Yuri, ocupando os seus dias com um afeto e uma ternura que permaneciam dormentes. Não é em vão que o aparecimento de Yuri é contemporâneo à gravidez de uma familiar, porém este desejo de se tornar mãe – se é que posso afirmar assim – é interrompido com o desaparecimento da cachorra, que leva Silvia a um momento traumático do passado.

Durante os 20 minutos iniciais da narrativa, Dominga Sotomayor estabelece a geografia daquela localidade, assim como a rotina diária de Silvia, caracterizada pelo isolamento autoimposto, pelo silêncio interrompido apenas pelos ventos fortes e pelas ondas que quebram com violência nos rochedos. Além de colher algas, Silvia ainda cuida de uma propriedade encravada em uma posição privilegiada na ilha, uma residência em concreto, com esquadrias que encaram o mar e uma monumentalidade que até parece desafiar as construções naturais. Ali também está encravado o trauma de seu passado. O aparecimento de Yuri não modifica radicalmente o dia a dia de Silva; torna-se porém uma presença constante que, quando não está observando a tutora, está explorando a natureza, interagindo com os animais da região.

Conhecendo o trabalho anterior de Dominga, é fácil entender o que a atraiu a um projeto que é compatível com a sua sensibilidade mais naturalista e codificada, em que o drama é descoberto escondido por trás de camadas de introspecção, do não dito. Ok, não tão não dito assim, já que a quebra do presente narrativo com a memória do passado – o desaparecimento de Nico, filho do proprietário Duda (Mello) – torna tudo mais evidente. Quando Yuri desaparece, Silvia pensa ter morrido; afinal, a vida a ensinou a esperar isso. É a ironia trágica que é temperada, ainda, com o sentimento de injustiça de quem é abandonada ou tem arrancada de perto de si aquela existência que parecia dar mais sentido à sua vida.

Mas acredito que o espectador terá muita dificuldade em atravessar a aparentemente monótona realidade de Silvia, que só é modificada por parte do gesto narrativo de interromper o tempo presente e resgatar o passado. Além de o arco dramático de Silvia ser desenvolvido a partir de conflitos que não se anunciam como tal – por exemplo, sua decisão em relação a uma ninhada de filhotes -, o comportamento introspectivo prejudica o envolvimento emocional do espectador. É coerente, com a realidade de uma ilha em que os habitantes não têm muito tempo ou interesse em se aprofundar nas dores dos outros; é ainda apropriado a um filme que se expressa a partir da natureza, ou do sol acolhedor de final de tarde, ou do mar tranquilo que promete um dia idem, ou dos ventos agitados que comunicam o estado mais emocionalmente perturbado dos personagens.

A natureza é o diálogo de La Perra, e talvez os melhores momentos sejam aqueles em que Yuri perde-se na natureza, investigando aquela região, interagindo com seus habitantes (os cavalos, os bois e as pessoas que passeiam e acampam), registrado por uma câmera satisfeita em retratar a liberdade e não em fazer comentários. A trilha incidental também é auxiliar em capturar o que é internalizado: é a música na televisão, é a canção tocada no violão por Selton Mello; mas, de novo, é um compromisso que exige um nível de abstração, com que uma parte do público, uma significativa, não está disposta a se comprometer.

Acho que o terço final da narrativa é ainda mais escorregadio neste aspecto. Para além de o trauma da infância retornar na destruição de um item do quarto de Nico e no reaparecimento de Duda, enxergado como uma presença inicialmente agradável, e depois ameaçadora, visto à distância, de baixo para cima, ou como uma memória fantasmagórica de um passado que havia tentado esquecer, a relação entre Silvia e Yuri atinge um ponto incompreensivelmente agressivo. Até compreendo que o abandono da ninhada de filhotes é representativo da rejeição da maternidade, em favor da liberdade; só luto para compreender em que momento esta transformação operou-se, tanto em Yuri, quanto em Silvia. O que a violência e a imagem atrás de chamas podem sugerir dentro dessa, aparente, discussão sobre o desejo de ser mãe, depois sobre a rejeição violenta da maternidade.

Nem acho que seja por ser homem, não é ignorar as complexidades do tema, é só mesmo que a encenação e os símbolos terminaram por me frustrar mais do que me estimular. A arte é melhor quando propõe suas perguntas, e Dominga faz isto bem melhor, a meu ver, do que quando sugere as respostas para aquelas personagens. Humanas ou não.

O filme está na seleção da Quinzena dos Diretores do Festival de Cannes 2026.


English review

Films led by or centered around animals — if those words are even appropriate — face the challenge of transforming abstraction into an expression that, if not entirely concrete, is at least capable of emotionally engaging the viewer. One can observe this in nature documentaries, in which narrators usually attempt to assign narrative value to the animals’ actions, or at least explain them, and also in comedies and dramas where animals function as catalysts, metaphors, or stepping stones for the maturation and development of human characters and their conflicts. inhabits an in-between space: it is neither a film strictly about nature itself, although some of its passages certainly possess that quality, nor merely a drama about the relationship between a character and an animal that ultimately awakens feelings and triggers emotional wounds.

Directed and written by Chilean filmmaker Dominga Sotomayor (of ), La Perra is set on a remote island. There, Silvia (Oyarzún) works harvesting seaweed and shares an apparently quiet existence with her partner Mario (Gaete), who is more absent than present — which already reveals quite a lot. Silvia’s routine changes subtly when she adopts an abandoned puppy, Yuri, filling her days with an affection and tenderness that had long remained dormant. It is no coincidence that Yuri’s arrival coincides with the pregnancy of a relative, although this desire to become a mother — if I may put it that way — is interrupted when the dog disappears, leading Silvia back to a traumatic moment from her past.

During the narrative’s first twenty minutes, Dominga Sotomayor establishes the geography of that location as well as Silvia’s daily routine, marked by self-imposed isolation, by silence interrupted only by strong winds and waves violently crashing against the rocks. Besides harvesting seaweed, Silvia also takes care of a property perched in a privileged position on the island: a concrete residence with windows facing the sea and a monumentality that almost seems to challenge the surrounding natural formations. Silvia’s past trauma is embedded there as well. Yuri’s appearance does not radically transform Silvia’s everyday life; instead, the dog becomes a constant presence who, when not observing her caretaker, is exploring nature and interacting with the region’s animals.

Knowing Dominga’s previous work, it is easy to understand what attracted her to a project so compatible with her naturalistic and restrained sensibility, one in which drama is discovered hidden beneath layers of introspection and unspoken feelings. Well, perhaps not entirely unspoken, since the rupture of the narrative present through memories of the past — the disappearance of Nico, the son of the property owner Duda (Mello) — makes everything clearer. When Yuri disappears, Silvia assumes the dog has died; after all, life has taught her to expect exactly that. It is a tragic irony further tempered by the feeling of injustice experienced by someone who is abandoned or has ripped away from them the very existence that seemed to give greater meaning to life.

Still, I believe the viewer will struggle to move through Silvia’s seemingly uneventful reality, altered only by the narrative gesture of interrupting the present to recover the past. Not only is Silvia’s dramatic arc developed through conflicts that do not immediately announce themselves as such — for example, her decision regarding a litter of puppies — but her introspective behavior also weakens the viewer’s emotional involvement. It is coherent with the reality of an island whose inhabitants neither have the time nor the interest to delve deeply into one another’s pain; it is equally appropriate for a film that expresses itself through nature itself, through the welcoming late-afternoon sun, through the calm sea promising an equally calm day, or through turbulent winds that communicate the characters’ more emotionally disturbed states.

Nature is the language of La Perra, and perhaps the film’s best moments are those in which Yuri gets lost in the landscape, investigating the region and interacting with its inhabitants — horses, cattle, and the people who walk and camp there — all captured by a camera content simply to observe freedom rather than comment upon it. The incidental soundtrack also helps capture what remains internalized: music playing on the television, a song performed on guitar by Selton Mello. But again, this is a commitment that demands a degree of abstraction that a significant portion of the audience may not be willing to embrace.

I think the narrative’s final third becomes even more slippery in this regard. Beyond the return of childhood trauma through the destruction of an object in Nico’s bedroom and the reappearance of Duda — initially perceived as a pleasant presence, later as a threatening one, seen from a distance, from below, almost like a ghostly memory of a past Silvia had tried to forget — the relationship between Silvia and Yuri reaches an inexplicably aggressive point. I can understand that abandoning the litter symbolizes a rejection of motherhood in favor of freedom; I simply struggle to understand when exactly this transformation took place, both in Yuri and in Silvia. What exactly the violence and the image framed by flames are meant to suggest within this apparent discussion about the desire for motherhood, followed by the violent rejection of it.

And I do not think this has anything to do with being a man, nor with ignoring the complexities of the subject. It is simply that the staging and symbolism ultimately frustrated me more than they stimulated me. Art is at its best when it proposes questions, and Dominga, in my view, does this far better than when she attempts to suggest answers for those characters — human or otherwise.

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