Crítica em português
Em uma noite de verão de 1972, na residência do músico Duke Ellington, um grupo de artistas e intelectuais negros conversou sobre o legado cultural e histórico do movimento chamado Renascimento do Harlem. Um reencontro regado por bebidas, música e discussões, documentado pelo cineasta William Greaves num tesouro do audiovisual e da história afro estadunidense, que, depois da restauração e montagem do material fotografado em 16mm, foi exibido no Festival de Sundance, é lançado na Quinzena dos Diretores do Festival de Cannes.
É injusto julgar um projeto que há mais de meio século está em incubação e, mais ainda, um que reúne homens e mulheres letrados em algo que eu desconheço – a memória do povo negro nos Estados Unidos e o papel da arte em expressar a sensibilidade de cada um. De certo modo, portanto, Once Upon a Time in Harlem é um convite para que pudesse conhecer a obra, por exemplo, do pintor e ilustrador Aaron Douglas, do pianista Eubie Blake, a bibliotecária Regina Anderson, o fotógrafo James Van Der Zee, e tantos outros que não inclui a fim de não estender demasiadamente este texto.
Claro que eu poderia julgar o documentário pelo valor cinematográfico, pura e simplesmente, mas como negar o seu valor histórico, não somente em termos do conteúdo apresentado e debatido, mas em termos materialistas propriamente dito, em assistir a este documento atravessar a história para que eu o assistisse em 2026? Não há como negar este documentário, porque, da mesma forma que negar uma figura histórica é negar a si mesmo, também negar este registro é negar a ideia de cinema como instrumento de preservação da história, memória e da criação de um hoje e amanhã.
Portanto, mergulhei em cada minuto, em cada prosa e em cada ideia arguida e debatida, mas jamais agredida, como um presente dado a mim (posso apenas especular como este presente tem ainda maior valor a pessoas afro estadunidenses, que poderão adquirir letramento ou repertório, enquanto assistem àqueles que influenciaram o pensamento contemporâneo). Um bom exemplo para entender melhor é o jazz. Este gênero musical pode ser revolucionário em comparação com os outros gêneros musicais, mas não para aquela comunidade que é filha de uma geração de pessoas escravizadas libertas, ou é oriunda das Antilhas, onde estudaram e carregaram o seu conhecimento aos Estados Unidos. Ou a dramaturgia, que evoluiu dos medicine shows aos minstrel shows – aqueles em que pessoas negras usavam blackface para acentuar seus traços étnicos -; do vaudeville até o teatro negro. E daria a ir adiante, pensar nos race movies de Oscar Micheaux ou no movimento blaxploitation do cinema.
Para além da arte, como o Harlem se tornou este berço do pensamento ativista, artístico e, muitas vezes, socialista da comunidade negra, de uma geração que não pôde conhecer o seu berço no continente africano e apenas especulou uma memória arrancada pelas forças de escravagistas. Ou refletir como, a partir do desenvolvimento político, social e econômico da comunidade negra, pôde aflorar a arte. Claro, esta pode advir de onde for, mas é mais fácil quando a semente cai em um terreno apropriado, em que pode criar as próprias formas ou os próprios diálogos com as suas próprias alegrias, tristezas, sonhos e medos. E o documentário é um caldeirão efervescente em que não só ideias originais são semeadas, mas especialmente em que as ideias de ontem, os frutos das árvores plantadas há décadas, são objeto de escrutínio para afirmar ou contestar o seu valor na sociedade contemporânea (leia-se: na década de 70).
Aqui, entra um ponto mais importante do documentário, o modo como convida o espectador ao engajamento ativo com o que discutido. Por estarmos em 2026, não dá para imaginar que o que aquelas pessoas refletiram tenham se conversado ao longo do tempo. Claro, não há dúvida de que a humanidade, dignidade e o direito à existência e à identidade histórica e cultural não podem ser negadas ontem, hoje e sempre; só que, se o Renascimento do Harlem foi alvo de críticas por parte dos movimentos sucedentes, decerto será pela nova geração em um processo fértil de interação histórica e que tem o poder de, imagino, conduzir a comunidade negra dos Estados Unidos – também do mundo, se pensarmos que este país é uma espécie de locomotiva em alguns temas – em direção a um local mais justo.
A crítica de que aqueles artistas e intelectuais se apoiaram na linguagem artistica e intelectual criada e e desenvolvida por pessoas brancas é, no todo ou em parte, rejeitada, por quem não encontra ecos na arte pictórica ou musical negra da influência branca. Salvo se responder à história ou à realidade fosse forma de se apropriar. Nisto, o que mais me impressionou – embora não devesse – foi uma visão profética e antecipatória de que o registro de William Graves se tornaria um documento cinematográfico para compreender um movimento histórico e um momento específico do tempo.
Uma profecia concretizada em um filme sobre um movimento que, ciente de que o povo negro lentamente lutava contra a desigualdade, a injustiça e as formas exploratórias e segregatórias, reconhecia a importância de criar uma unidade de pensamento, ou uma Meca, como o Harlem é denominado, para o qual as estradas paralelas e, às vezes, concorrentes conduzissem o seu povo em direção a um mundo ou sociedade melhor. Eu me senti presenteado por Once Upon a Time in Harlem, mesmo ciente de que, nesta história, sou só um espectador. Um consciente após anos de experiência e repertório do olhar e da empatia que, caso não possa ajudar, ao menos não irei atrapalhar um movimento imparável em direção à igualdade.
O filme está na competição da Quinzena dos Diretores do Festival de Cannes 2026.
English review
On a summer night in 1972, at the home of musician Duke Ellington, a group of Black artists and intellectuals gathered to discuss the cultural and historical legacy of the movement known as the Harlem Renaissance. A reunion fueled by drinks, music, and debate, documented by filmmaker William Greaves in what became a treasure of audiovisual and African American history, which, after the restoration and editing of the material shot on 16mm, premiered at the Sundance Film Festival and is now screening at the Directors’ Fortnight of the Cannes Film Festival.
It would be unfair to judge a project that has remained in incubation for more than half a century, and even more so one that gathers men and women deeply literate in something I myself do not know — the memory of Black people in the United States and the role of art in expressing the sensibility of each individual. In a way, then, Once Upon a Time in Harlem became an invitation for me to discover the work of figures such as painter and illustrator Aaron Douglas, pianist Eubie Blake, librarian Regina Anderson, photographer James Van Der Zee, and many others I will not mention here simply to avoid extending this text even further.
Of course, I could judge the documentary purely by its cinematic value, but how could one deny its historical importance — not only in terms of the content presented and debated, but in the materialist sense of watching this document traverse history so that I could encounter it in 2026? There is no way to deny this documentary, because, just as denying a historical figure is denying oneself, denying this record is also denying the very idea of cinema as an instrument for preserving history, memory, and the possibility of creating both a present and a future.
Thus, I immersed myself in every minute, every conversation, and every idea raised and debated — though never attacked — as though it were a gift offered to me. (I can only speculate how much greater this gift must be for African Americans themselves, who may acquire knowledge and cultural repertoire while listening to those who shaped contemporary thought.) Jazz serves as a useful example. This musical genre may appear revolutionary in comparison to others, but not for that community, which descended from generations of formerly enslaved people, or from those who came from the Caribbean, where they studied and carried their knowledge into the United States. The same could be said of theater, which evolved from medicine shows to minstrel shows — those performances in which Black people used blackface to exaggerate ethnic features — from vaudeville to Black theater. And one could continue further still, thinking of the race movies of Oscar Micheaux or the Blaxploitation movement in cinema.
Beyond art itself, the documentary reflects on how Harlem became this cradle of activist, artistic, and often socialist thought within the Black community — a generation unable to know its origins on the African continent and forced instead to speculate about a memory violently stolen by slaveholders. Or on how, through the political, social, and economic development of the Black community, art itself was able to flourish. Of course, art can emerge from anywhere, but it grows more easily when the seed falls on fertile ground, where it can create its own forms and dialogues out of its own joys, sorrows, dreams, and fears. The documentary becomes an effervescent cauldron in which not only original ideas are planted, but where the ideas of yesterday — the fruits of trees planted decades earlier — are scrutinized in order to affirm or contest their value within contemporary society (that is to say, the 1970s).
And here lies the documentary’s most important quality: the way it invites the viewer into active engagement with everything being discussed. From the perspective of 2026, it is impossible to imagine that the reflections shared by those individuals did not continue resonating throughout history. There is no doubt that humanity, dignity, and the right to existence and historical and cultural identity can never be denied — not yesterday, not today, not ever. Yet if the Harlem Renaissance itself became the target of criticism from the movements that followed it, then it will certainly continue to be challenged by newer generations in a fertile process of historical interaction, one capable, I imagine, of guiding the Black community in the United States — and perhaps throughout the world, given how much that country functions as a locomotive on certain issues — toward a more just society.
The criticism that those artists and intellectuals relied upon artistic and intellectual languages created and developed by white people is rejected, wholly or partially, by those who find no echoes of white influence in Black painting or music. Unless, of course, responding to history or reality is itself considered a form of appropriation. In this regard, what impressed me most — though perhaps it should not have — was the prophetic awareness that William Greaves’ footage would one day become a cinematic document through which future generations could understand both a historical movement and a specific moment in time.
A prophecy fulfilled in a film about a movement that, fully aware Black people were slowly struggling against inequality, injustice, and exploitative and segregationist systems, recognized the importance of creating a unity of thought — or a Mecca, as Harlem is described — toward which parallel and sometimes competing roads might guide its people in search of a better world or society. I felt profoundly gifted by Once Upon a Time in Harlem, even while understanding that, within this history, I am merely a spectator. A conscious one, shaped by years of experience, perspective, and empathy, who understands that, even if I cannot help, I can at least refuse to obstruct an unstoppable movement toward equality.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


