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Love Kills

Classificado como 2.5 de 5

Love Kills

2026

96 minutos

Classificado como 2.5 de 5

Diretor: Luiza Shelling Tubaldini

O universo dos vampiros sempre me fascinou. Na adolescência, eu costumava jogar o RPG Vampiro: A Máscara e explorava diferentes arquétipos a partir do repertório que tinha na época: o filme Entrevista com Vampiro, baseados nos livros de Anne Rice — que eu também li —, além de obras que transportavam essas criaturas para uma ambientação mais contemporânea, como Os Garotos Perdidos e Buffy – A Caça-Vampiros. Mas foi justamente no RPG que mergulhei de vez nesse universo mais gótico e comecei a imaginar como seria trazer essa atmosfera vampírica para dentro do cenário brasileiro.

Love Kills parte justamente dessa ideia. Ambientado em uma São Paulo caótica, noturna e marcada pela marginalidade urbana e pela Cracolândia, o filme acompanha Helena, uma vampira que se torna objeto de fascínio para um jovem garçom de um restaurante alternativo no centro da cidade. Aos poucos, ele vai sendo arrastado para esse submundo vampiresco enquanto tenta decifrar os segredos da figura misteriosa que invade sua vida.

O filme possui uma proposta interessante de adaptação do mito vampírico para a realidade brasileira. Existe uma tentativa de associar essas criaturas a figuras marginalizadas socialmente, embora isso apareça mais como um elemento tangencial do que propriamente como o centro dramático da narrativa. No fundo, Love Kills parece mais interessado em acompanhar personagens que tentam escapar de estruturas que os aprisionam: Helena foge de um passado e de vínculos violentos com outros vampiros, enquanto o protagonista enxerga nela uma possibilidade de ruptura com a própria estagnação e com o emprego sufocante que ocupa sua vida.

Marcos (Gabriel Stauffer) e Helena (Thais Lago) – Imagem: Divulgação

O romance entre os dois se desenvolve justamente nessa dinâmica de fuga e dependência. Conforme a relação avança, ela se torna cada vez mais simbiótica — e, paradoxalmente, também claustrofóbica. Existe algo de curioso nisso: embora os personagens busquem liberdade, o vínculo que constroem acaba reproduzindo outra forma de aprisionamento emocional. Essa contradição dá uma camada interessante ao filme, ainda que nem sempre pareça plenamente consciente dentro da narrativa.

O problema é que, apesar de se apoiar em uma atmosfera de romance gótico e terror urbano bastante sedutora, Love Kills tropeça frequentemente em diálogos artificiais e excessivamente estilizados. Em muitos momentos, o texto não acompanha a força imagética do filme — e isso acaba afetando até mesmo as atuações. A fotografia noturna, por outro lado, é facilmente um dos grandes destaques da obra. Existe um olhar muito sólido para essa São Paulo decadente e melancólica, quase transformando a cidade em uma extensão emocional daqueles personagens.

Mas o principal impacto dessa artificialidade aparece justamente no romance central. Embora o filme tente construir uma relação intensa e obsessiva entre Helena e o protagonista, falta tensão entre os corpos, falta calor entre os personagens. Mesmo em cenas em que o fogo surge visualmente em quadro, a relação nunca transmite combustão emocional. Pelo contrário: os encontros entre os dois parecem frios, quase cadavéricos. Existe uma ausência de desejo palpável que enfraquece justamente aquilo que deveria sustentar o filme.

A fotografia de Jacob Solitrenick que explora a escuridão em contraste com a luz natural do fogo e as luzes artificiais da cidade – Imagem: Divulgação

Talvez isso aconteça porque o romance nunca parece amadurecer organicamente. A relação surge e evolui de maneira automática demais, sem tempo para que o espectador compreenda plenamente por que aqueles personagens se atraem ou por que deveriam arriscar tudo um pelo outro. Como consequência, torna-se difícil se envolver emocionalmente com o casal ou torcer genuinamente por eles.

E é inevitável comparar Love Kills com outros romances trágicos e passionais da cultura pop. Existe algo de Romeo e Julieta nessa ideia de amantes tentando escapar de estruturas que os aprisionam, assim como também surgem ecos de Underworld: Anjos da Noite, especialmente na relação entre Selene e Michael Corvin. A diferença é que, nessas obras, existe uma tensão romântica e física muito mais perceptível, algo que faz o espectador acreditar na intensidade daquela conexão. Em Love Kills, essa centelha raramente acontece.

Entre o elenco, quem mais se destaca é Marat Descartes, interpretando o dono do restaurante. Sua presença transmite uma hostilidade constante e ajuda a criar um dos personagens mais sólidos do filme. É um ator que já chamava atenção desde 2 Coelhos, e aqui novamente demonstra um domínio de cena muito superior ao material que recebe.

No fim, Love Kills talvez funcione melhor como idealização do que como realização plena. A proposta de inserir o imaginário vampírico dentro da maior metrópole brasileira, aproximando horror, romance e decadência urbana, possui força suficiente para despertar fascínio por si só. O problema é que o filme nunca consegue materializar completamente o potencial de sua própria atmosfera. Ainda assim, permanece interessante justamente por tentar construir um vampirismo brasileiro menos aristocrático e mais urbano, sujo e melancólico.

Love Kills foi conferido na abertura da mostra Mestras do Macabro II e estréia nos cinemas em 21 de maio de 2026.

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