Crítica em português
Summer of Three parte de uma premissa familiar ao cinema de amadurecimento: a do jovem de 17 anos, Javi, deslocado de seu ambiente habitual que, forçado a retornar às suas origens por ocasião da perda de um ente querido, acaba descobrindo aspectos desconhecidos de sua identidade e formas distintas de experimentar o mundo. Na ocasião, o diretor, coprodutor e corroterista Carlitos Ruiz-Ruiz ao lado do filho, protagonista, coprodutor e corroterista Marcel Ruiz atualizam esse tropo já familiar para uma geração cuja experiência da juventude é atravessada pela virtualização das relações sociais, pela fragmentação dos vínculos familiares e pela dificuldade de estabelecer conexões materiais com as pessoas e o mundo em que habita. O resultado é um filme simpático e honesto, mas que raramente encontra formas ou caminhos para transcender as convenções do gênero.
O roteiro acompanha o retorno de Javi a Porto Rico para permanecer por 3 semanas. A viagem, motivada pelo funeral e pela necessidade de reencontrar familiares dos quais se distanciou depois da mudança para Los Angeles, é inicialmente vivida como um castigo: o calor e a falta de ar condicionado, a paisagem rural ou a presença de uma galinha no café da manhã, e a imaturidade de quem jamais se aproximou da morte tão de perto. Assim, Javi precisa adaptar-se a um ritmo mais contemplativo, menos conectado; o que não é sinônimo de falta de oportunidades ou conexões. Apenas que estas conexões são de outra forma.
Javi é, portanto, metonímia da geração que cresceu mediando suas experiências através do celular e das redes sociais, mas agora enfrenta a dificuldade de lidar com a imprevisibilidade da vida (na forma da morte) e dos encontros reais. Quando conhece Luife (Paolo Schoene) e Kiki (Kiki Montilla), Javi começa um processo gradual, e nem sempre agradável, de substituição da virtualidade pela realidade e presença.
Nesse sentido, o filme constrói uma fantasia nostálgica sobre a juventude e uma ideia de experiência que parece cada vez mais distante, quiçá inacessível. Andar de motocicleta sem capacete – embora imprudente -, vagar sem rumo ou descobrir o desejo através do contato com outras pessoas. Experimentar a amizade e o amor, na forma da perda da inocência. Tudo isso surge como um conjunto de rituais de passagem que transformam aquele verão em um período de formação emocional. Uma etapa que a vida contemporânea tem retirado da vida dos adolescentes.
E o filme é o tipo de experiência que prega. Em vez de enfatizar conflitos narrativos ou reviravoltas dramáticas, Ruiz-Ruiz aposta em uma acumulação de experiências. O amadurecimento não é o resultado de um acontecimento específico, apesar de haver catalisadores, e sim da experiência diária. Javi aprende a reconhecer suas emoções e frustrações à medida que compartilha o dia a dia com Luife e Kiki, e isto se transforma em um triângulo. Um que funciona bem melhor quando é afetivo, do que quando é amoroso. É que já é demasiadamente comum a ideia de que é o amadurecimento é resultado da exploração do amor, desejo e sexo, o que é um tanto reducionista, apesar de ser, ou parecer ser, o caminho que o filme nos leva.
Ao mesmo tempo, existe um componente autobiográfico interessante. O fato de Marcel Ruiz ter colaborado no roteiro e interpretar Javi confere ao filme uma sensibilidade de que assistimos à memória da juventude sendo reconstituída e revivida. A ideia de nostalgia, então, torna-se ainda mais presente. Isso também contribui para a honestidade que mencionei inicialmente, mesmo quando o roteiro caminha em direção a caminhos previsíveis.
A narrativa ainda explora a dimensão cultural e a importância de mantermos as nossas raízes. Neste sentido, os cenários enxergados pela janela do carro durante uma viagem e a música típica preenchem a paisagem cultural, juntamente com as experiências compartilhadas. A direção aqui tem um olhar semidocumental jamais etnográfico, em como registra a sensibilidade e o comportamento dos personagens e da vida que vivem, um dia de cada vez. Porto Rico deixa de ser só um território estadunidense para ter sua identidade e personalidade na tela em um registro não unidimensional ou estereotipado como costuma ocorrer em algumas produções hollywoodianas.
Ainda assim, existe uma distância entre a intenção do projeto e a arte produzida. Embora seja claramente construído com afeto palpável pelos personagens e pela cultura que promove, Summer of Three raramente alcança um grau maior de complexidade formal e dramática. Seus conflitos permanecem dentro da segurança dos conflitos do cinema convencional, especialmente em se tratando do destino de um personagem. Seus caminhos emocionais percorrem trajetórias já conhecidas de outros filmes, bem como as suas conclusões dificilmente desafiam as expectativas firmadas desde o minuto um – quando entramos em contato com Javi. A impressão é de que esta é uma obra que, como tantas outras, tem uma planta baixa comum povoada por rostos e culturas subrepresentados.
Isso não significa que não tenha gostado do filme. Pelo contrário. A generosidade da equipe é uma qualidade perceptível do início ao fim. É um trabalho delicado em como observa o trio de personagens, sobretudo a vulnerabilidade de um adolescente somente de passagem – espacial e temporal pelo Porto Rico, mas não espiritual. Ao término do período, Javi pode ter a certeza de que as suas raízes são bastante sólidas para sustentá-lo. E de que amadurecer é um processo cotidiano, igual é morrer.
Summer of Three teve estreia mundial no Festival de Tribeca na U.S. Narrative Competition.
English review
Summer of Three begins from a premise familiar to the coming-of-age genre: that of a 17-year-old boy, Javi, displaced from his usual environment and forced to return to his roots after the loss of a loved one, only to discover previously unknown aspects of his identity and new ways of experiencing the world. In doing so, director, co-producer, and co-writer Carlitos Ruiz-Ruiz, alongside his son, lead actor, co-producer, and co-writer Marcel Ruiz, updates this well-worn trope for a generation whose youth has been shaped by the virtualization of social relationships, the fragmentation of family ties, and the growing difficulty of establishing tangible connections with both people and the world they inhabit. The result is a likable and sincere film, one that nevertheless rarely finds forms or pathways capable of transcending the conventions of the genre.
The screenplay follows Javi’s return to Puerto Rico, where he is expected to remain for three weeks. The trip, motivated by his grandfather’s funeral and the need to reconnect with relatives from whom he has grown distant since moving to Los Angeles, initially feels like a punishment: the heat and lack of air conditioning, the rural landscape, the presence of a chicken at breakfast, and the immaturity of someone who has never experienced death at such close range. Javi is forced to adapt to a slower, more contemplative rhythm of life—one that is less connected, though not devoid of opportunities or meaningful relationships. The connections simply take a different form.
Javi therefore becomes a metonym for a generation that has grown up mediating its experiences through smartphones and social media, yet now struggles to confront the unpredictability of life itself—in this case, death—as well as the unpredictability of real human encounters. When he meets Luife (Paolo Schoene) and Kiki (Kiki Montilla), he begins a gradual, and not always pleasant, process of replacing virtuality with reality and presence.
In this sense, the film constructs a nostalgic fantasy about youth and a notion of experience that seems increasingly distant, perhaps even inaccessible. Riding motorcycles without helmets—however reckless it may be—wandering aimlessly, discovering desire through direct contact with other people, experiencing friendship and love through the loss of innocence. These experiences emerge as rites of passage that transform that summer into a period of emotional formation, a stage of life that contemporary society has increasingly removed from adolescence.
And the film itself practices what it preaches. Rather than emphasizing dramatic conflicts or major narrative twists, Ruiz-Ruiz opts for an accumulation of experiences. Maturity is not presented as the result of a single transformative event, although catalysts certainly exist, but rather as a product of everyday life. Javi learns to recognize his emotions and frustrations as he shares his daily routine with Luife and Kiki, and this dynamic eventually develops into a triangle. One that works far better as an emotional bond than as a romantic one. The notion that maturity is primarily achieved through the exploration of love, desire, and sex has become somewhat overused and reductive, even if that is—or appears to be—the direction in which the film ultimately leads us.
At the same time, there is an interesting autobiographical dimension at play. The fact that Marcel Ruiz both co-wrote the screenplay and portrays Javi lends the film the sensitivity of watching youth reconstructed and relived through memory. As a result, the idea of nostalgia becomes even more prominent. It also contributes to the honesty I mentioned earlier, even when the screenplay moves toward predictable territory.
The narrative also explores cultural identity and the importance of maintaining one’s roots. In this regard, the landscapes glimpsed through car windows during long drives and the local music help shape the film’s cultural texture alongside the shared experiences of its characters. Ruiz-Ruiz adopts a semi-documentary gaze that never becomes ethnographic, observing the sensibilities and behaviors of his characters and the life they live one day at a time. Puerto Rico ceases to be merely a U.S. territory and instead emerges with its own identity and personality on screen, portrayed in a manner that avoids the one-dimensional or stereotypical representations often found in certain Hollywood productions.
Even so, there remains a noticeable distance between the project’s intentions and the artistic result. Although clearly built with genuine affection for both its characters and the culture it celebrates, Summer of Three rarely achieves a greater degree of formal or dramatic complexity. Its conflicts remain safely within the boundaries of conventional storytelling, particularly regarding the trajectory of one character. Its emotional developments follow paths already familiar from countless other films, and its conclusions seldom challenge the expectations established from the very first moment we meet Javi. The impression is that this is a work which, like many others, is built upon a familiar blueprint populated by faces and cultures that remain underrepresented on screen.
That does not mean I disliked the film. Quite the opposite. The generosity of the filmmakers is evident from beginning to end. It is a delicate work in the way it observes its trio of characters, particularly the vulnerability of an adolescent who is only passing through Puerto Rico—spatially and temporally, though not spiritually. By the end of the summer, Javi can be certain that his roots are solid enough to sustain him. And that growing up is a daily process, much like dying.
Summer of Three had its world premiere at the Tribeca Festival, where it screened in the U.S. Narrative Competition.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


